Brasileira dá a volta ao mundo em viagem de 365 dias. Na metade do caminho, ela conta o que a surpreendeu e dá dicas para viajantes: “tem que conhecer as suas prioridades”

Se pudesse viajar para qualquer lugar do mundo, para onde você iria? Adriana Lacerda , a Teté, tem uma resposta simples: para o mundo todo. A baiana foi criada no Peru, estudou nos Estados Unidos, fez pós-graduação na Espanha até ir parar no Chipre, perto da Turquia. Com vontade de ver e viver, resolveu fazer as malas novamente e, em março deste ano, com os pés em Johannesburgo, na África do Sul, iniciou sua aventura: viajar durante 365 dias pelos lugares exóticos e diferentes que existem pelo planeta, e relatar os pormenores no blog Escapismo Genuíno . Com o marido a tiracolo e o desafio de achar as maravilhas de cada lugar, a profissional de marketing e foodie (pessoa que tem comida como hobby) assumida falou um pouco sobre esse projeto para o iG .

iG: Qual é a proposta do projeto de viagem?

Adriana Lacerda: Existem dois projetos, digamos, um pessoal e um profissional. A ideia de dar a volta ao mundo é antiga, era meu sonho quando me formei na faculdade em 2005, e fui planejando, sonhando e juntando dinheiro. Viajo desde que me entendo por gente. Brinco que viajar é meu único vício. Em 2009, morando no Chipre, comecei um blog de viagem. Então, a viagem de volta ao mundo seria um conteúdo diferenciado para o blog.

Até que, em 2012, fui convidada pra trabalhar na agência de viagem Plantel Turismo no Rio. Era uma mudança de carreira, à beira dos 30 anos. E o sonho de dar a volta ao mundo só ficava mais vivo na minha mente. Saí da agência de marketing, promoção e publicidade pra trabalhar em outro tipo de agência: a de turismo, minha grande paixão. Comecei a trabalhar e o dono da agência, meu chefe, amigo e guru, sabia que eu tinha este sonho.

Decidimos juntos transformá-lo em um projeto profissional. Ele precisava de alguém que visitasse hotéis pelo mundo e testasse diferentes serviços de empresas que fazem tours e transporte, além de coletar dicas a respeito do que fazer e onde comer nestes lugares. Então transformamos a minha volta ao mundo em um projeto de pesquisa de tendências no setor de turismo, com crítica de hotelaria e pesquisa de dicas de viagens. Por isso, o enfoque é em destinos exóticos, menos percorridos, incluindo África, Oriente Médio, Ásia e Oceania.

iG: Por que você teve a ideia de realizar essa viagem?

Adriana Lacerda: Sempre fui viciada em viajar e queria viver uma experiência de viagem contínua durante bastante tempo, não só pra ver mais do mundo, mas pra desapegar do conforto de estar em casa, viajar com pouco – 20 quilos de bagagem – e valorizar ainda mais tudo. Sair da minha zona de conforto também virou um vício. Gosto de viver o novo, sentir o desconforto do não saber e descobrir. Em 2006, fiz uma viagem de seis meses em sete países com uma ONG americana, saí dos Estados Unidos, fomos para o Japão e alguns países na Europa fazendo trabalho social e treinamento de jovens líderes. Vivi seis meses com uma mala de 20 quilos, fiquei hospedada em casas de família. Foi ali que fiquei viciada em sair da zona de conforto, mas o vício de viajar é desde sempre. Mesmo sem poder gastar muito, sempre adaptei meu orçamento e nunca deixei de viajar. Prefiro deixar de comprar, viver com menos na rotina e juntar para uma viagem.

Teté no lugar que amou e odiou: a Índia
Divulgação
Teté no lugar que amou e odiou: a Índia


iG: Como as pessoas lidam com esse seu “vício”?

Adriana Lacerda: Já fui criticada por não parar quieta, por estar sempre aqui ou ali. Já me perguntaram se eu fico fugindo de alguma coisa. Eu não viajo pra escapar da vida, viajo para a vida não escapar de mim. Acho que pelo sucesso do livro “Comer, Rezar, Amar”, muitos acham que uma viagem longa assim ao redor do mundo é uma fuga. Eu não estou fugindo de nada, amo minha vida. Esta viagem é curiosidade e paixão pelo mundo, é uma viagem interna também, questionando o que gosto, o que valorizo, no que acredito. É uma troca com outras pessoas que vou conhecendo na estrada, é uma forma de me questionar e de desafiar. Ela é tudo, menos uma fuga.

iG: Qual lugar que você mais gostou? Por quê?

Adriana Lacerda: Difícil dizer. Cada lugar tem seu encanto. E claro, muitos lugares são especiais pelas pessoas que vi, revi ou passaram pela minha vida. O Líbano é especial pra mim, pois tenho parentes que fizeram da minha segunda estada – estive lá em 2009 pela primeira vez – um aconchego, uma estada memorável. No Líbano fiz coisas que em outros lugares não fiz, coisas comuns do dia a dia, como ir ao cinema e sair pra jantar com amigos. Fiquei hospedada na casa de parentes, isso já proporciona um carinho, um conforto diferente.

A comida libanesa é uma das mais deliciosas do mundo. Voltei à Tailândia e vou passar por lá de novo nesta mesma viagem, um destino que adoro, mistura história, cultura e gastronomia, onde os preços são ótimos e o povo simpático; sempre aconselho. Amei a África do Sul e voltaria com certeza, também pela beleza natural, os animais, a gastronomia e enologia.

iG: Algum destino a surpreendeu?

