Da Grécia Antiga aos estudos científicos e livros de auto-ajuda contemporâneos, conheça a história da felicidade e veja propostas práticas para encontrar a realização

Na era do Prozac, vale tudo para ser feliz. A busca pelo equilíbrio e plenitude deu lugar a uma obsessão pela felicidade. Como esperamos um estado de satisfação durável, quando a frequência ameaça baixar, basta tomar uma pílula e pronto -- exatamente como profetizou Aldous Huxley no livro “Admirável Mundo Novo” (1932), uma visão futurista de uma sociedade que vivia à base de “soma”, espécie de droga da felicidade. Mas depender de remédios para ser feliz é ilusão e pouco saudável.

Os caminhos apontados para a real felicidade são múltiplos e não há fórmula para alcançá-la. Felicitas, o termo em latim que dá origem à tão almejada palavra, significa sorte, ventura, algo que surpreende. Tales de Mileto, o primeiro filósofo a discorrer sobre o assunto, compactua desta definição e se aprofunda. Em um texto datado do final do século 6 a.C., ele afirma que era feliz quem tinha saúde, boa sorte e alma estruturada.

Ainda bem que a felicidade é breve, pois neste estado não queremos mudar nada. Insatisfação é saudável, dá movimento à vida, é mola do mundo

Seus sucessores da Grécia Antiga vão além. Sócrates, autor do aforismo “Conhece-te a ti mesmo”, acreditava que para atingir este estado de bem-aventurança era preciso uma conduta virtuosa e justa, sendo o homem responsável própria felicidade. E não deixá-la nas mãos do acaso. Platão enxerga a conquista da felicidade por méritos de uma alma limpa e transparente . .   E Aristóteles inclui mais um elemento nesta busca: a razão . Além disso, era importante ter uma vida social e econômica estável . .   Conhecido como criador do hedonismo, Epicuro acredita no prazer.   Mas a chave para ser feliz era libertar-se dos desejos . .

Ainda bem que a felicidade é breve, pois neste estado não queremos mudar nada. Se passássemos o tempo inteiro felizes, ficaríamos estacionados. Insatisfação é saudável, dá movimento à vida, é mola do mundo. Para o psicanalista Jacques Lacan, quando um desejo é alcançado, rapidamente perdemos o interesse. Em síntese, os conceitos da Antiguidade sobre felicidade vigoram até hoje. Mas passaram por acréscimos e reinterpretações.

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O autoconhecimento é o primeiro passo para viver em harmonia com o entorno.   A coach de vida e especialista em desenvolvimento humano Roselake Leiros cita Carl Jung, fundador da escola analítica de psicologia, para transformar o que não está bom. “Quando você olha para fora, adormece. Quando olha para dentro, desperta”. Isso significa reconhecer e potencializar seus recursos, se conscientizar de suas falhas e então transcender.

Para Rose, alcançar o bem-estar natural envolve um mergulho interior – você com você mesmo – e então ações (como as sugeridas na galeria acima) para emergir e realizar o que se almeja. Cultivar pensamentos positivos é essencial . .   “Acredite, você pode escolher os melhores”, diz Rose. Outra dica é ampliar o olhar e enxergar o que acontece sob diversos ângulos.   Isso vale para todas as áreas da vida. “Você não pode ser só trabalho nem só espiritualidade. Também não dá para cuidar apenas da família”. O desafio do ser humano é desenvolver-se integralmente. O equilíbrio é a palavra-chave para não ter ideias fixas.

Efeito inverso

É preciso ter cuidado com a perseguição exagerada da felicidade. De acordo com a pesquisadora Iris Mauss, do Departamento de Psicologia da Universidade de Denver, nos Estados Unidos, a pessoa focada demais nesta busca acaba sofrendo o efeito inverso: frustração e tristeza. Momentos difíceis, que causam sofrimento, são inevitáveis. Saber que eles podem acontecer diminui a angústia e a ansiedade. É o que ensina Dalai Lama.

Em vez de jogar tudo para o alto e se entregar aos infortúnios da vida, o melhor é analisar as causas desse mal. Para o monge budista, a compaixão, ou colocar-se no lugar do outro, é o segredo de uma vida mais feliz . .   A ciência assina embaixo. Uma pesquisa feita com Matthieu Ricard, monge budista e confidente do Dalai Lama, constatou que seu cérebro produz níveis de ondas gama nunca vistos antes na neurociência.

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Com 256 sensores conectados a sua cabeça, Ricard meditou em compaixão revelando uma incrível capacidade de sentir felicidade e redução de negatividade. Após os estudos, os pesquisadores da Universidade de Wisconsin, nos Estados Unidos, declararam o monge como o homem mais feliz do mundo.

Do ponto de vista do economista britânico e autor “A Ciência da Felicidade”, Richard Layard, a velha máxima se comprova: dinheiro não traz felicidade . .   Tomando como exemplo países que tiveram maior renda nos últimos anos, o crescimento econômico não seguido do aumento da felicidade de seus habitantes.

Para ele, a competitividade do mundo contemporâneo tem nos tornado infelizes. O cultivo dos relacionamentos e a facilidade em fazer amizades seriam fatores determinantes para o indivíduo mais feliz . .   Manter os laços afetivos não custa nada e é uma garantia nessa jornada.

Em prática

Agora imagine misturar todas essas teorias, dos gregos aos livros de autoajuda atuais, e colocá-las em prática? Bem, foi isso que motivou a advogada norte-americana Gretchen Rubin ao criar o “projeto felicidade”. Depois de passar por problemas, Gretchen resolveu dedicar-se à própria felicidade. Durante a empreitada, fez tudo que os manuais propunham: escreveu um livro, fez uma limpa nos armários, abraçou estranhos e parou de brigar contra o tempo.

Tendo vivido todas essas experiências, chegou à conclusão de que a felicidade não é algo distante. Ela está nas pequenas coisas do dia a dia, que muitas vezes deixamos de lado. A especialista aconselha em seu livro “Projeto Felicidade” (Best Seller): atente às coisas simples
da vida.

Um bom exemplo é mergulhar em uma atividade, o que faz com que você viva o presente. Ou seja, esqueça passado e futuro, que não existem. O poder da concentração é o que psicólogo húngaro Mihaly Csikszentmihalyi, co-fundador da psicologia positiva e autor de “A Descoberta do Fluxo” (Editora Rocco), sugere para alcançar o “flow” (fluxo) e descartar emoções e pensamentos negativos.

O altruísmo também funciona como ferramenta efetiva para melhorar os níveis de felicidade. É o que foi comprovado em testes realizados pelo psicólogo norte-americano Martin Seligman. Atos de bondade trouxeram paz de espírito e enormes benefícios ao astral dos pesquisados. Fazer o bem é também uma das dicas do filósofo francês Gilles Lipovetsky, um dos expoentes no assunto e autor de “Felicidade Paradoxal” (Edições 70), para dar mais sentido à vida e ser feliz. A felicidade, afinal, está mais perto do que parece.


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