Nos EUA, 35% dos entrevistados preferem ser subordinados a um homem e especialistas apontam a mesma tendência no Brasil. Mas por que eles fogem das chefes mulheres?

Se puderem escolher, os norte-americanos ainda preferem ter chefes homens a chefes mulheres, segundo pesquisa realizada pelo Instituto Gallup. O índice é de 35% contra 23% dos que preferem chefes mulheres (enquanto 40% são indiferentes ao gênero). A boa notícia é que nunca antes na história daquele país uma parcela tão significativa revelou tanta preferência por ter chefes mulheres – na primeira edição da pesquisa, em 1953, apenas 5% preferiam trabalhar para uma mulher. “O Brasil tende a acompanhar as tendências de comportamento dos americanos, mas com certo atraso, então, aqui a preferência por chefes homens deve ser um pouco maior”, avalia Deb Xavier, criadora da Jogo de Damas, consultoria de fomento ao empreendedorismo feminino.

35% dos entrevistados preferem chefes homens, contra 23% dos que preferem mulheres
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35% dos entrevistados preferem chefes homens, contra 23% dos que preferem mulheres



É uma questão de construção social: quando a mulher faz algo errado é por causa do gênero, enquanto o homem é analisado enquanto indivíduo

Para Homero Reis, presidente da Homero Reis e Consultores, a preferência por chefes homens reflete o perfil cultural da sociedade. Em países que caminham, embora a passos lentos, para diminuir a clivagem entre os gêneros – caso dos Estados Unidos e do Brasil – Homero aponta os desafios para as líderes atuais. “Segundo pesquisas, elas têm os mesmos desafios que os homens: resultado, otimização, relacionamento, capacidade inovadora e criativa”.

Apesar de terem os mesmos desafios, a resposta de líderes homens e mulheres tende, de fato, a ser diferente. Por experiência, Homero engrossa o coro do senso comum sobre o estilo feminino de chefia. “As mulheres são mais afetivas, multitarefas, menos explosivas. Elas desenvolvem o acolhimento, são menos focadas, mas têm uma visão mais plural. Já os homens são mais agressivos, mais focados, tem uma maior explosividade”.

Bia Bernardi, 29, secretária executiva, concorda com a análise e prefere ser chefiada por mulheres: “No dia a dia, há uma maior segurança em trabalhar com chefe mulher: os homens são mais rígidos na entrega de resultados, em não aceitar desculpas. Quem tem uma visão mais endurecida entende as coisas de uma forma mais binária: ou é ou não é. Ou deu certo ou não deu, mas só pode dar certo. A chefe mulher entende que pode haver falhas inerentes ao processo. É uma visão mais humana”.

O funcionário público federal Washington Luiz Valero Fernandes destaca outro ponto positivo das chefes mulheres: “Se surge um problema ou um desmembramento inesperado, a mulher pode até ficar com raiva, mas daí ela vai ao banheiro e volta dizendo ‘a gente vai fazer e a gente vai conseguir’. O homem, até chegar a esse ponto, já encheu o saco de muita gente. Eu mesmo fico muito tempo contrariado e depois é que vou estabelecer planos de ação. A mulher precisa de um tempo muito pequeno para colocar a raiva pra fora e se recompor. Acho que a chefe mulher é mais bem-resolvida com o poder”.

Senso comum vê as mulheres como multitarefas e capazes de focar em vários problemas
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Senso comum vê as mulheres como multitarefas e capazes de focar em vários problemas


Na primeira edição da pesquisa, em 1953, apenas 5% preferiam trabalhar para uma mulher

O favoritismo pelos chefes masculinos é grande mesmo entre elas: enquanto 32% afirmam não ter preferência, 40% das mulheres escolheriam ser chefiada por um homem. Não há uma resposta simples para essa aparente contradição. “As mulheres podem preferir trabalhar para um homem para ser sentirem menos pressionadas, já que alguns homens partem do princípio de que elas são menos capazes [de alcançar altos resultados] . Existe uma cobrança mais velada da mulher contra a chefe mulher, em parte pela questão da competição: se você está num grupo de gordinhas e uma emagrece, todas se sentem pressionadas para emagrecer. E, de fato, é comum que chefes mulheres cobrem mais das subordinadas porque foi difícil para ela chegar lá e mesmo assim elas venceram”, observa Deb.

A engenheira civil Elite Barbosa Patez, 33 anos, é uma das que preferem chefes homens e explica por quê: “Acho que o tratamento dos chefes homens é melhor, mais paciente, do que o das chefes mulheres. Nunca tive problemas com chefes mulheres, mas acho que elas são um pouco mais autoritárias, talvez por uma certa necessidade de autoafirmação, tanto com homens quanto com mulheres”.

Na hora das críticas, porém, a mulher ainda enfrenta o pior dos dois mundos. “Quando uma mulher chega a uma posição de poder recebe críticas por conta da própria feminilidade, como no caso da Hillary Clinton, que foi atacada por conta do visual. Se é dócil, é porque não tem pulso firme; se tem pulso firme, vira 'durona', como acontece com a presidente Dilma Rousseff. É uma questão de construção social: quando a mulher faz algo errado é por causa do gênero, enquanto o homem é analisado enquanto indivíduo”, analisa Deb.

“Quando você vive na perspectiva de uma sociedade masculina, a tendência é fazer uma avaliação pelo elemento dominante. O fato de haver mulheres criticando mulheres [por esse viés] é resultado desse modelo de sociedade. Vivemos um período de transição para a mulher”, concorda Homero, que vê bons ventos continuando a soprar para as mulheres na liderança. “A gente só joga pedra na pipa que está voando”, conclui.

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