Mais de 300 viciadas posaram para as lentes de Lincoln Clarkes na periferia de Vancouver, no Canadá, em troca de cigarros e atenção

Para quem assistiu ao filme “Trainspotting” (1996) fica mais fácil entender o que a heroína representou no movimento underground nos anos 1990. Modelos e rock stars como Kate Moss, Courtney Love e Kurt Cobain são a cara do estilo de vida “heroin chic”, que teve muita influência na moda. Mas se havia glamour nessa atmosfera, o fotógrafo Lincoln Clarkes não pode dizer o mesmo sobre a série “Heroines” (Heroínas, em português), clicada por ele nessa mesma época em Vancouver, no Canadá.

Fotografar mulheres viciadas em heroína em um gueto da cidade não foi um trabalho planejado. Clarkes atuava como fotógrafo de moda e era vizinho do reduto de usuários de drogas. Durante suas caminhadas, percebeu que essas pessoas estavam abandonadas e que a sociedade não as via. “O Estado fechava os olhos para este lado da cidade”, conta o fotógrafo, em entrevista ao Delas .

Apesar do poder devastador da droga, considerada a mais perigosa de todas, Clarkes enxergava certa beleza naquela condição, enquanto rondava pelos becos e ruas. As mulheres não tinham produção alguma – posavam com a roupa do corpo e sem maquiagem - e a locação não era privilegiada como nos editoriais de moda. Ainda sim, elas eram bonitas, ele acredita. “Como estavam no mesmo barco, tinham um senso de camaradagem muito grande. Era um lugar amigável.”

Apesar do poder devastador da heroína, Clarkes enxergava certa beleza naquela condição
Lincoln Clarkes Photographs
Apesar do poder devastador da heroína, Clarkes enxergava certa beleza naquela condição

As “heroínas” viviam sem pensar no amanhã e se apoiavam na droga para suprir carências emocionais, além da falta de um lar e da família. “O que todas compartilhavam era um tempo de vida de abuso. A automedicação com um pó branco era a única coisa que tinham para aliviar esta dor”, afirma ele, que circulava com uma assistente pelo local, oferecendo uma palavra, maçãs, cigarros e band-aids em troca de cliques.

Overdose

O episódio que mais o marcou foi quando perdeu sua grande amiga, Leah, também usuária de heroína. Era sábado, 25 de setembro de 1999. “Ela deixou três mensagens na minha secretária eletrônica. Como não estava em casa, não tinha a menor ideia que Leah estava de volta à cidade. Ela disse nos recados que só queria ir à minha casa para conversar e tomar um chá”, relembra. Leah morreu de overdose naquela noite e foi encontrada sem vida em um banheiro. Sozinha.

Para evitar outras mortes em virtude do abuso, Clarkes resolveu conectá-las à vida, mostrando a essas mulheres suas próprias imagens, como um espelho, na tentativa de despertá-las. “A imagem talvez fosse o único fio de sua existência”, diz. “É um buraco profundo e elas não têm oportunidades ou habilidades para sair dele.”

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Não era só a droga que unia “as heroínas”, Clarkes notou. Mas também histórias de vida parecidas. “A maioria dessas mulheres teve um passado abusivo miserável. Seja de maus-tratos na infância ou violência dos companheiros na vida adulta”, observa, relatando que elas perderam tudo. Desde a autoestima até a sanidade mental, filhos e a vida que poderiam ter tido. “Elas sentem falta do que todo mundo ostenta em frente a elas, como saúde, educação, emprego e, sobretudo, amor”, reflete.

Lincoln Clarkes colocou em evidência o problema das drogas na periferia de Vancouver nos anos 1990
William Gibson
Lincoln Clarkes colocou em evidência o problema das drogas na periferia de Vancouver nos anos 1990

Depois que as fotos ganharam o noticiário local e internacional, as coisas começaram a mudar no reduto. “A série virou pauta em todos os segmentos da sociedade. E as pessoas de regiões mais abastadas, o ‘uptown’, puderam olhar essas mulheres pela primeira vez nos olhos”, explica. Mas logo voltaram a ser o que eram.

Em 2001, Clarkes então resolveu documentar a série “Heroines” e ganhou diversos prêmios pelo trabalho.Poucas fotografadas – foram 300 no total - e documentadas sobreviveram. Quando Clarkes as encontra nas ruas, trocam sorrisos e algumas palavras. “Eu as deixo à vontade. Nem sempre elas querem ir pela estrada da memória. Mas muitos filhos entram em contato comigo para saber sobre suas mães e perguntar se há alguma coisa que me lembro. Faço o que posso para ajudá-los.”

Segundo ele, o filme ajudou a colocar as viciadas de Vancouver e a injustiça social novamente em foco. “O documentário expôs o fracasso da Guerra às Drogas”, salienta, acrescentando que legalizar todas as drogas, como Portugal o fez, seria o melhor caminho para acabar com o problema. Menos otimista, Megan, uma das heroínas que aparece no documentário, não acredita que sua vida poderá ser diferente um dia. Para ela, livrar-se do vício não mudaria nada, a heroína é uma cicatriz que nunca desaparecerá. “Parar de usar não mudará minha condição. Sempre serei a ‘junkie’ para a sociedade. Nunca deixarão de me olhar assim.”

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