Com participação ainda tímida, bicicletas de projeto são opção para fugir do trânsito em trajetos curtos, mas ciclistas ocasionais não se sentem seguros em fazer distâncias maiores

Amsterdã ainda não é aqui, mas São Paulo entra em cena como a capital da bicicleta no Brasil. A afirmação é da cicloativista Renata Falzoni, uma das maiores referências no assunto. Ela enxerga no projeto Bike Sampa uma luz para o caos do trânsito da metrópole. Para Renata, a iniciativa da Prefeitura, patrocinada pelo banco Itaú-Unibanco, está sintonizada com a tendência mundial de mobilidade urbana. Em países de primeiro mundo, as bicicletas compartilhadas estão integradas com o transporte público, como em Copenhague, na Dinamarca, segunda capital mais amigável ao ciclista. “No Brasil, o foco é no carro e no caminhão. Há a omissão de sinalização para o ciclista, e não foi feito projeto cicloviário exequível”, concede.

André Tomazori: bike própria no final de semana, bicicleta pública para o transporte cotidiano
Rodrigo Acedo/ Fotoarena
André Tomazori: bike própria no final de semana, bicicleta pública para o transporte cotidiano

Apesar do cenário ainda pouco favorável aos transportes sustentáveis, os ciclistas são cada vez mais comuns na paisagem urbana, em quantidade reforçada pelos usuários das bicicletas públicas. Criado em maio de 2012, o projeto contempla principalmente uma parcela da população que precisa se deslocar por cerca de dois ou três quilômetros, em média. E pode realizar isso sem colocar a mão no bolso.

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As bicicletas laranjinhas estão disponíveis em estações distribuídas em 96 pontos estratégicos da capital. “É mais rápido e mais agradável. Claro que ajuda o fato de eu morar bem perto do trabalho, são 3.6 km. Chego ao escritório em 15 minutos, sem trânsito e sem emissão de carbono. Penso muito nisso. Se quero uma cidade melhor, com menos carros na rua, preciso fazer a minha parte”, diz a advogada Mariana Barbosa, de 30 anos.

A semente foi lançada, mas a iniciativa se revela ainda insuficiente se comparada às necessidades da grande maioria da população, que para chegar aos locais de trabalho tem que enfrentar uma, duas, três ou mais horas diárias em metrôs, ônibus, trens e carros particulares, todos atolados em um imenso congestionamento urbano.

Diego Moreira: distância de 2,5 quilômetros entre o trabalho e a casa
Arquivo pessoal
Diego Moreira: distância de 2,5 quilômetros entre o trabalho e a casa

Segundo uma pesquisa sobre mobilidade urbana feita pelo Ibope em setembro do ano passado, 74% dos habitantes da cidade gastam de uma a quatro horas se deslocando pela cidade. Não é o caso, porém, de Diego Moreira, empresário paulistano de 33 anos: por morar a apenas 2,5 km de seu escritório, tem o privilégio de passar à margem do trânsito do bairro dos Jardins, engrossando o coro dos que consideram a viagem sobre duas rodas uma forma de melhorar a qualidade de vida. “Vou trabalhar todo dia com a minha bike. Uso a do Itaú quando estou com preguiça de enfrentar a ladeira. Pedalo na ida, que é descida, e para não subir a rua inteira, volto de ônibus ou táxi”, explica.

Outro adepto em fazer apenas uma perna do trajeto e poder deixar a bicicleta no meio do caminho, uma das grandes vantagens apontadas pelos usuários do Bike Sampa, é o advogado André Tamarozi, de 35 anos: “Eu tenho a minha bike para pedalar no fim de semana, mas opto pela do Itaú no dia do meu rodízio por uma questão de comodidade. Também por causa da segurança, pois não fico preocupado se vão roubar alguma peça”. Além do uso compartilhado da bicicleta ser uma “mão na roda”, o lado mais bonito de São Paulo torna-se mais visível para quem pedala ou anda a pé pela cidade. É quando se tem uma percepção única da paisagem urbana, da cidade e de seus personagens.

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Além de compor as opções de transporte público cotidiano para alguns, o projeto também pode ser uma porta de entrada para o mundo das bicicletas. A planejadora financeira Maria Helena Máximo, de 48 anos, descobriu-se como uma pessoa efetivamente interessada em bikes alugando uma laranjinha aos domingos para passear. “Pedalei com bicicleta do Itaú janeiro todo e, em fevereiro, resolvi comprar uma híbrida de 27 marchas. A laranjinha é boa para pequenos trajetos. Agora que gosto de pedalar 60 quilômetros, ela me cansava muito”.

Mas a carência de ciclovias e ciclofaixas disponíveis nos dias da semana intimida o ciclista que precisaria fazer trajetos mais longos. Por isso, nem tudo são flores. Ao lado das dificuldades de se trafegar em duas rodas (e ainda sem motor) pela selva urbana, conforme afirma o contumaz usuário Diego Moreira, o projeto contabiliza algumas deficiências. “É preciso contar com certos imprevistos. Já reclamei na central que o aplicativo que indica a quantidade de bicicletas disponíveis no ponto é pouco preciso”. Ele ainda informa que já ficou a ver navios algumas vezes, ao encontrar a estação vazia.

Bruno evita trajetos maiores que um quilômetro:
Arquivo pessoal
Bruno evita trajetos maiores que um quilômetro: "já tomei umas retrovisadas"

O perigo de acidente também é levado em conta. O empresário Bruno Aracaty, de 29 anos, limita sua utilização a um quilômetro, pois teme o enfrentamento com os veículos das grandes avenidas. “Preciso escolher os caminhos certos. Já tomei uma retrovisada aqui e ali. Não dá para andar em vias expressas, é muito risco ”, diz.

O receio de Bruno faz sentido. Segundo dados da Secretaria de Estado da Saúde, a cada dois dias morre um ciclista no estado de São Paulo. No entanto, segundo dados da CET, as fatalidades com ciclistas paulistanos caíram quase pela metade em relação a 2005: de 93 mortes, passaram para 49 em 2011.

Ainda assim, o trânsito não é pensado para quem cruza a cidade sobre duas rodas. A Avenida Paulista, para citarmos um exemplo, é um ótimo lugar para pedalar. No entanto, ainda há omissão de sinalização. Ainda que não nos transformemos em uma Amsterdã, onde 53% da população pedala diariamente para se locomover, quem sabe, a curto prazo, possamos nos ombrear a Berlim, onde 15% dos deslocamentos são feitos de bicicleta. Basta uma revisão completa dos velhos conceitos que sempre privilegiaram o automóvel.

Serviço

Como acessar: através do site mobilicidade.com.br . Há três condições: saber andar de bicicleta, dispor de telefone celular e cartão de crédito.

Quem patrocina: é uma parceria entre a Prefeitura de São Paulo, o Banco Itaú-Unibanco e as empresas Serttel/Samba.

Horário e abrangência: entre 6h00 e 22h00, nas 96 estações de retirada e devolução espalhadas pela capital.

Quanto custa? O limite de viagem gratuita é de meia hora. Excedido esse tempo sem que a bike tenha sido devolvida em alguma estação, o usuário será tarifado em R$ 5. A cada nova meia hora, paga-se mais R$ 5.

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