Após diagnóstico devastador, Sophie van der Stap usou perucas para deixar a realidade de lado e criar outras identidades, que iam de romântica à ninfomaníaca

O diagnóstico de um tipo raro de câncer no pulmão roubou os sonhos de Sophie van der Stap. Ela tinha 21 anos à época e “vontade de devorar o mundo”, como disse em entrevista ao Delas.

“Parecia que a vida estava caçoando de mim. Ela me roubou toda a ambição”, fala a autora de “A garota de nove perucas” (Editora Livros de Safra), que está no Brasil para o lançamento do livro-diário e filme homônimo sobre sua história. O longa ganhou o Urso de Prata do Festival de Berlim deste ano.

>> Veja as nove identidades que Sophie usou para superar a doença:

Sophie resolveu escrever seu dia a dia quando percebeu não ter controle da situação. Durante 54 semanas, usou a escrita para reagir e enfrentar a aproximação da morte. “Precisava descobrir o verdadeiro sentido dessa experiência”, diz a holandesa radicada em Paris.

Com a quimioterapia, ficou careca e sua autoestima despencou. Como não gostou de usar lenços, recorreu a perucas para melhorar a aparência e resgatar a feminilidade. No total, foram nove. Para cada peruca, uma mulher diferente e com personalidade própria.

Quando estava de peruca, era só mais uma garota. Quem me via na rua não sentia pena nem sabia da minha dor.

Da mais romântica à ninfomaníaca. Stella, Sue, Daisy, Blondie, Platina, Oema, Pam, Lydia e Bebé estavam intrínsecas a Sophie. “Só precisei escutar suas vozes. Eram partes da minha identidade”, explica.

Os adereços eram uma forma de evitar olhares indiscretos no hospital, na faculdade, nas festas e em suas relações, e para ela mesma poder lidar com a morte e com a depressão. Na pele de Bebé, uma russa soletira e sensual, Sophie combinava os fios loiros e compridos com um chapéu típico do país, correntes de ouro e sombra dourada, para se divertir em boates de Amsterdã (veja todos alter-egos na galeria acima).

Leia também:
“Minha deficiência é um agravante, não um diferencial”
“Tenho síndrome de Down e cuido da minha própria vida"

“Quando estava de peruca, era só mais uma garota. Quem me via na rua não sentia pena nem sabia da minha dor. E o meu reflexo no espelho fazia eu me sentir bem.”

Férias do câncer

Encarnar diferentes personagens a fez esquecer o tumor maligno. Foi seu escape. “Não importa a dor. Seja a morte de alguém, uma doença ou mesmo uma separação, o escape nos dará força para confrontar a dura realidade”, diz, referindo-se a esse recurso como as “férias do câncer”.

“Graças às dificuldades, descobri a escrita e as perucas. Foi o jeito que encontrei para construir meu próprio mundo. Mesmo que fossem cinco minutos por dia, aquele tempo era para mim e não para o câncer”, relembra.

Curada há oito anos, Sophie diz ter se tornado flexível e ainda mais apaixonada pela vida. “Fico feliz só por respirar. Para mim, a vida é como uma fruta deliciosa pronta para comer.”

Mas para chegar a essa consciência, ela passou por momentos difíceis. Chegou ao ponto de achar que o câncer era seu amigo e a vida, sua inimiga: “Sobreviver é mais fácil do que viver”.

Viver é um desafio, uma busca constante. “Estamos sempre procurando a nossa identidade, o que amamos, e isso exige bastante energia. Temos um sentimento de responsabilidade por nós mesmos muito forte. Já sobreviver não demanda quase nada”, observa.

Sophie dá palestras para médicos e pessoas que passam pela mesma situação que ela viveu
Divulgação
Sophie dá palestras para médicos e pessoas que passam pela mesma situação que ela viveu

Sentir-se amado é essencial, ela conta, afinal é um momento de muita fragilidade. O apoio dos amigos e familiares foi de extrema importância para ela enfrentar a doença.

Vitoriosa, atualmente Sophie dá palestras para inspirar médicos e pessoas que passam pela mesma situação que ela viveu há quase uma década. Leva a vida sem tantas expectativas e com mais leveza e otimismo, característica que ela reconhece nos brasileiros. “Amo andar nas ruas daqui e ver os sorrisos largos das pessoas”. Na conclusão da entrevista, sintetiza sua mensagem: “Hoje, se eu não alcanço um objetivo, não faço um drama por isso. A vida é muito preciosa para ser desperdiçada com bobagens”.

Veja ainda:
15 coisas que você precisa saber sobre a felicidade
30 caminhos para ser feliz
Você sabe o que deseja?

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.