Com autoestima restaurada pela alfabetização, Tetê Brandolim pinta telas e dá nova função aos tons vivos do tecido. "Ela descobriu que é uma artista", conta a filha

Traços, contornos e recortes ganharam uma nova dimensão para Therezinha Brandolim, a Tetê, hoje com 83 anos, após o seu longo processo de alfabetização. Erroneamente diagnosticada por antigos professores como vítima de um bloqueio de aprendizado, ela nunca desistiu do seu sonho: aprender a ler. Com o apoio da filha, uma nova educadora e a sonoridade das palavras, ela conseguiu compreender a própria arte, expressar sentimentos guardados havia décadas e ensinar que idade não é um obstáculo. “Aos 82 anos ela descobriu que é uma artista”, conta orgulhosa a filha Maria Zulmira de Souza, de 49.


Nascida e criada em Monte Azul Paulista, a 420 km de São Paulo, Therezinha foi escolhida entre nove irmãos para trocar os estudos pelo trabalho precoce. E, assim, Tetê teria como prioridade casar e criar os próprios filhos. Após a morte do marido, ela voltaria a buscar em salas de aula, em programas de Educação de Jovens e Adultos (EJA) de Ribeirão Preto (SP), a chance de aprender a ler e a escrever. No entanto, após dez anos de estudos e sem significativos avanços, as turmas foram encerradas.

A solução então foi passar uma temporada em São Paulo na casa da filha para ter aulas particulares com Jany Dilourdes Nascimento, professora do Instituto Paulo Freire e especializada em alfabetização. Durante os encontros, que ocorriam três vezes por semana, Jany percebeu a sensibilidade de Tetê para a arte. “Ela rabiscava em papel de pão ou em qualquer papel que poderia encontrar, mas depois escondia os desenhos. E dizia ainda que não sabia desenhar”, conta a professora. Muitos esboços foram encontrados embaixo de tapetes, colchão e no lixo da casa. “Ela não aceitava os personagens imperfeitos”.

Tetê com os primeiros metros de tecido que ganhou.
Arquivo pessoal
Tetê com os primeiros metros de tecido que ganhou. "Ela é a rainha da chita", diz a filha

“A rainha da chita”

Já com maior domínio da escrita, a experiente aluna realizou outro desejo na última Páscoa: enviar cartões com frases de esperança aos familiares em diferentes cidades do País. Mas não qualquer cartão. "Eu queria dar um toque de carinho. Jany então trouxe a chita, não conhecia o tecido ainda”, explica Tetê. As duas então passaram a tarde recortando flores do tecido e confeccionando os cartões. Para a professora, cada cartão deveria receber uma flor, mas Tetê queria centenas.

A partir daquele dia, a idosa passaria a maior parte do seu dia recortando a chita. “Eram flores por todos os lados da casa. Até que ela criou os quadros e se descobriu ali. Eu a chamo de rainha da chita”, conta Maria aos risos. Hoje, as diferentes composições da artista Tetê são vendidas e ganharam força após a divulgação de um perfil no Facebook . Os painéis de 80 x 1 chegam a receber 200 flores, segundo Tetê, e são vendidos a R$ 500.

Ao Delas , a idosa conta que rejeita o título de artista. “Eu fico muito sem graça, não sou tudo isso. Foi um dom que apareceu”, explica. Mas, a lista de encomendas diz o contrário. Muitos esperam uma oportunidade para exibir as telas e quadros de Tetê Brandolim. Para Maria e Jany, o dom não surgiu com o acaso e a alfabetização foi fundamental. “Ter tido acesso à escrita permitiu que ela tivesse segurança para se expressar”, diz a filha.

A professora explica ainda que com os quadros Tetê teve a oportunidade de desmistificar a ideia de que o idoso não aprende. “Ela provou que a vontade de aprender estava sempre ali. A arte que Tetê escondia, hoje ela exibe porque teve sua autoestima restaurada. Não se sente mais uma analfabeta”, explica Jany.

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