Preconceito, humor, egoísmo e desinformação: especialistas avaliam e explicam algumas expressões individuais que afloraram nas recentes manifestações pelo País

A onda de manifestações iniciada com os protestos contra o aumento da tarifa de transporte público em São Paulo, ocorridos desde o início de junho, levou a uma profusão de demandas. Além dos cartazes em punho durante as passeatas, as redes sociais eclodiram com diferentes exigências, ressaltando o poder da internet e da comunicação. Por trás da mobilização que toma conta do País, mecanismos psicológicos também se manifestam. “Devido à intensidade emocional do momento, você tem uma grande ativação no sistema límbico, área relacionada às emoções, podendo despertar reações muito intensas e instintivas”, resume Jô Furlan, médico, neurocientista e treinador comportamental.

A começar pelas demandas específicas demais. “Nem todas as pessoas reivindicam pelo bem comum. Isto é muito forte no ser humano: ‘é a minha bandeira e ponto final’”, diz Sueli Damergian, professora doutora do Departamento de Psicologia Social e do Trabalho e autora do livro “Além da Barbárie Civilizatória: o Amor e a Ética Humanista” (Casa do Psicólogo).

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O ‘efeito manada’, que arrasta indivíduos para agir com a massa, também favoreceu algumas reivindicações incoerentes. “Eu ouvi discursos absurdos. Por exemplo: ‘Somos contra a democracia representativa’. Mas qual é a alternativa? Se existe, nos mostre o caminho. Democracia ateniense? Não é possível resolver tudo na praça”, diz a professora Maria Aparecida Aquino, do Departamento de História da USP.

Não dá para ir ao protesto para pedir a diminuição do valor do aluguel

Para Jô Furlan, os protestos abriram um precedente “fantástico e perigoso”. “Manifestantes agora sentem que têm o poder de mudança e influência. Mas não dá para ir ao protesto para pedir a diminuição do valor do aluguel”, provoca.

Objetivos vagos

Em uma mobilização coletiva, a massa não pretende obter algo concreto de forma imediata, e sim expressar sua inquietação diante da conjuntura em que se encontra. “Do ponto de vista comportamental, o povo vive um descontentamento inespecífico. Não se trata de algo equivocado. Apenas representa alguma coisa sectária e apartidária, e não inclusiva”, define o psicólogo Miguel Perosa, professor da PUC-SP.

Em relação à Primavera Árabe ou aos movimentos Occupy, ocorridos em vários países, pode-se dizer que a população brasileira teve menos foco e mais espontaneidade. O humor, muitas vezes crítico, deu o tom em muitos dos cartazes exibidos -- como o que parodiou o lema da Revolução Francesa acrescentando "Vinagré" ao trinômio "Liberté, Égalité & Fraternité" (Liberdade, Igualdade e Fraternidade). Mas ainda seria mais apropriado evitar mensagens vazias.

Primavera árabe: sírios protestam do lado de fora do consulado do país em Dubai, Emirados Árabes Unidos, em 2011
AFP
Primavera árabe: sírios protestam do lado de fora do consulado do país em Dubai, Emirados Árabes Unidos, em 2011


“É vago pedir ‘mais educação, ‘mais saúde’. É um clamor, mas deveria focar nos termos. A continuidade do movimento tem que ser pontual. Se for genérico, o manifesto irá se esvair”, Miguel prossegue. Em vez de ser reticente, o manifestante deve sintonizar o “som” que quer para a sua vida: “S de sonho, O de objetivo e M de meta”, sugere Jô Furlan.

Preconceitos

Preconceitos em torno das manifestações também afloraram. “Ouvi algumas pessoas dizendo que eram contra o manifesto porque ‘era coisa de molecada’, de jovem”, diz Alice Maria Delitti, coordenadora do Centro de Análise do Comportamento e doutora pela USP, que foi às ruas e notou as dissonâncias entre o discurso e a prática.

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‘Você tem carro e iPhone. Para que vai à passeata?’, foi outra crítica que ouviu. “As pessoas acham que só podem protestar em causa própria”, afirma.

Outra frase usada com frequência pelos críticos foi “Quem não é politizado não deveria ir para às ruas”. “Mas o fato de estar na rua já é um ato político”, explica Alice Maria.

Do lado dos manifestantes, cartazes com demandas absurdas ou preconceituosas também chamaram atenção. “Vi uma foto assustadora com um cartaz dizendo que quem recebe Bolsa Família não devia ter direito ao voto. Isso é inconstitucional, uma bobagem”, justifica o filósofo Renato Janine Ribeiro.

Mas, para ele, o balanço das manifestações continua positivo. “As pessoas estão falando o que passa pela cabeça, há muitas demandas e isso é interessante”, diz Renato. “Se a gente abrir um espaço para que as pessoas sejam mais livres, será muito positivo”.

Agentes da PF realizam perícia no Palácio do Itamaraty: alvo de depredações em um dos protestos
Antonio Cruz/ABr
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Desinformação

Se por um lado as redes sociais facilitaram a mobilização, também tornaram mais rápida a disseminação de informações não comprovadas.

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“As pessoas precisam ter comprometimento ao colocar seus argumentos para um debate. A falta de conhecimento é perigosa na internet, pois a informação se torna viral rapidamente”, afirma Patrícia Teixeira, autora do livro “Caiu na Rede, e Agora?” (Editora Évora) e consultora de mídias, gestão e gerenciamento de crises nas redes sociais.

Checar a veracidade de informações antes de repassá-las também ajuda a evitar a criação de focos violentos. Para Jô Furlan, “chegar com a adrenalina lá em cima pode estragar uma manifestação que seria pacífica. Para não ocorrer o chamado ‘efeito manada’, os manifestantes precisam saber a hora de ir embora, estabelecendo um início, meio e fim. O primeiro a jogar uma pedra inicia o confronto, a polícia responde e é guerra. Perde-se a razão com a violência”.

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