O britânico Jamie McCartney é autor da celebrada “Grande Muralha da Vagina” e pretende tirar moldes de mulheres de todos os países do globo para seu próximo projeto

A “Grande Muralha da Vagina” não foi a primeira obra (nem o primeiro trocadilho) de Jamie McCartney a respeito de sexo. O artista plástico inglês, formado na Hartford Art School americana, já havia causado polêmica com as esculturas da série “Sexidermy” (“Sexidermia”), que misturavam animais empalhados a sex toys. Mas foi com a Muralha, uma série de 10 painéis com moldes de gesso tirados a partir de 400 vulvas, que Jamie ganhou fama.


Quantas obras de arte mudaram um pouquinho o mundo? A minha foi uma delas, e fico muito orgulhoso disso

“Quantas obras de arte mudaram um pouquinho o mundo? A minha foi uma delas, e fico muito orgulhoso disso”, disse o artista em entrevista ao Delas. Foram cinco anos de trabalho, começados em 2006, depois que Jamie ouviu comentários de mulheres envolvidas em outro projeto dele. “Eu estava trabalhando em uma escultura genital para um museu do sexo, intitulada ‘O Tempero da Vida’. As mulheres que estavam lá tirando seus moldes começaram a fazer comentários muito estranhos sobre os moldes alheios. Foi aí que percebi que havia uma grande insegurança delas sobre como seria a aparência genital ‘normal’”, conta Jamie.

Decidido a retratar e celebrar a diversidade das formas genitais para conscientizar o público e libertar as mulheres que se sentem envergonhadas ou inseguras com as próprias vulvas, Jamie criou a “Grande Muralha da Vagina”. “Qualquer iniciativa que ajude as mulheres a entender a diversidade da aparência genital é uma boa. A ansiedade que muitas delas sofrem arruina a vida sexual e leva à infelicidade”, defende.

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Apesar de precisar do impacto visual para atingir seu objetivo, Jamie fez uma escolha calculada ao optar pelo método usado nos moldes. Temeroso de que seu trabalho fosse confundido com pornografia, ele evitou a fotografia e as cores, objetivo atingido com o uso do gesso branco: “Trabalhei deliberadamente no sentido de evitar qualquer referência pornográfica”.

Funcionou. O resultado é curioso e interessante, mas não chocante. As pessoas que vão ver a obra em exposição andam ao longo dos nove metros ocupados pelos painéis combinados observando com atenção. “Estranhos puxam assunto, tem gente que chora… É uma obra poderosa”, acredita ele.

O artista Jamie McCartney diante de um de seus painéis
Juliet Greig
O artista Jamie McCartney diante de um de seus painéis

Cidadãs do mundo

Agora, Jamie está à procura de mulheres do mundo todo para seu projeto Mondcivitano. Ele pretende moldar vulvas de ao menos uma mulher de cada país do planeta.

A palavra Mondcivitano, que significa “cidadão do mundo” em Esperanto, também era o nome de um barco de ativistas pela paz no qual o artista trabalhou aos 18 anos e que, segundo ele, despertou sua consciência social. “O projeto não é uma expansão da Muralha, mas um trabalho similar com propósito diferente. É sobre identidade”, explica.

Contando com voluntárias e sem verba, Jamie sabe que pode demorar um pouco. “Talvez dez anos ou mais”, calcula. Mas ele não se importa. Até agora, ele já tem moldes de mulheres da China, Finlândia, Estônia, Irã, Jamaica, Malaísia, Ucrânia e outros. “Tenho certeza que lugares como Vanuatu e Timor Leste podem ser mais difíceis, mas entrevistas como estas ajudam a divulgar a ideia. Quem sabe?”, termina.

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