"Não fui eu", "todo mundo faz isso": sociólogo Alexandre Werneck descreve os tipos de desculpa e explica como elas ajudam a garantir a convivência pacífica

“Não é desculpa esfarrapada”, escusou-se o sociólogo carioca Alexandre Werneck ao explicar o motivo pelo qual desmarcava pela primeira vez a entrevista sobre seu livro “A Desculpa” (Civilização Brasileira). Foram quatro tentativas. Sem qualquer constrangimento, ele me convidou seguidas vezes a conhecer as circunstâncias que o levaram a não cumprir com o que havia sido previamente combinado. E é este o tema de seu livro: a desculpa dada, não o pedido de perdão.

Alexandre Werneck: 'Uma coisa é utilizar uma circunstância para operacionalizar a paz, outra é picaretagem, dar desculpas para tudo'
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Alexandre Werneck: 'Uma coisa é utilizar uma circunstância para operacionalizar a paz, outra é picaretagem, dar desculpas para tudo'

A desculpa ajuda a vida a andar, ele garante. É uma maneira de sair da discussão, da problemática e das tensões. Pode tanto encerrar o assunto como evitar um conflito. “Quando se dá uma desculpa, é oferecida uma explicação circunstancial para uma ação que incomodou alguém. É um dispositivo de linguagem que todos nós usamos”, resume.

Do contrário, faríamos um cavalo-de-batalha para qualquer coisa, levaríamos tudo muito a sério e a vida se tornaria impossível. Contudo, a desculpa tem que ser cabível: não dá para chegar atrasado todo dia ou matar a mãe cinco vezes por semana. “Uma coisa é utilizar uma circunstância para operacionalizar a paz, outra é picaretagem, dar desculpas para tudo”, ele alerta.

Alexandre Werneck é jornalista e professor do Departamento de Sociologia da UFRJ
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Alexandre Werneck é jornalista e professor do Departamento de Sociologia da UFRJ

A desculpa como advérbio

O filósofo John Austin, o primeiro a definir o termo nos anos 1950, diz que a desculpa é como um advérbio, que altera o verbo na forma infinitiva. É como se o infinitivo fosse o andar perfeito e, ao colocar o advérbio, o verbo passa a andar cambaleante. Nesse sentido, dar uma desculpa demostra que habitualmente a pessoa respeitaria uma regra moral, mas houve um elemento que a impediu de agir conforme o previsto.

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São dois tipos de desculpas, Werneck ressalta. A primeira é resumida pela frase ‘Não era eu’ e a segunda, pelo mote ‘É assim mesmo’. ‘Eu estava nervoso’ ou ‘Eu estava bêbado’ são variações da desculpa do tipo ‘Não era eu’. Nesses casos, se responsabiliza uma situação que tirou a pessoa de si. Esta desculpa serve não só como uma desconexão do princípio moral, mas também como uma forma de conservá-lo.

Diferente de se justificar, dar uma desculpa é parte de se assumir a culpa. “A justificativa recorre ao universal e indica que a pessoa está de acordo com a norma. Na desculpa, ela está em desacordo”, complementa. Reconhece-se que fez algo errado, relativiza-se, mas não se reconhece a culpa. Como ocorreu com Adão, no Éden: quando se viu pressionado pelo Criador por ter praticado o pecado original, não pensou duas vezes e jogou a culpa em Eva, que por sua vez, responsabilizou a serpente.

A recorrência de uma circunstância tende a tornar uma questão problemática ou condenável moralmente em algo aceitável

“É assim mesmo”

O segundo tipo de desculpa, segundo Werneck, parece ter um papel importante na mudança moral. A recorrência de uma circunstância tende a tornar uma questão problemática ou condenável moralmente em algo aceitável. É aí que aparece a famosa frase “É assim mesmo”. Um exemplo recente foi a questão do caixa-dois nas campanhas políticas. Todo mundo acha errado, mas há uma normalidade paralela no caixa-dois.

“O ex-presidente Lula fez um movimento estratégico para tirar a discussão do mensalão e levá-la para a questão do caixa-dois”, diz Werneck. Portanto, a mensagem é: “Estamos todos de acordo que é errado, mas todo mundo faz caixa-dois. No Brasil, a política é assim mesmo”. Os dois tipos, “Não era eu” e “É assim mesmo”, parecem dar conta dessa operação de tirar o outro da posição acusação para algo mais pragmático. “São formas de chamar a pessoa para uma realidade mais gritante”, explica.

Alexandre Werneck: 'As pessoas não só reconhecem a desculpa, como podem manipulá-la a seu favor'
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Alexandre Werneck: 'As pessoas não só reconhecem a desculpa, como podem manipulá-la a seu favor'

Moral utópica

A vida social é uma espécie de plano no qual todo mundo se julga mutuamente. Estamos julgando a nós mesmos e aos outros o tempo todo. “É um jogo de avaliação, crítica e prestação de conta, que dá uma ideia de satisfação”, resume o sociólogo. O aspecto mais importante é que construímos uma visão moral utópica, imaginando um mundo ideal na nossa cabeça.

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“Isso nos torna moralistas. Reduzimos o mundo em que cada um tem a sua moral a um mundo com uma única moral”. Ter só uma moral, no entanto, reduz a complexidade. A desculpa chama a atenção para reconhecermos a complexidade moral, bem como para flexibilizarmos a moral nas mais variadas situações: das mais simples às mais graves, como um crime.

“As pessoas não só reconhecem a desculpa, como ela é um pacote fechado que pode ser manipulado a seu favor”, Werneck alerta. As faltas no futebol demonstram isso. O jogador pode usar a existência das penalizações a seu favor, cavando faltas na frente do gol ou dando mole para ser derrubado.

A desculpa pode ser utilizada da mesma maneira. Raça, gênero e idade são empregadas conforme interessa. “Transforma-se uma característica em uma circunstância”, enuncia Alexandre. Uma condição natural, como a velhice, pode colocar a pessoa em posição relativa: um idoso se beneficia de sua idade quando passa na frente de alguém na fila, mas não quando entende como insulto alguém chamá-lo de “velho”. Como todos nós, encerra Werneck, que damos desculpas e construímos as circunstâncias que dão conta de nossas diferenças.



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