Obesa, Haley Morris-Cafiero começou seu projeto por acaso, depois de capturar em uma foto o olhar debochado de um transeunte sobre ela mesma. Leia depoimento

“Comecei minha série fotográfica "Wait Watchers" [“Vigilantes da Espera”, um trocadilho com o nome em inglês do grupo Vigilantes do Peso – Weight Watchers] por acaso. Eu estava fazendo alguns autorretratos para meu projeto "Something to Weigh" [que pode ser traduzido como “Algo para Pesar” ou “Algo para Ponderar”] , série em que me fotografo em espaços onde penso sobre o meu peso: restaurantes, piscinas e outros locais de socialização.

Veja abaixo as fotos da série "Wait Watchers" de Haley Morris-Cafiero:

Três anos atrás, eu estava preparando um autorretrato em uma escadaria na Times Square, Nova York. Montei a câmera em um tripé, como de costume, sentei-me em um dos degraus e tirei a foto. Depois que revelei e ampliei o filme, examinei a fotografia e encontrei não só a minha própria imagem sentada nos degraus, mas também a de um homem parado atrás de mim, sorrindo.

Eu tinha ouvido falar que as pessoas faziam comentários pelas minhas costas, mas nunca pensei que iria capturar o olhar deste momento na foto

Embora estivéssemos na capital mundial dos estímulos sensoriais, Times Square, e uma mulher estivesse fotografando-o, o olhar dele se fixou em mim.

Eu tinha ouvido falar que as pessoas faziam comentários pelas minhas costas, mas nunca pensei que iria capturar o olhar deste momento na foto. Essa imagem agora se chama "O anonimato não é para todos" e foi a primeira fotografia da minha série "Wait Watchers".

E então aconteceu de novo em outro clique, cinco minutos mais tarde. Então, decidi montar a minha câmera para esta finalidade: tentar capturar os olhares de estranhos ao me ver.

Imagem da série 'Wait Watchers': enquanto Haley fala ao celular, policiais brincam pelas costas dela
Haley Morris-Cafiero
Imagem da série 'Wait Watchers': enquanto Haley fala ao celular, policiais brincam pelas costas dela

"Wait Watchers" é um experimento social. Tento devolver o olhar para o observador através da colocação da câmera em um espaço público, e da realização de tarefas banais diante dela, enquanto são tiradas centenas de fotografias para ver se capturo um olhar crítico ou inquisidor na expressão facial ou linguagem corporal dos transeuntes.

Procuro composições interessantes, com muitas pessoas transitando em um local público. Defino a composição usando um assistente como ‘dublê’. Então coloco a máquina em um tripé ou a deixo com um assistente, me posiciono diante da câmera, realizo um ato cotidiano banal, como tomar sorvete ou falar ao telefone celular, e instruo meu assistente para manter o botão do obturador apertado quando outras pessoas passarem por mim. Nunca sei se tenho uma boa imagem até examinar o material em casa. Sou o tema das fotos porque eu estou documentando a minha história – e o espectador pode se colocar tanto no lugar do transeunte quanto no meu.

Quando encontro uma boa imagem, apresento-a ao mundo. Quero deixar uma coisa bem clara: eu não sei o que os transeuntes estão pensando. Não os conheço e não tenho nenhuma má vontade contra eles. Estou apresentando um “momento Cartier-Bresson” [fotógrafo francês famoso pelas imagens espontâneas que capturava], quando o obturador, o estranho e eu nos alinhamos. Fora correções básicas de cores, não edito nem manipulo a imagem em software algum.

Fotografar e encontrar as imagens boas é muito empolgante para mim. Aprecio de verdade o processo de captura que, em um microssegundo, revela o que acontece quando as pessoas acreditam que não estão sendo observadas, passando pelas minhas costas.

Não espero capturar boas imagens cada vez que eu faço uma sessão. Viajo para tantos lugares diferentes quanto posso, pelo mundo todo, para tentar capturar a maior mistura possível de transeuntes. Até agora, viajei para Nova York, Chicago, Barcelona, na Espanha, e ​Cuzco, no Peru. E vou para Berlim, na Alemanha, e Praga, na República Checa, neste verão. Não quero que as imagens sejam sobre um determinado gênero, raça, idade, etc.

Vou usar algumas críticas feitas nos artigos publicados sobre o “Wait Watchers” para criar minha próxima série. Muitos artigos sugeriram que eu me exercitasse, me vestisse melhor e usasse maquiagem. Então, vou levar minha experiência social para a academia, lojas de roupas e balcões de maquiagem e ver se capturo como as pessoas reagem à minha tentativa de "melhorar" a mim mesma.

Estou procurando uma universidade para poder me inscrever em uma bolsa de estudos e tentar viajar ao Brasil no próximo verão”.

Visite o site de Haley Morris-Cafiero e veja outros projetos.


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