Antropóloga parte de Simone de Beauvoir para traçar novo retrato do amadurecimento e constata que as mulheres envelhecem melhor que os homens. Leia entrevista

Mirian Goldenberg: só ao chegar à velhice as mulheres percebem que se deram melhor
Arquivo pessoal
Mirian Goldenberg: só ao chegar à velhice as mulheres percebem que se deram melhor

Um retrato cruel sobre o envelhecimento foi apresentado por Simone de Beauvoir (1908-1986) no livro “A Velhice” (La Vieillesse), em 1970. “Todo mundo sabe: a condição dos velhos é, hoje em dia, escandalosa”, disse à época. A obra da filósofa e feminista francesa faz parte dos achados da antropóloga Mirian Goldenberg, autora de dois livros sobre o tema, que em agosto lançará “A Bela Velhice” (Editora Record).

Somente um grupo discordou da ideia de que o envelhecimento masculino é melhor que o feminino: as mulheres de mais de 60 anos

“Li e reli muitas vezes ‘A Velhice’ para poder dialogar com a obra de Beauvoir. Busquei o tempo todo dentro do livro dela alguma saída para o meu”, explica Mirian, que desde 2007 se aprofunda nas novas condições do velho. Foram 1.700 questionários, 15 grupos de discussão e centenas de entrevistas para que ela pudesse sintetizar em único texto todas as suas reflexões – bem mais animadoras que as da mulher de Jean-Paul Sartre (1905-1980).

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“Os meus pesquisados dizem estarem vivendo muito mais, melhor e com mais liberdades”. Os velhos de 70 anos hoje são inclassificáveis, ou “ageless”, como ela gosta de chamar esta nova categoria. Mas para que consigam chegar lá, é preciso saber envelhecer em todas as idades. Ela fala sobre os passos para envelhecer melhor em entrevista exclusiva e em primeira mão ao iG. Leia abaixo.

iG: Os livros “Coroas” (Editora Record, 2007), “Corpo, Envelhecimento e Felicidade” (Editora Civilização Brasileira, 2011) já abordaram a velhice. O que “A Bela Velhice” propõe?
Mirian Goldenberg: “Coroas” é o primeiro manifesto lúdico para tirar o estigma das mulheres que estão envelhecendo. É o primeiro momento para viver esta fase com leveza, humor e alegria. O segundo é uma coletânea de vários autores, que busca destacar os diferentes aspectos do envelhecimento. Este novo sintetiza todas as reflexões sobre o tema. Uma das principais questões do livro é a diferença do envelhecimento masculino e feminino. Em todas as faixas etárias, homens e mulheres acreditam que o envelhecimento masculino é melhor. Talvez porque o homem não seja tão cobrado pela aparência e comportamentos. Somente um grupo discordou dessa informação: as mulheres de mais de 60 anos.

iG: Por que este mito caiu por terra para elas?
Mirian Goldenberg: Elas sempre acreditaram que os cabelos brancos do homem eram um charme, bem como as rugas eram um sinal de maturidade. Mas quando elas chegam lá veem que não, que elas envelheceram melhor. Elas são mais ativas em termos de saúde e de aparência física: elas se cuidam muito mais, vão com maior frequência ao médico, assim como cuidam da pele, pintam o cabelo, comem melhor, se exercitam mais, e então se sentem mais livres.

Na pesquisa, as mulheres destacam o que ganham com o envelhecimento: liberdade, alegria, foco nelas mesmas e tempo para se cuidar
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Na pesquisa, as mulheres destacam o que ganham com o envelhecimento: liberdade, alegria, foco nelas mesmas e tempo para se cuidar


iG: De que maneira elas se sentem mais livres?
Mirian Goldenberg: Na velhice, elas estão vivendo o momento como uma libertação das obrigações que cumpriram a vida toda. Elas costumam dizer: ‘Esta é a minha vez, a minha hora. Vou cuidar mais de mim. É o melhor momento da minha vida, é quando posso ser livre e ser eu mesma. Pena que percebi isso tão tarde!’ Ao longo da vida, a mulher tem mais medo de envelhecer, muito mais do que o homem. Mas quando ela envelhece, este medo diminui bastante.

