Em Nova York, projeto temporário reúne cursos, palestras e workshops sobre temas aparentemente sombrios, mas com resultados bem-humorados

NYT

Epitáfio de W.B. Yeats: versos retirados de um dos últimos poemas
Flickr
Epitáfio de W.B. Yeats: versos retirados de um dos últimos poemas

“A carta de suicídio – e eu estou sendo completamente sincero – é uma literatura tocante, estranha, pungente e peculiar”, diz Simon Critchley, autor e professor de filosofia da New School, em Nova York. “O interesse das pessoas por estas cartas é algo quase pornográfico”.

Simon Critchley disse isso em plena “Oficina de Escrita de Cartas de Suicídio”, ministrado por ele. O curso é parte de uma série de perfomances, instalações e palestras da School of Death (“Escola da Morte”, em tradução livre), um projeto temporário patrocinado pela Cabinet Magazine e instalado em uma rua de Nova York.

A escola temporária surgiu como uma esperta reação a um programa em Londres chamado School of Life, o qual Critchley descreve como “um filosofia particularmente nauseante de autoajuda”.

“Não estamos brincando com o suicídio. Fazemos isso como uma maneira de compreendê-lo."

“É também uma maneira de zombar dos workshops de escrita criativa”, diz Critchley, 53. “Não estamos brincando com o suicídio. Fazemos isso como uma maneira de compreendê-lo. As pessoas estão aterrorizadas em conversar sobre a morte”.

No sábado, a aula começou com Critchley ajoelhado em frente ao quadro negro, cercado por quinze participantes, com uma discussão sobre a ética mutante do suicídio, do antigo ao moderno modelo de Cristianismo até os recentes debates na mídia sobre o direito de morrer.

O bilhete de suicídio, identificado como um gênero literário de forma única, é uma invenção muito recente e coincide com a ascensão da literatura e da imprensa, disse o professor.

“Na antiguidade, não havia a necessidade de deixar um bilhete”, ele disse. “Seria óbvio o porquê de você ter se matado.”

Faça o teste: que mulher de Paulo Coelho você é?

Ele mostrou famosos bilhetes deixados pela escritora inglesa Virginia Woolf, Adolf Hitler e Kurt Cobain, entre outros.

Uma estudante levantou a mão para compartilhar uma carta que havia trazido. Era seu favorito, encontrado em uma antologia.

“Querida Betty, eu te odeio. Com amor, George”, ela leu.

A classe riu, mas rapidamente começou uma conversa sobre as dicotomias da carta – amor e ódio, humor e raiva – e, então, seguiu para a questão maior do propósito de um bilhete de suicídio.

“Para não morrer sozinho”, arriscou Sara Clugage, 33, artista do Brooklyn. “Para avisar alguém”.

“Os bilhetes estão cheios de sofrimento”, outro aluno intercedeu. “Em última análise, não são tão interessantes.”

“Eles são uma última e desesperada tentativa de comunicação”, disse Critchley. “São uma comunicação falha, em certo sentido”.

Os estudantes então tiveram 15 minutos para imaginar suas próprias cartas de suicídio, as quais escreveram em notas de 4x6 e compartilharam em voz alta com a classe.

Uma mãe com aparência radiante e um adorável sotaque britânico foi escolhida primeiro. Ela tinha escrito a carta para seus filhos.

“Quando vocês inevitavelmente descobrirem aquelas coisas que mantive em segredo, não deixe que diminuam a realidade ou a magnitude do meu amor por vocês”, ela leu.

O exercício produziu textos que variaram do rancoroso ao existencial, alguns com toque bem-humorado.

“Sinto muito, principalmente pelo meu cachorro. Com amor, Lauren. PS: por favor, não me enterrem em Los Angeles”, leu uma estudante.

Andrew Riddles, 44, um desenvolvedor de web em visita a Nova York direto do Canadá, escreveu, “Fora do palco é sempre melhor”. Ele viu sensibilidade na experiência do workshop. “É um abraço à vida, o oposto do que você espera”, disse.

A segunda metade da tarde foi focada em escrita de epitáfios, liderado por Jeff Dolven, professor de inglês da Universidade de Princeton, que chama o epitáfio de “um gênero muito diferente” do bilhete de suicídio.

Os estudantes escreveram seus próprios epitáfios. Alguns foram estóicos, outros engrandeceram as próprias qualidades e alguns foram bem-humorados. “Ele era bondoso com todos os animais, exceto sua família”, escreveu Andrew Riddles.

Ao fim da tarde, Dolven liberou a turma não sem antes compartilhar um último epitáfio: o do poeta irlandês W.B. Yeats, retirado dos versos finais de um de seus últimos poemas:

“Lança um olhar gélido à vida, à morte; cavaleiro, segue em frente!”, leu, e um silêncio frio permeou a sala.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.