Pesquisadoras observaram reações diferentes a uma mesma modelo contratada para um experimento: mulheres ficavam hostis quando ela usava blusa e saia curta

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A existência de competição entre mulheres pode parecer óbvia para qualquer pessoa que tenha estado na cantina de uma escola de ensino médio ou um em bar de paquera, mas analisá-la tem sido difícil, já que ela tende a ser mais sutil e indireta (e muito menos violenta) do que a competição entre homens. Agora que os pesquisadores puderam examiná-la mais de perto, eles dizem que essa "competição intrasexual" é o fator mais importante para explicar as pressões que as mulheres jovens sentem para seguir padrões de conduta sexual e aparência física.

A mesma modelo com duas roupas diferentes: mulheres reagiram com hostilidade ao segundo visual
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A mesma modelo com duas roupas diferentes: mulheres reagiram com hostilidade ao segundo visual


A maior parte das agressões acontecia depois que a moça saía da sala. As alunas riam dela, falando mal das suas roupas. Uma chegou a sugerir que ela se vestia dessa maneira a fim de ter relações sexuais com um professor

As velhas dúvidas quanto à competitividade feminina vêm em parte de uma análise evolutiva de probabilidades reprodutivas nas antigas sociedades poligâmicas, em que alguns homens permaneceram solteiros porque outros, que exerciam um papel dominante no grupo, tinham várias esposas. Assim, os homens tinham que competir entre si para ter a oportunidade de se reproduzir, enquanto isso era assegurado a praticamente todas as mulheres.

Mesmo nessas sociedades, porém, as mulheres não eram troféus passivos de homens vitoriosos. Elas tinham seus próprios incentivos para competir umas com as outras pelos parceiros mais desejáveis e mais recursos para seus filhos.

Agora que a maioria das pessoas vive em sociedades monogâmicas, a maioria das mulheres enfrenta as mesmas disparidades que os homens. Na verdade, essas disparidades são mais difíceis em alguns lugares, como os muitos campi universitários que têm mais mulheres do que homens.

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A fim de verificar como as estudantes reagem a uma rival, as pesquisadoras levaram pares delas a um laboratório na Universidade de McMaster, para o que seria aparentemente uma discussão sobre a amizade entre mulheres. Porém, a experiência de verdade começou quando outra jovem entrou na sala perguntando onde encontrar uma das pesquisadoras.

A mulher tinha sido escolhida pelas pesquisadoras, Tracy Vaillancourt e Aanchal Sharma, porque ela "tinha qualidades consideradas atraentes do ponto de vista evolutivo", o que significa "uma baixa razão cintura-quadril, seios grandes". Às vezes, ela usava uma camiseta e jeans; outras vezes uma blusa decotada justa e uma saia curta.

De jeans, ela chamou pouca atenção e motivou poucos comentários negativos por parte das alunas, cujas reações estavam sendo secretamente gravadas durante o encontro e depois que a mulher saía da sala. No entanto, quando ela vestiu uma saia e blusa decotada e justa, praticamente todas as alunas reagiram com hostilidade.

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Elas olhavam a moça fixamente, dos pés à cabeça, reviraram os olhos e às vezes demonstravam irritação imediatamente.

A maior parte das agressões, entretanto, acontecia depois que a moça saía da sala. Era quando as alunas riam dela, falando mal das suas roupas. Uma aluna chegou a sugerir que ela se vestia dessa maneira a fim de ter relações sexuais com um professor. Outra disse que os seus seios "estavam prestes a saltar de dentro da blusa".

Agressão indireta

Os resultados do experimento corroboram evidências de que essa forma de agressão indireta de "meninas malvadas" é mais usada por adolescentes e mulheres jovens do que por mulheres mais velhas, que têm menor propensão a criticar rivais a partir do momento em que se casam.

Outros estudos têm mostrado que quanto mais atraente uma menina ou adolescente é, mais provável ela se tornar alvo de agressões indiretas de suas colegas. "As mulheres são realmente bastante capazes de agredir umas as outras, especialmente aquelas que percebem como rivais", disse Vaillancourt, que atualmente é psicóloga da Universidade de Ottawa. "A pesquisa mostra também que são as mulheres, e não necessariamente os homens, as responsáveis pela supressão da sexualidade feminina".

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A responsabilidade pela estigmatização da promiscuidade feminina muitas vezes foi atribuída aos homens, que têm motivações darwinianas para desencorajar seus cônjuges a se afastarem. Todavia, eles também têm motivações darwinianas para incentivar outras mulheres a serem promíscuas. Vaillancourt disse que o seu estudo e outras pesquisas sugerem que as mulheres são as principais responsáveis pela estigmatização.

"O sexo é cobiçado pelos homens", disse ela. "Assim, as mulheres limitam o acesso a si próprias como uma forma de manter vantagem na negociação desse recurso. As mulheres dispostas a ter relações sexuais muito rapidamente comprometem a posição de poder do grupo, razão pela qual muitas mulheres são particularmente intolerantes com aquelas que são ou parecem ser promíscuas".

A culpa não é da mídia

A agressão indireta pode se tornar um fardo em termos psicológicos para mulheres que são condenadas ao ostracismo ou se sentem pressionadas a seguir padrões impossíveis, como a moda de corpos magros em muitas sociedades modernas. Estudos têm demonstrado que a forma ideal do corpo da mulher é mais magra do que a média – e mais magra do que a considerada ideal pelos homens. Essa pressão é frequentemente atribuída a modelos magérrimas que aparecem nas revistas e na televisão, mas Christopher J. Ferguson e outros pesquisadores dizem que ela é principalmente resultado da competição entre mulheres, e não de imagens midiáticas.

"Em grande medida, a mídia reflete, e não cria, as tendências que estão acontecendo na sociedade", disse Ferguson, psicólogo da Universidade de Stetson.

Ele descobriu que a insatisfação das mulheres com seu corpo não tinha correlação com o que elas assistiam na televisão em casa. Elas tampouco tinham sido influenciadas por programas de TV exibidos em experimentos de laboratório: observar as atrizes esbeltas de "Scrubs" não induziu mais sentimentos de inferioridade do que assistir a estrela não tão esbelta de "Roseanne".

Porém, ele descobriu que as mulheres tinham mais propensão a se sentirem mal quando se comparavam com outras de seus próprios círculos sociais, ou mesmo se estivessem em uma sala com uma desconhecida magra, como a assistente de Ferguson que conduziu um experimento com estudantes universitárias. Nos momentos em que ela usou maquiagem e vestiu trajes de negócios elegantes, as alunas se mostraram menos satisfeitas com o próprio corpo do que quando ela usou moletom largo e apareceu sem maquiagem. Além disso, elas se sentiram ainda piores quando havia um homem atraente na sala com ela.

"A competição sexual entre as mulheres parece aumentar devido a circunstâncias que tendem a ser particularmente comuns em sociedades mais abastadas", disse Ferguson. Nas pequenas cidades tradicionais, as pessoas se casavam ainda bastante jovens com alguém próximo, mas os jovens das sociedades modernas são livres para adiar o casamento enquanto procuram por opções melhores. O resultado é o aumento da concorrência, porque as pessoas passam a ter muitos rivais – e não há mais nenhuma dúvida científica de que ambos os sexos não vão abrir mão de competir.

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