Adriana Lacerda: O Omã foi uma surpresa maravilhosa. Adorei o banho de mar, fiquei hospedada com uma família que eu nem conhecia antes de chegar lá e me trataram como filha, me despedi com lágrimas. O povo Omani é muito hospitaleiro, visitei vilarejos nas montanhas, onde eu era a única ocidental, a única sem cobrir o cabelo, e fui muito bem recebida. A Índia me desafiou como nenhum outro país - amei e odiei ( Nos últimos dias meus sentimentos jogaram um verdadeiro cabo de guerra. Não sei se te amo ou te odeio. Sei que te devo outra oportunidade, mas por enquanto, preciso jogar o meu pranto, extrair o meu grito. Vejo um deficiente ou pedinte sendo expulso como uma mosca e penso – você é desumana.Vejo uma pessoa que não tem nada ajudar de alguma forma alguém que tem tudo e penso – você é humana. Todo o mundo, do mais rico ao mais pobre, do mais culto ao mais ignorante, tem algo pra ensinar. ), só sei que preciso voltar. Amei o Nepal e as ilhas Maldivas são inesquecíveis.

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iG: Qual gostou menos? Por quê?

Adriana Lacerda: Difícil dizer. Gostei de todos os países. O Zimbábue é muito caro para o que é, mas não explorei muito. O Catar não encheu os meus olhos, mas tem coisas interessantes pra ver.

iG: Qual foi a coisa mais inesperada que te aconteceu?

Adriana Lacerda: Estou amando ver que existe o bem no mundo, existem muitas pessoas boas de verdade. Em duas ocasiões, no aeroporto de Dubai e no de Muscate, estranhos me deram caronas. Eram pessoas desconhecidas que depois de bater papo nos ofereceram carona, pessoas praticando o bem sem saber a quem.

Entrar em uma festa de escola infantil em um vilarejo nas montanhas de Omã, ser colocada pra sentar entre duas cadeiras (eu mal cabia), no meio de mulheres e meninas muçulmanas. Todos olhavam pra mim, mas elas riam e tentavam começar uma conversa comigo; teve até briga pra quem sentava do meu lado, algumas passavam a mão no meu cabelo. Fui encarada a noite toda, mas com olhares doces, curiosos, sem julgamento e sem maldade.

iG: Qual a maior gafe que já rolou?

Adriana Lacerda: Eu tento sempre pesquisar a cultura local e os costumes pra não dar gafe. Mas no metrô de Dubai meu marido entrou comigo em um vagão e não vimos que era um vagão só pra mulheres. Uma moça chamou a atenção e mudamos de vagão imediatamente.

Outra: essa não é gafe, mas já tive, por exemplo, que lavar roupa na pia em hotel cinco estrelas. A lavanderia do hotel é cara e até achar um lugar local, mais barato, às vezes faço isso.

iG: Como funciona a questão financeira nessa viagem? Você tem um patrocínio?

Adriana Lacerda: Tenho patrocínio do meu anunciante no blog, a vinícola argentina Don Otaviano, dos vinhos Penedo Borges, que investe em cultura. E venho juntando dinheiro pra isso.

Adriana fez novas amizades no interior da África
Divulgação
Adriana fez novas amizades no interior da África

iG: A proposta do projeto dizia que você vai ‘do luxo ao lixo’. Qual o lugar mais confortável que você visitou?

Adriana Lacerda: Todos os hotéis em que fiquei são muito confortáveis, são maravilhosos: Four Seasons, Mandarin Oriental, Aman Resorts, Relais & Châteaux...

iG: E qual o mais duvidoso?

Adriana Lacerda: Alguns albergues em que eu fico tem que tomar banho de chinelo, outros são super ajeitadinhos, outros bem mais ou menos. O albergue em que fiquei em Lusaka, na Zâmbia, foi bem fraco. O banheiro era longe, um cubículo, não tinha onde pendurar a roupa no chuveiro, não tinha toalha (eu levo uma que seca rápido na mala para estas ocasiões), tinha um bar bem brega com neon e bebida barata... Enfim, muito 'trash'.

iG: Você acha que o teto de 50 mil reais é suficiente para essa viagem?

Adriana Lacerda: No meu roteiro inicial era, agora, com a visita de hotéis em lugares mais remotos como Maldivas, Serengeti (Tanzânia) e Butão, o orçamento aumentou um pouco, mas não tanto. Quando não estou em hotéis trabalhando, fico em albergues, casas de família, levo uma vida mais frugal.

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iG: Qual o balanço que você faz da viagem até o momento?

Adriana Lacerda: Tudo positivo! A melhor experiência da minha vida, pessoal e profissional. Estou revendo amigos, fazendo novos, conhecendo lugares e culturas, me aprofundando em um novo caminho profissional, além da jornada interna - autoconhecimento, autodesafio, viver com pouco, desapego...

iG: Que dica você daria para alguém que quer conhecer esses lugares?

Adriana Lacerda:  Pergunte-se qual é a sua prioridade - descansar, bater perna, conhecer história? Faça um orçamento. Pesquise os hábitos antes. Traga roupa adequada – no Oriente Médio e na Índia, isso é muito importante. Saia de casa com a mente aberta.

Nem todo mundo está disposto a passar perrengue e só sai de casa para ter o mesmo conforto que tem lá. Para ver o mundo, eu estou disposta a passar perrengue e ter menos conforto; o que importa é conhecer a cultura, a beleza natural, interagir com pessoas. Ah, e não tenha vergonha de perguntar, conversar e sair do seu casulo. Viajar não é só tirar foto e dizer que foi lá, é também fazer como os locais fazem, sentar no chão, comer com a mão, negociar...

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