Britânico garante que exercitar pensamento negativo diante de situações difíceis é um antídoto contra ansiedade e frustração. Otimismo inesgotável "é o nosso pior inimigo"

Britânico escreve livro que defende o pessimismo como um caminho para a felicidade
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Britânico escreve livro que defende o pessimismo como um caminho para a felicidade

Tudo está dando errado e os planos que antes eram tão sólidos e alcançáveis, hoje, desmoronam ao seu redor. E na hora do desabafo ainda escuta do amigo: “Poderia ser bem pior, vai?”. Ouvir isso pode ser frustrante, mas criar um novo olhar sobre a vida com um toque de pessimismo pode ser a solução para os seus problemas. Pelo menos é o que defende o britânico Oliver Burkeman, autor do livro “Manual Antiautoajuda – felicidade para quem não consegue pensar positivo” (Ed. Paralela). Segundo ele, trilhar o caminho negativo pode ser libertador.

“Tiramos um enorme peso das costas quando entendemos que nunca escaparemos da morte, que o sofrimento é inevitável e que sempre nos sentiremos inseguros no mundo. Redescobrir o poder do pensamento negativo pode nos levar à felicidade. Seguir o caminho negativo é uma questão de fazer o inverso, aquilo que parece ilógico”, explicou Burkeman, em entrevista ao Delas. O livro, que será lançado no Brasil no próximo dia 3, é resultado de uma pesquisa de três anos sobre a ineficácia dos livros de autoajuda vendidos nos EUA.

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De acordo com a experiência do colunista do jornal The Guardian, que provou diversos métodos do “pensamento positivo” e teve contato direto com pessimistas profissionais, muitos eventos que provocam ansiedade ou tristeza recebem um esforço emocional desproporcional. “No caso extremo de uma morte, por exemplo. Se você foi lentamente torturado, poderia ter sido morto mais lentamente ainda. Poderia ter sido bem pior”. O otimismo inesgotável a respeito do futuro, segundo ele, só aumenta o baque quando as coisas não dão certo e "é o nosso pior inimigo".

Exercício de pessimismo

Atualmente, com a larga oferta de livros de autoajuda, somos treinados a exercer o pensamento positivo e acreditar que tudo sempre terminará bem. Mas, para Burkeman, isso pode ter um preço. “O pensador positivo acaba menos preparado, e fica mais abalado quando acontece algo que ele não consegue convencer a si mesmo que seja bom”, conta.

Tiramos um enorme peso das costas quando entendemos que nunca escaparemos da morte, que o sofrimento é inevitável e que sempre nos sentiremos inseguros no mundo

Outro conceito contra uma possível depressão é exercer a “predição dos males”. Um exercício de pessimismo: parar de lutar para evitar pensamentos da pior hipótese e passar a especular ativamente sobre eles.

Uma experiência prática para colher os benefícios do pessimismo no dia a dia é, por exemplo, aprender a lidar com uma inesperada e longa fila de supermercado. A primeira reação diante de vários caixas inativos é a frustração. No entanto, segundo o autor, basta refletir sobre o pior que poderia ocorrer para não se deixar abalar.

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"O pensador positivo fica mais abalado quando acontece algo que ele não consegue convencer a si mesmo que seja bom”, diz Burkeman

“A pior hipótese ali seria uns minutos de atraso. O problema é o juízo irracional de cada um, não o supermercado”, explica. Assim como perder o emprego não significa cenário de extrema pobreza e ficar sem namorado não te condenaria a uma vida de solidão. Tentar reconhecer o pior de cada situação pode ser um antídoto para a ansiedade.

Burkeman se defende, no entanto, quando questionado se poderia ter encontrado a fórmula secreta da felicidade. “Gostaria de dizer que sim, mas não quero pensar que criei um novo guia. Estaria promovendo o que combato: os livros de autoajuda. Quero propor uma reflexão sobre como abordamos nossa jornada. Não precisamos ter controle de tudo para alcançarmos a felicidade”, explica.

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