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iG: Como os homens vivenciam a velhice?
Mirian Goldenberg: Eles mudam muito na velhice, mas não falam tanto sobre liberdade, pois sempre a tiveram. Por isso, eles não invejam nada nas mulheres. Eles passam a valorizar mais a família, a casa, o afeto. Quando jovens, eles estão muito voltados para a carreira, sucesso, para ganhar dinheiro. Quando chegam à velhice, valorizam mais os afetos, o que não puderam ter enquanto estavam trabalhando. As mulheres, por outro lado, valorizam muito a aparência quando jovens. Ficam obcecadas pelo corpo, e depois passam a falar de saúde, qualidade de vida.

iG: Superados os lados negativos da velhice, o que mais elas ganham?
Mirian Goldenberg: Muito se fala sobre a invisibilidade social, problemas familiares, doenças, dores, o dinheiro que não dá para tudo, aspectos ruins da velhice. Mas quando a saúde como um todo está boa e elas têm um dinheiro mínimo para viver, as mulheres destacam o que ganham com o envelhecimento. Liberdade, alegria, foco nelas mesmas, ter tempo para se cuidar, fazer o que elas sempre quiseram. Ganhos relacionados à liberdade são as questões mais valorizadas por elas. Elas se sentem poderosas quando percebem que estão com 60 anos ou mais, vivendo bem, com alegria e liberdade.

iG: “A Bela Velhice” é um guia de como envelhecer bem?
Mirian Goldenberg: “A Bela Velhice” sugere os passos necessários para ter um envelhecimento mais belo e melhor. Dentre os depoimentos de 1.700 pesquisados, destaco os principais caminhos: ter um projeto de vida, encontrar coisas que se goste de fazer, aprender a dizer ‘não’, dar muita risada, enfrentar o medo e buscar felicidade. Em cada capítulo vou aprofundando os temas a partir dos depoimentos. Ouvindo os velhos, eles mesmos disseram como descobriram caminhos para envelhecer bem.

iG: Qual a mensagem mais importante do livro?
Mirian Goldenberg: Liberdade é a palavra central. Bem como a importância de cultivar a amizade, pois o papel das amigas é muito importante. Dizem que com as amigas elas têm a família escolhida, não a obrigatória. Há mais reciprocidade nessas relações. Também aceitar a idade, viver intensamente o presente, aprender a dizer não, respeitar as próprias vontades e rir de si mesmo.

iG: O que podemos aprender com os velhos?
Mirian Goldenberg: As pessoas mais velhas de hoje já viveram várias revoluções comportamentais ao longo de suas vidas, nos anos 60 e 70. Revolucionaram a forma de vestir, o sexo e o amor, e são essas pessoas que estão criando novas imagens do velho. Hoje não enxergamos como velhas as pessoas com 70 anos. Como o Caetano Veloso, Gilberto Gil, Rita Lee, Ney Matogrosso são inclassificáveis, sem idade, “ageless”. Não dá para dizer que eles são velhos! Mas não estou falando apenas das celebridades, e sim de pessoas comuns, que fazem as mesmas coisas.

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iG: Como chegar aos 70 anos dentro da categoria “ageless”?
Mirian Goldenberg: A dica que dou é ter um projeto de vida em qualquer parte da vida. Tanto os velhos de hoje, mas principalmente os velhos de amanhã. É preciso aprender desde cedo a construir a bela velhice. Digo para os meus alunos com 20 e poucos anos que eles precisam aprender a envelhecer, pois serão os velhos de amanhã. E para que lá na frente não se lamentem terem valorizado a própria liberdade tão tardiamente. Você pode ser homem, mulher, branco, negro, homossexual ou heterossexual. Mas se viver será velho. É uma categoria que atingirá todo mundo, da qual todos farão parte um dia.

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