A atriz Maria Paula mistura humor e ativismo. Psicóloga, cronista e mãe de menino e menina, ela acredita que é em casa que começa a desigualdade

O que fez a atriz Maria Paula Fidalgo, 42 anos, entrar de cabeça na causa feminina foi uma conta matemática. Ela havia acabado de ser mãe de Maria Luísa e contabilizou: como atender à orientação do Ministério da Saúde de amamentar, exclusivamente, a filha até os seis meses de vida, se o Ministério do Trabalho permitia uma licença-maternidade de só quatro meses?

A atriz Maria Paula mistura humor e ativismo em favor das mulheres
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A atriz Maria Paula mistura humor e ativismo em favor das mulheres

Este questionamento, sério e preocupado, fez a então única mulher entre os humoristas do Casseta e Planeta ser convidada pela Sociedade Brasileira de Pediatria para estampar a campanha de expansão da licença-maternidade para 180 dias, já adotada pelo setor público e algumas instituições privadas.

Brigar pelas mulheres foi uma tarefa que agradou a atriz que, além de saber fazer rir, também cursou psicologia e medicina chinesa. Cronista, Maria Paula lançou o livro “Liberdade Crônica” (Ed. Faces, em 2011), no qual debate os questionamentos das mulheres contemporâneas.

Até quando faz comédia Maria Paula convida a uma reflexão sobre o universo feminino. Ela considera que uma parte da explicação para os 5 milhões de espectadores do seu último longa, “De Pernas para o Ar 2”, é a identificação: “a mulher, workaholic, está tão sobrecarregada que compromete o prazer sexual”.

iG: Falar de desigualdade entre homens e mulheres ainda é assunto necessário para 2013?

Maria Paula: Sim, a gente precisa falar e usar este termo. Apesar de sermos maioria nas universidades (as mulheres representam 51% das matrículas segundo o último censo feito pelo Ministério da Educação) , ainda ganhamos menos do que os homens. Se olharmos só as estatísticas dos cursos universitários e de pós-graduação, por exemplo, parece piada dizer que as profissionais enfrentem desvantagens salariais. Mas isso ainda é uma verdade no País. Não quer dizer que não existam avanços. Eles existem e são muitos. Mas a jornada dupla de trabalho permanece sendo imposta só para a população feminina. A mulher, mesmo quando representa o ‘ganha-pão’ de uma família, ainda tem de arcar sozinha com as obrigações do lar. O preço pago é a exaustão, a estafa. Dar conta de tudo é uma obrigação injetada e assimilada. Acredito que está aí um dos motivos para o filme “De Pernas para o ar 2” (Maria Paula é coadjuvante no longa) ter feito tanto sucesso e chegado aos 5 milhões de expectadores. Claro que há a atração da comédia, mas também existe a identificação com a protagonista (Ingrid Guimarães), uma workaholic, está tão sobrecarregada que tem dificuldade até de pensar no prazer sexual. Hoje não basta ser mulher, é preciso ser super-mulher.

É preciso entender que quando a mulher está em licença-maternidade, um direito inegável, ela não está descansando. Ela está trabalhando para a sociedade

 Maria Paula Fidalgo é mãe de uma menina e um menino e defende a educação igual entre os gêneros
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Maria Paula Fidalgo é mãe de uma menina e um menino e defende a educação igual entre os gêneros

iG: Ser uma super-mulher é possível?
Maria Paula:
Não é desejável e, pior do que isso, é uma armadilha. A mulher contemporânea perdeu um dos bens mais valiosos, que é o tempo. Não há tempo para os filhos, para a família e, principalmente, para ela mesma. Se hoje a mulher se permite fazer ioga, ela faz olhando no celular, enquanto organiza outras áreas da vida dela, da vida dos filhos e da vida do companheiro. Os avanços conquistados pelas mulheres fizeram com que ela perdesse o grande luxo da tranquilidade, de respirar fundo, ouvir um passarinho cantando ou tirar férias. Então, passou da hora de exigir da sociedade um apoio real para a mulher desempenhar todos estes papéis. É preciso entender que quando a mulher está em licença-maternidade, um direito inegável, ela não está descansando. Ela está trabalhando para a sociedade. Um tempo fundamental para criar e garantir a sobrevivência de uma pessoa que, no futuro, vai compor as relações sociais. E muitas vezes, em especial nas periferias, este papel de criação é exclusivo das mães.

iG: Pois bem, então a próxima pergunta é quase uma provocação, sem querer aumentar o leque de culpas atribuídas às mulheres: sabendo que a criação dos filhos ainda é considerada uma obrigação exclusivamente feminina, a mulher então contribui para formar este homem machista?

Maria Paula: Com certeza. Não podemos fugir desta responsabilidade. Nós criamos os homens machistas e perpetuamos este ciclo de desigualdade. Estou cansada de ver os meninos sendo poupados e as meninas sendo exigidas dentro das próprias casas. A questão não é culpar as mulheres, mas é preciso refletir sobre a nossa participação nisso tudo. Eu sou mulher como qualquer outra e já me peguei fazendo isso dentro da minha casa (Maria Paula é mãe de Maria Luísa e Felipe). Por exemplo, tendo peninha do meu filho na hora de passar para ele a função de lavar a louça no fim de semana. Pena por quê? O que tem demais nisso? É preciso estar atenta a estas pequenas desigualdades. A formação começa nessas pequenas coisas, nas divisões e nas exigências. Nós mulheres precisamos encarar o desconforto que é já ter errado com os filhos e corrigir, em vez de fingir que nada aconteceu. Será um ganho para a sociedade.

iG: Acredita que um dos erros do início da luta feminista foi passar a mensagem de que a mulher dava conta de tudo sozinha?

Maria Paula: Não vejo como erro. Era uma situação de privação total de direitos e para conseguir qualquer coisa a mulher teve de provar que podia fazer tão bem como os homens. Não havia vez para a mulher e ela se masculinizou para competir com os homens. Com isso veio a sobrecarga, porque além do mercado ainda tinha o ambiente doméstico, que continuou só nas nossas costas. Mas agora já está provado que a mulher é capaz de fazer qualquer atividade tão bem - ou melhor - do que os homens. Gente, a presidente do Brasil é mulher! Corremos atrás dos anos e anos de opressão e acredito que estamos prontas para dar o próximo passo. Já estamos prontas para imprimir a marca feminina, da delicadeza e de exigir o apoio social para sermos profissionais, mães e mulheres. É a hora da virada.

iG: Você trabalha com humor, na área da comédia. É um ambiente que ainda preserva espaço para o machismo?

Maria Paula: Não vejo diferença. O machismo está em qualquer área, é geral. Na Suécia talvez não seja tão escancarado porque lá a luta pela igualdade de direitos tem mais tempo, é mais antiga. Já no Afeganistão, deve ser 40 vezes pior. Mas em qualquer lugar a mudança social depende de uma mudança interna. Toda transformação, ainda mais quando mexe com estruturas antigas, precisa de esforço. Se não mudar dentro de casa, não será realidade da porta para fora.

>>> Leia o Especial: Três Marias na luta pelos direitos das mulheres

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