Chica, Rai e Bela não se conhecem, mas são reminiscentes de um grupo em extinção, o das empregadas domésticas que passam décadas com a mesma família

Francisca Virginia Sobrinha , a Chica, Raimunda de Jesus , a Rai, e Leontina Vasconcelos , a Bela, são uma espécie em extinção: a das empregadas "da vida toda", que passam décadas, às vezes a vida profissional inteira, trabalhando para a mesma família. Ainda há casos como esses por aí, mas eles são cada vez mais raros, um privilégio que as próximas gerações não vão conhecer.

Aquela empregada que dorme na casa, convive o dia todo com a família, viaja junto no fim de semana, vai ser cada vez mais difícil de encontrar. A aprovação recente da nova Lei das Domésticas acelerou o desaparecimento já em curso desse tipo de relação de trabalho. A regulamentação da jornada de trabalho definiu a carga horária em oito horas diárias no máximo, e manter uma empregada doméstica em tempo integral vai pesar no bolso do empregador. A tendência é que essa empregada meio funcionária-meio família deixe de existir. “Vai ficar caro e difícil separar o que é prestação de serviços e o que é um favor”, explica o economista André Braz, da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Mas, considerando os casos que o Delas reuniu aqui, vai ter um pouco de tristeza envolvida no encerramento dessas famílias estendidas que algumas empregadas formaram com seus patrões. Conheça os casos de Chica, Bela e Rai.

FRANCISCA, A CHICA

Trabalha há 34 anos na mesma casa e se sente muito feliz. Natural de Farias Brito, no Ceará, é chamada de Chica pelos Merlo. "Me apaixonei por essa família", diz. Atualmente aposentada, ainda mora e trabalha na casa cuidando de sua “patroa”, de 90 anos, que sofre de mal de Alzheimer. “Fui registrada desde o primeiro dia em que entrei aqui. A convivência sempre foi através do respeito. Meu patrão nem gostava que eu falasse ‘meu patrão’”, conta.

Francisca Virginia Sobrinha trabalha com os Merlo há 34 anos:
Edu Cesar
Francisca Virginia Sobrinha trabalha com os Merlo há 34 anos: "Me apaixonei por essa família"















Chica foi “adotada” por todos na casa. Sofreu as tristezas da família, como a perda de um dos filhos do casal, e, mais recentemente, o falecimento de seu chefe. Mas também viveu muitas situações felizes, principalmente quando foi convidada para ser madrinha de casamento de Patrícia, neta dos Merlo. “O carinho vale mais do que dinheiro e todas essas coisas”, assegura Francisca.

LEONTINA VASCONCELOS, A BELA

Caso parecido aconteceu com Leontina Vasconcelos, que trabalhou 42 anos para a família Cecchi. Bela, apelido de infância que carrega até hoje, aos 85 anos, cuidou dos quatro filhos de dona Icilda e dr. Adolfo até eles crescerem. “Eu gostava muito de trabalhar para eles. Os patrões eram muito bons para nós. E eu gostava demais das crianças. Criei todos eles”.

Bela e os outros funcionários da casa foram registrados com o surgimento da lei dos empregados domésticos criada em 1972, e ela se aposentou 20 anos depois. A relação afetiva com a família se tornou tão importante que ainda tem contato com os filhos e netos de seus empregadores. “A amizade continua. Moro no interior e quando vou para São Paulo fico na casa das crianças [hoje já adultos] , mesmo tendo parentes na cidade. Nos falamos sempre. Eles vêm me visitar e tudo”, conta Bela.


RAIMUNDA DE JESUS, A RAI


Raimunda segura Ana, aos 8 meses, no colo; hoje, 45 anos depois, elas seguem juntas
Arquivo pessoal
Raimunda segura Ana, aos 8 meses, no colo; hoje, 45 anos depois, elas seguem juntas

Com Raimunda de Jesus a história não foi muito diferente. Aos 16 anos, ela foi trabalhar na casa da dona Cecília e seu José Hamilton e hoje, aos 67 anos, segue na família. Trabalhou 9 anos com a família Ribeiro, mas eles precisaram mudar de cidade e Rai, como é carinhosamente chamada por todos, não podia ir junto. Estava estudando. O entrosamento de Raimunda e da família Ribeiro era tanto que ela foi escolhida como madrinha de Teté, filha mais nova de dona Cecília.

“Quando entrei lá, a filha mais velha deles, a Ana Lúcia, não era nem nascida. A dona Cecilia me colocou na escola, mas eles tiveram que ir embora para Ribeirão Preto e eu não podia ir. Então fiquei com a irmã dela, a dona Lais, e trabalhei quase 40 anos na casa dela”, lembra Raimunda.

Rai se aposentou e decidiu descansar, mas não conseguiu ficar longe por muito tempo. Atualmente voltou a trabalhar na casa de José Hamilton, hoje viúvo, cuidando dele e de tudo por lá. “Todos sempre me trataram muito bem, me sinto feliz aqui. É muito bom saber que eles podem confiar em mim e eu neles”.

Teté lembra de uma história engraçada de sua infância. "A Rai gosta muito de cantar, e a gente cresceu ouvindo a voz dela vindo da cozinha. Uma vez meu pai gravou uma fita dela cantando e nós fomos viajar ouvindo a Rai no cassete do carro", se diverte ela. E Raimunda segue cantando, sua receita para espantar a tristeza.

VIDEO: RAIMUNDA E JOSÉ HAMILTON CANTAM JUNTOS HITS DE LUIZ GONZAGA


Realmente, vai ser complicado ver novos casos como esses relatados aqui se repetirem. Dados recentes mostram que o percentual de domésticas diminuiu entre 2009 e 2011. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), o número de trabalhadoras no setor caiu 7,58%, de 6,6 milhões de trabalhadoras em 2009, para 6,1 milhões em 2011.

O relatório mostra que o movimento na categoria não é resultado apenas das mudanças na lei. Já vem acontecendo há algum tempo, por conta de um mercado de trabalho aquecido e pagamento de melhores salários. “Quando você coloca novas regras em jogo, que vão onerar mais ainda o orçamento familiar, alguns já se antecipam e dizem ‘eu já não ia aguentar mesmo pagar esse funcionário por muitos meses, agora vai ficar mais apertado”, explica o economista André Braz, da Fundação Getúlio Vargas (FGV).


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