Novas tecnologias permitem a qualquer um registrar sua história pessoal, com fotos digitais e textos em profusão, mas há uma questão não respondida: quem vai ler tanto material?

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Ninguém confundirá os típicos aposentados de hoje com o Imperador Augusto, que construiu um enorme mausoléu para celebrar sua vida para a eternidade. Mesmo assim, eles pertencem à primeira geração de idosos com fácil acesso a algo antes tão raro e valioso que relativamente poucas figuras históricas puderam aproveitar até agora: a imortalidade virtual.

Cathi Nelson: para a organizadora, o livro impresso, paradoxalmente, segue como um dos formatos mais duradouros
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Cathi Nelson: para a organizadora, o livro impresso, paradoxalmente, segue como um dos formatos mais duradouros


Você não está fazendo um favor ao futuro deixando 4 mil fotos borradas de uma partida de futebol", diz a presidente da Associação de Historiadores Pessoais

Enquanto seus avós deixaram apenas algumas fotos amareladas, os aposentados de hoje têm a capacidade de legar um registro completo de suas vidas. Pessoas em cinquenta, 100, até mesmo 500 anos poderão ver como seus antepassados eram, ouvi-los falar, aprender sobre suas aspirações e conquistas e até sobre suas viagens de férias.

Ron W. Henriksen, um aposentado de 66 anos de Houston, afirmou que o nascimento de seus sobrinhos levou-o a contratar uma empresa para produzir um filme sobre sua mãe de 98 anos que combina fotos antigas, recortes de jornais e documentos de família com entrevistas ao vivo. "Percebi que haveria gerações de nossa família que nunca conheceriam essa mulher notável", disse ele. "E um projeto como esse se tornou viável apenas nos últimos anos".

Duas forças principais estão orientando a imortalidade virtual. A primeira e mais óbvia são tecnologias relativamente novas, hoje tão comuns que as pessoas as subestimam: câmeras de vídeo baratas, programas de edição, computadores e sites de mídia social. Eles permitem que as pessoas tirem milhares de fotos e gravem centenas de horas de vídeo, registrando facilmente qualquer ideia que lhes surgir.

Durante séculos, as pessoas registraram suas vidas em diários. Mas isso era "um impulso bastante estranho, adotado por um fragmento da população", segundo Thomas Mallon, cujas obras incluem "A Book of One's Own: People and Their Diaries". Manter um diário era trabalho duro: exigia tempo, esforço e vontade.

Hoje, muitas pessoas estão criando diários virtuais sempre que entram na internet ou tiram uma foto com seu celular.

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Essas tecnologias acompanham uma mudança cultural mais ampla, que reconhece a importância das vidas comuns.

A mudança está ajudando a redefinir o conceito de história, conforme as pessoas subitamente possuem as ferramentas e o desejo de registrar as vidas de quase todo mundo. O antigo problema que assolava os historiadores – a falta de informações – foi superado.

Mas a facilidade de registros também tem um revés: o problema do excesso de informação. Esta é uma faceta dolorosamente familiar aos historiadores profissionais. H.W. Brands, professor da Universidade do Texas, em Austin, leu todos os 35 volumes dos escritos de Benjamin Franklin para sua biografia do fundador dos EUA, "The First American" (2000). O foco de seu próximo livro, o presidente Ronald Reagan, deixou mais de 60 milhões de documentos.

"O desafio à frente estará mais em identificar o material que interessa do que em propriamente encontrar material", afirmou ele.

Os aposentados enfrentam um problema similar. Eles precisam fazer a pergunta difícil: quanto tempo os seus descendentes – ou mesmo seus parentes vivos – realmente querem gastar revivendo suas vidas? É mais provável serem 20 horas ou apenas duas?

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Fotos borradas

"Você não está fazendo um favor ao futuro deixando 4 mil fotos borradas de uma partida de futebol", argumentou Sarah E. White, presidente da Associação de Historiadores Pessoais. "Precisamos descobrir como fazer a curadoria de nossas vidas, examinar todo o material que estamos gerando para contar uma história de nós mesmos que faça sentido para outras pessoas depois de nossa morte."

Em resposta, um crescente número de empresas e organizações vem surgindo nas últimas duas décadas para ajudar as pessoas a preservar e moldar seu legado. Segundo White, que administra a First Person Productions em Madison, Wisconsin, sua associação foi fundada em 1995 para profissionais que ajudam outras a pessoas a escrever suas memórias. Inicialmente, os computadores pessoais eram a maravilha moderna que simplificava o processo. "Então, quando programas de edição de vídeo como iMovie e Final Cut Pro ficaram disponíveis, as pessoas também podiam começar a contar suas histórias com áudio e vídeo", explicou ela.

Cathi Nelson, de West Hartford, Connecticut, que se especializou em ajudar pessoas a compilar álbuns de recortes tradicionais, disse ter adotado a tecnologia há uma década, quando percebeu que seus clientes estavam "atolados com uma vida de fotos impressas, fotos digitais, mídias e recordações". Em 2009, ela fundou a Associação de Organizadores Pessoais de Fotografias, cujos membros pagantes chegaram a 650 no ano passado.

Segundo Nelson, a maioria dos clientes dos membros é formada por aposentados que finalmente têm tempo para refletir sobre suas vidas. Muitos precisam de ajuda para digitalizar o passado – escanear fotos vincadas e certidões de nascimento, além de transferir materiais de formatos obsoletos como fitas cassete e VHS. Ela acrescentou que os formatos atuais – discos rígidos, DVDs, até mesmo a nuvem – também não são confiáveis para permanência, e que é essencial ter um plano para manter os arquivos atualizados conforme as tecnologias evoluem. Ela disse que o livro impresso, paradoxalmente, segue como um dos formatos mais duradouros.

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