Maria Amélia, a Amelinha, foi presa política, fundou um programa de proteção à mulher e hoje está na Comissão da Verdade de SP

Janaína tinha cinco anos quando se surpreendeu com a cor azulada da mãe e os tons esverdeados que marcavam o pai. Maria Amélia Almeida Teles e o companheiro César Teles foram presos por questões políticas no início dos anos 1970 e exibidos aos filhos Janaína e Edson, de 5 e 4 anos, durante uma sessão de tortura. A coloração na pele vinha da sessão de porrada e eletrochoque realizada na sede do DOI-Codi, órgão de repressão subordinado ao Exército na época da ditadura brasileira (1964-1985).

A militante Maria Amélia Teles, 67 anos, a Amelinha, atua na Comissão da Verdade de SP
Alexandre Carvalho/ Fotoarena
A militante Maria Amélia Teles, 67 anos, a Amelinha, atua na Comissão da Verdade de SP

Amelinha, como é conhecida, foi a primeira a mover ação de responsabilidade civil contra um agente da ditadura, o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, acusado de ser o agressor do núcleo familiar e considerado torturador da família Almeida Teles pelo Tribunal de Justiça de São Paulo em 2008.

De lá para cá, ela guiou sua atuação em defesa dos presos políticos e da abertura dos arquivos da ditadura, e na elucidação dos casos de desaparecidos ou mortos em situações duvidosas no governo dos militares. Também reservou espaço para as causas femininas, sendo fundadora da União de Mulheres de São Paulo. Em 1992, criou o programa Promotoras Legais Populares.

Em curso com duração de um ano, mulheres de todas as comunidades de São Paulo são capacitadas com noções de direitos femininos que constam em lei, mas são poucos obedecidos na prática. O objetivo é formar mediadoras de direitos e conflitos e até hoje já são 4 mil diplomadas.

Amelinha também faz parte da Comissão da Verdade sediada em São Paulo e, não por acaso, escolheu o mês de março para focar as audiências semanais nas mulheres vítimas da ditadura.

Em entrevista ao Delas, ela comemora os avanços conquistados pelo gênero feminino, lamenta as desigualdades perpetuadas e diz que ainda quer mudar o mundo “com as mulheres”.

iG: Você está na luta pela igualdade de gênero há muitos anos, desde a década de 60. A mulher atual é parecida com a mulher do passado?

Maria Amélia: Eu, como velha nessa luta pelas mulheres, posso atestar que há uma mudança enorme. Hoje há mais rebeldia na mulher e bem menos submissão, em qualquer área. Justamente por ser mais rebelde, a mulher atual consegue deixar mais nítida a desigualdade. É mais fácil constatar que a sociedade ainda é machista, o Estado ainda preserva os resquícios de um modelo patriarcal e a igreja ainda interfere nas decisões pessoais das mulheres, como se o universo feminino precisasse da tutela religiosa.

A cada duas horas uma mulher é assassinada no País e em 80% dos casos o assassino conhece a vítima

iG: Quais são os principais indicadores que mensuram a realidade desigual enfrentada pelas mulheres?

Maria Amélia: A violência é o principal termômetro. Não esperava chegar ao século 21 ainda escolhendo a violência como um marcador, mas esta é uma triste realidade perpetuada. As mulheres adquiriram direitos políticos e trabalhistas, mas há uma agressão permanente por parte do Estado e que ainda resiste no ambiente doméstico. Seja vítima de agressões caseiras ou sobrecarregada pela divisão desigual das tarefas dentro de casa, a mulher é violentada e paga um preço muito alto por ter lutado pela independência econômica. Ao lado da violência, colocaria como representante da desigualdade entre os gêneros a representação política, setor onde as mulheres continuam sub-representadas, seja nos partidos, nas comissões sindicais ou nas organizações de classe. Pela lei, há a cota de reservar 30% para filiação partidária de mulheres. Mas exigir 30% sem levar em consideração as circunstâncias oferecidas para viabilizar a participação política feminina é fazer desta cota um algarismo inócuo.

iG: Você citou a violência. Por que é necessário falar de violência contra a mulher? Não somos todos vulneráveis à violência, homens e mulheres?

Maria Amélia: Todos somos vulneráveis à violência, um mal geral a ser combatido porque acomete toda a humanidade. Pelos números, inclusive, os homens são mais vítimas de violência do que as mulheres. Porém são violências diferentes, motivadas por razões distintas. A cada duas horas uma mulher é assassinada no País e em 80% dos casos o assassino conhece a vítima. Enquanto o homem morre de forma violenta em espaço público, a violência que vitima a mulher é caseira, doméstica. No Brasil, ainda se morre pelo único fato de ser mulher.

Amelinha milita pelos direitos dos presos políticos e também pelas mulheres
Alexandre Carvalho/ Fotoarena
Amelinha milita pelos direitos dos presos políticos e também pelas mulheres

iG: Uma das razões associadas à violência contra a mulher é a relação de dependência econômica e social que a vítima tem com o homem. Neste contexto, você enxerga alguma mudança a longo prazo, já que a mulher foi escolhida como figura central dos programas de erradicação da pobreza? O crédito do Bolsa Família, por exemplo, é dado à mulher.

Teimosa, continuo querendo mudar o mundo. E sei que só vou conseguir se tiver as mulheres nessa militância

Maria Amélia: Primeiro é preciso se atentar ao fato de que 70% dos miseráveis são mulheres. A miséria ainda é muito feminina. Nenhuma política afirmativa, como o Bolsa Família, trará benefícios se for isolada e não vier com um trabalho árduo de mudança de mentalidade. Mas eu vejo com bons olhos este empoderamento da mulher na transferência de benefícios financeiros, sabendo que deve ser um benefício provisório e não permanente. Pode trazer a força para a mulher romper o ciclo de violência doméstica, mas sempre como um passo inicial, e não para a vida toda.

iG: Você foi presa política, lutou contra a ditadura e teve contato com uma série de causas que poderiam estar estampadas em sua bandeira. Por que escolheu as mulheres como foco?

Maria Amélia: Porque, quando eu tinha 18 anos, vi os militares e as instituições religiosas usarem as mulheres para sustentar o golpe de Estado e um governo ditatorial. Lembro exatamente do dia: 19 de março 1964, quando foi organizada uma marcha, com público quase todo de mulheres, em favor da tradição, da família e que tinha como pano de fundo a queda do Jango (a Marcha da Família com Deus protestava contra o governo do presidente João Goulart), pois era contra o comunismo. Percebi ali que se as mulheres não fossem incluídas na luta pela liberdade, a causa estaria incompleta. Envolver as mulheres era chamar atenção para uma série de questões, como o direito de mandar em seu corpo, ter prazer sexual ou participar da luta pela democracia. As mulheres sempre lutaram, mas a atuação feminina permanecia invisível. Era preciso que elas assumissem o protagonismo, não com o objetivo de ocupar o lugar do homem, mas exigindo o seu lugar como ser humano. Eu, teimosa, continuo querendo mudar o mundo. E sei que só vou mudar o mundo se tiver as mulheres nessa militância.

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