Contratados por restaurantes descolados de São Paulo, modelos e estudantes bonitões dão novo charme à profissão, enchem os bolsos de dinheiro e colecionam cantadas

Entre as clássicas frases de bares e restaurante, como “Ô campeão, traz mais uma” e “Chefe, fecha a conta”, hoje eles ouvem outras bem menos ortodoxas como, “Pega meu telefone”, “Tem merengue de você?” e “Casa Comigo?”. Diferente dos que atendiam nossos pais e avós, os “ garçons gatos”, como foram apelidados por muitos clientes, começaram a surgir devagar, em pontos isolados de São Paulo, e hoje, já conquistaram os estabelecimentos mais modernos e descolados da capital.

“A beleza conta muito para as pessoas e a gente não está aqui só para levar um prato da cozinha para a mesa. Estamos aqui para criar um ambiente, um clima, e ter uma relação com o cliente”, afirma Thiego Montiel , 25 anos, um dos garçons gatos do Spot. Outro destaque no pelotão da casa é o mineiro Pedro Bittencourt , de 28 anos, que já chegou a servir mesas de sunga, em Trancoso. Casado e pai de uma filha pequena, o garçom garante que a beleza ajuda bastante na aceitação do cliente, mas admite que é comum falar com o vento.

Muitas vezes as pessoas nem estão prestando atenção no que a gente está falando

“Muitas vezes as pessoas nem estão prestando atenção no que a gente está falando. Já cansei de apresentar os pratos e no final, quando quero saber o pedido escuto: ‘Que olhos bonitos você tem’, ou, ‘Com esse olho você pode falar o que você quiser que eu aceito’”, brinca ele, que é fã das cantadas das mulheres mais velhas. “Elas são as mais criativas e calejadas, sabem o que falam. Se eu fosse solteiro e me interessasse por alguma, já tinham me ganhado. Elas são certeiras nas cantadas.”

O garçom gato Thiego Montiel, do Spot, sonha um dia em ter seu próprio restaurante
André Giorgi
O garçom gato Thiego Montiel, do Spot, sonha um dia em ter seu próprio restaurante

A mulher, garante, não tem motivos para sentir ciúmes das investidas e elogios, que vêm também de garotas novas e homens. “Minha mulher é muito bem relacionada, então conhece muitos clientes e todos os funcionários. Eu sou bem vigiado por aqui!”, conta ele, aos risos. E entrega um de seus truques quando algum cliente é mais insistente.

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“Já saco as fotos da minha filha do celular e falo: ‘Olha que linda minha menina!’ Não tem erro, sempre dá certo.” Tamanha desenvoltura ainda falta ao novato Felipe Ramos , de 21 anos, garçom do Bistrot Bagatelle. Em apenas um mês de trabalho, "já recebi propostas de viagens e até de casamento". “Uma vez fiz uma despedida de solteiro, onde a futura noiva se encantou comigo e prometeu terminar com o noivo para casar comigo. Achei engraçado, fiquei sem graça, principalmente por ela falar sério”, lembra ele, com os olhos arregalados.

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Sergio Kalil , um dos sócios dos restaurantes Spot e Ritz, vitrines de garçons cobiçados, diz que beleza não é fator determinante no currículo. Bom senso e carisma também são avaliados. “Não contratamos modelos, mas sim universitários das mais diversas áreas. Tentamos contratar pessoas interessantes que falam de igual para igual com nossos clientes’, explica. Estratégia que tem surtido bons resultados. “Existe total retorno, em todos os sentidos. Eles são, sem dúvida, parte responsável no lucro. Não temos departamento de marketing, ele é espontâneo.”

Ser atendida por gente jovem é certeza de que a linguagem será a mesma que a minha

Prova disso é a advogada Maria Isabel Fagundes , 26 anos, que afirma escolher onde vai jantar pensando muito além do cardápio. “Quando saio, gosto de ver gente bonita, não necessariamente para paquerar, mas para ‘alegrar meus olhos’. Ser atendida por gente jovem é certeza de que a linguagem será a mesma que a minha e que, ao pedir indicação de um drinque ou de um prato, provavelmente o gosto será mais próximo do meu.” Mas a experiência nem sempre é positiva. “Tenho percebido que os restaurantes com garçons gatos têm um péssimo serviço. Eles são totalmente despreparados, e estão mais interessados em paquerar e achar um emprego como modelo ou artista de TV do que realmente me servir. Para paquerar, vou pra balada e não para o restaurante”, pondera a arquiteta Bianca Grubisich , 27 anos, que já teve coadas as frutas de seu clericot (versão com espumante da sangria).

A crítica dos clientes não chega a tirar o sono de quem encara o trabalho nos salões como passageiro. Caso de Gustavo Trevisan , 21 anos, que chegou a São Paulo vindo de Sorocaba para ser ator e encontrou no Bistrot Bagatelle uma fonte de renda. “Até conseguir alguma coisa na carreira artística, preciso ganhar dinheiro. Ou ia ser garçom ou vender roupas”, disse ele. Colega de salão de Gustavo, Rafael Scapin , 28 anos, também não esconde o sonho de ser ator, cantor e apresentador. “Quando me convidaram para trabalhar no restaurante, eles sabiam do meu desejo de continuar sendo modelo, e disseram que tudo bem se eu saísse depois de um tempo.” Para Guilherme Chueiri , sócio do Bagatelle, a rotatividade faz parte do setor. “Não temos a ingenuidade de que fiquem para sempre. O importante é ter pessoas bem articuladas, alegres, simpáticas, estilosas, com presença… Enfim, tudo que não seria possível ensinar em treinamento”, explica.

Hoje a profissão propicia um plano de carreira maior que antes

Mas se alguns rostinhos bonitos vêem o trabalho como temporário, outros decidiram encará-lo com seriedade e seguir carreira na área. “Sou formado em cinema, mas aqui (no restaurante) é o meu lugar, é o que eu quero fazer da minha vida”, conta Montiel, que sonha um dia em ter seu próprio estabelecimento. Mesmo desejo de Bittencourt, que em breve ganhará a honra de gerenciar uma casa nova, do zero. “Ainda sou novo e tenho muito que aprender, mas minha ideia é voltar a estudar na área de gastronomia para poder, um dia, abrir meu próprio restaurante.”

Para esses, uma boa notícia: “Hoje a profissão propicia um plano de carreira maior que antes. Antigamente não existia RH (Recursos Humanos) que estimulasse o funcionário a crescer, então era a vontade do garçom que contava muito. Agora, vejo cada vez mais pessoas com cultura, visão e vontade de crescer chegando para trabalhar”, afirma Juscelino Pereira , empresário que começou como lavador de prato, e hoje é dono dos restaurantes Piselli, Mare Monti, La Cocotte e Zena Caffé. Apesar de achar divertido encontrar modelos servindo mesa, ele conta que nos restaurantes dele as coisas ainda são nos métodos antigos. “O foco desses lugares de moda não é ter cliente fiel, então tudo bem ficar nesse entra e sai de funcionários. Já para mim, não serve.”


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