Donas de agência voltadas a esse segmento falam de suas experiências e afirmam que o setor já se mostra mais promissor e sem discriminações

A ideia de abrir uma agência de modelos para profissionais com deficiência surgiu de uma experiência dolorosa vivenciada pela fotógrafa Kica de Castro. Antes da empreitada como booker, Kica trabalhava em um centro de reabilitação para deficientes e fotografava os pacientes para prontuários e fichas médicas. Ao final das fotos, a paulistana sentia que todos ficavam constrangidos e envergonhados. “Eu fotografava as pessoas seminuas dentro de um padrão científico, eram fotos muito frias”, conta. Foi então que ela teve um estalo.

Na manhã seguinte Kica foi à rua 25 de Março, em São Paulo, comprou uma variedade de adereços e acessórios, e transformou seu espaço de trabalho em um estúdio. A iniciativa pretendia resgatar a autoestima daquelas pessoas. Deu certo. ”Elas começaram a ter contato com a vaidade e foram quebrando o gelo. Em vez de chorar, elas começaram a rir! Muitas diziam que sempre tiveram o sonho de fazer um book”, relembra Kica.

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Demorou anos para conseguirmos colocar esses profissionais no mapa. Hoje eles são uma realidade

Logo a fotógrafa passou a incentivar que as interessadas em modelar batessem na porta das agências de modelos. “Todas voltavam desanimadas, ninguém dava oportunidade.” Então, sem se desvincular da instituição, ela usou seus contatos como publicitária para fechar alguns trabalhos. “Quando percebi que estava dando certo, resolvi que era hora de cuidar da minha empresa. Larguei o centro e abri a agência, em 2007. A partir daí foi dedicação total ao novo trabalho. Hoje são 80 profissionais em todo Brasil”, prossegue, com ar satisfeito pelo sucesso alcançado.

A agência da britânica Louise Dyson conta com um casting de 80 profissionais, entre modelos e atores
Divulgação
A agência da britânica Louise Dyson conta com um casting de 80 profissionais, entre modelos e atores

Desde 2007, quando abriu seu próprio negócio, Kica passou a trabalhar com pessoas com todo tipo de deficiência: física, visual, auditiva e intelectual. Mas a procura maior, como ela relata, tem sido por modelos que sofreram amputações, usam próteses, têm paralisia ou nanismo. No decorrer desses anos, a fotógrafa e booker afirma que houve significativo avanço no mundo da moda em relação à valorização de modelos com deficiência, mas reconhece que ainda falta muito para chegarmos ao patamar da Inglaterra.

Lá, essa tendência é notada desde os anos 90, como conta a britânica Louise Dyson, proprietária da agência de modelos e atores “VisABLEAgencyModel”, em atividade desde 1993. Louise declara que hoje já vê a missão de sua empresa sendo concretizada. “Com as campanhas publicitárias garantimos que as pessoas com deficiência sejam tratadas como consumidores comuns, empresários, pessoas com poder de compra e amantes dos esportes. Não mais como vítimas para arrecadar dinheiro para a caridade”, conta ela. “Demorou anos para conseguirmos colocar esses profissionais no mapa. Mas hoje eles são uma realidade”, diz Louise. No entanto, o preconceito com deficientes ainda existe. “Meu sonho é ver uma modelo com deficiência na capa da ‘Playboy’, só assim terei certeza de que a inclusão foi feita”, assinala Kica.

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Dona da agência de comunicação e de modelos E&H LAB, em Paris, Deza Nguembock concorda com a brasileira e acredita que a discriminação esteja escondida atrás do véu do assistencialismo. Segundo ela, que tem deficiência física e também é modelo, a inserção social e profissional tem ocorrido com o respaldo da lei de igualdade de direitos e oportunidades, em vigor desde 2005 na França.

Entretanto, seu maior desafio é criar uma nova cultura em relação ao deficiente. “Aos poucos estamos conseguindo mudar essa imagem que se tinha do deficiente no passado: negativa e sombria. Ele já é visto como alguém dinâmico, com estética”, diz Deza. Diante desse novo cenário, mais promissor, as barreiras começam a ser quebradas, como Deza acredita.

“As pessoas não olham mais para a deficiência em si, já começam a reparar na beleza dos modelos”. Por isso, é fundamental assumir uma postura profissional como qualquer outra modelo. “Eles têm que estudar, fazer academia, teste de fotogenia, tratamentos estéticos, cursos de teatro e etiqueta”, diz Kica. E perseverar, como aconselha Louise. “Eu não tinha ideia de que iria levar 20 anos para atingir essa mudança de mentalidade em relação aos deficientes, mas consegui e esse sempre foi o meu único objetivo.”

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