Fãs do Big Brother Brasil contrariam a ideia de que quem acompanha o programa é alienado ou burro, como pregam os detratores do reality show

Desde a segunda semana de janeiro, quando estreou na TV Globo a décima terceira edição do reality show “Big Brother Brasil”, se espalharam na internet mensagens que definem os espectadores do programa como pessoas alienadas ou burras. Entre tantos posts, um dos mais compartilhados nas redes sociais trazia a mensagem: “Um livro comete suicídio a cada vez que você assiste BBB” (veja mais imagens na galeria ao final da página) .

Fernanda, Yuri e Anamara: participantes do programa, assim como espectadores, são vistos como
João Cotta/TV Globo
Fernanda, Yuri e Anamara: participantes do programa, assim como espectadores, são vistos como "burros" e "alienados"

Mas será que os livros – e a inteligência representada por eles – são mesmo incompatíveis com um fã do programa? A carioca Juliana Bonfim, 27 anos, mostra que não. Professora de português, ela cursa mestrado em Literatura Portuguesa e gosta de ler, mas também adora ver o reality. “Não tem nada a ver uma coisa com a outra. Você pode ser culto e gostar do BBB. Eu posso ver um filme do Truffaut à tarde e à noite ver o BBB. Qual o problema?”, questiona Juliana, citando o prestigiado diretor de cinema francês.

Juliana diz que algumas pessoas que ela conhece ficam incomodadas com o fato de ela ser uma acadêmica e gostar de um programa tão popular. O publicitário Mario Mendes, 31, também passa pela mesma situação. “Tem gente que não se conforma que eu goste do BBB. O engraçado é que eles sempre vêm com o mesmo discurso: ‘mas você é tão inteligente, esclarecido’”, conta. “Duvido que as pessoas que reclamam no Facebook leiam tantos livros quanto mandam os outros lerem”, provoca ele.

Juliana, Madalena e Mario: julgamentos dos amigos e patrulha nas redes sociais
Montagem/Arquivo pessoal
Juliana, Madalena e Mario: julgamentos dos amigos e patrulha nas redes sociais

A advogada especialista em direito ambiental Madalena Costa, 31, vê as edições noturnas do reality como um momento de relaxamento. “É uma hora que eu reservo para me divertir, para esquecer as preocupações do dia a dia”, explica ela. “Leio livros e o jornal todos os dias. Mas com o BBB, eu não quero me informar e aprender, mas sim me distrair. Não é uma atividade intelectual, nem precisa ser”, completa Madalena.

Efeito manada

A psicóloga Luciana Ruffo, do Núcleo de Pesquisa da Psicologia em Informática da PUC-SP, entende que as reações negativas ao BBB são uma consequência natural de uma atração de muito sucesso e que mobiliza a atenção de muitas pessoas.

“Do mesmo jeito que tem muita gente que gosta do programa e comenta isso, tem gente que não gosta e reclama. A diferença é que com as redes sociais, essa insatisfação ficou mais fácil de ser manifestada”, analisa a especialista.

“No fundo, a internet é uma grande praça. E quando você começa a falar da vida alheia, como é o caso de quem fala dos participantes do BBB, muitas pessoas reagem. É como se elas dissessem com as críticas: ‘não fala sobre isso, que eu não quero saber’”, prossegue Luciana.

Especialista em mídia social e professora da pós-graduação em jornalismo da PUC-SP, Pollyana Ferrari diz que essa onda de críticas é um fenômeno típico da era das redes sociais na internet. “É o chamado efeito manada. Uma pessoa faz um comentário ou posta uma imagem que gera identificação em outras, causando uma rápida propagação da ideia”, assinala Pollyana. “Há um desejo de pertencer a um grupo que pensa da mesma maneira que você. Seja contra ou a favor de algo de algum acontecimento”.

Erros de português

Para Juliana, o reality não é uma atração tão alienante como muitas pessoas dizem. “Apesar desse nem ser objetivo do programa, o BBB colocou em discussão nacionalmente temas importantes como a homossexualidade e o erotismo, de uma maneira poucas vezes vista”, pondera a professora.

Mario acredita que muitas pessoas se sentem mais inteligentes quando criticam o BBB. “Pega superbem falar mal do BBB. Porque é vergonhoso publicamente gostar de um programa que é considerado baixaria, seja uma novela, um reality show ou um programa de auditório. Pagar de intelectual te garante muitos ‘likes’”, constata o publicitário, se referindo ao famoso botão ‘curtir’ do Facebook.

Madalena concorda com a ideia de que os detratores do reality querem mesmo parecer mais inteligentes. “Só que muitas vezes o tiro sai pela culatra. Porque eles escrevem as críticas na internet com um monte de erros de português e de concordância”, alfineta a advogada.


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