Boa vontade e iniciativa de pessoas comuns, nem sempre apoiadas por instituições, transformam o fim de ano de crianças que passam por situações difíceis

Luzes e decorações especiais pelas ruas, propagandas na TV e até diálogos nas novelas não deixam ninguém esquecer que o Natal se aproxima. Para a maioria, o clima cria a expectativa de uma data com aura mágica. Mas, para muitas crianças, traz apenas a lembrança de uma realidade não muito feliz. É por estas crianças que pessoas comuns, por meio de instituições ou por iniciativa própria, colocam seu lado Papai Noel em ação.

Joice fez um desenho para entregar para o Papai Noel do hospital Darcy Vargas, onde faz hemodiálise
Alexandre Carvalho / Fotoarena
Joice fez um desenho para entregar para o Papai Noel do hospital Darcy Vargas, onde faz hemodiálise


 Um dos casos nacionais mais notórios é a campanha “Papai Noel dos Correios”. Em sua 23ª edição, ela abrange as 28 regionais da instituição e recebe anualmente cerca de 4,4 milhões de cartas. Os remetentes são crianças que querem, em sua maioria, uma bicicleta, uma boneca ou material escolar, mas há quem arrisque alto e peça eletrônicos. A cada ano, quase 1,5 milhão dos desejos são atendidos por indivíduos que decidiram auxiliar o próximo. “Quem não ganha o presente recebe uma carta padrão, assinada pelo Papai Noel, dizendo que ela não deve desistir do seu sonho. Nenhuma criança fica sem resposta”, afirma Alexandre Casé, chefe do departamento de relações institucionais dos Correios.

Foi com cartinhas desse tipo que a campanha nasceu. Ao ver tantos envelopes endereçados ao Pólo Norte no segundo semestre, os funcionários dos Correios tiveram a ideia de escrever respostas. “Em pouco tempo, eles começaram a mandar presentes. Não demorou até virar uma ação institucional estendida à sociedade e ser o que é hoje, sempre com adesão significativa”, conta Casé.

Nessas mais de duas décadas, a “Papai Noel dos Correios” já teve muitas histórias curiosas e emocionantes. Casé cita uma especial: “Uma garota de São Paulo pediu um tratamento médico para o pai, um emprego para a mãe e, se possível, uma boneca para ela. Assim que a carta foi aberta, a regional paulistana conseguiu as parcerias da Santa Casa de Misericórdia e de uma empresa de recolocação profissional. Um funcionário providenciou a boneca.”

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O produtor cultural Jarmeson de Lima, 34, participou da campanha e foi o Papai Noel anônimo de duas crianças de Recife (PE) em 2010. “Fiquei dez minutos vendo as cartas, até que li uma sincera o suficiente para me comover. Era de uma menina de oito anos, de uma comunidade da periferia, que pedia uma bola de futebol para o irmão e um livro de colorir para ela”, lembra. Tocado, ele providenciou mais que isso. “Mandei bola, livro com caixa de lápis de cor, outros livros infantis, panetone e uma caixa de biscoitos e chocolate. Ainda escrevi um bilhete pedindo que ela continuasse a estudar e a sonhar com dias melhores. Eu me senti alegre por ajudar uma família que não conheço a ter um Natal com mais amor.”

Diego participou do projeto pedagógico e escreveu uma carta ao Papai Noel contando como foi seu último ano
Alexandre Carvalho / Fotoarena
Diego participou do projeto pedagógico e escreveu uma carta ao Papai Noel contando como foi seu último ano

Natal no hospital

Com a expectativa de receber mais de 300 cartinhas direcionadas ao bom velhinho, a equipe do hospital infantil Darcy Vargas, em São Paulo, trabalha a correspondência de forma diferente. “Não estimulamos que as crianças peçam um presente, e sim que compartilhem com o Papai Noel seus sonhos de vida e expectativas para o futuro. Muitas pedem algum brinquedo ou eletrônico, claro, mas esclarecemos que elas podem não ganhar exatamente o que desejam. Outras pedem saúde e dizem que querem passar o Natal em casa, com a família. O conteúdo das cartas é tocante”, afirma a terapeuta ocupacional e coordenadora do projeto Carolina Perracini. Ela explica que o projeto faz parte de uma iniciativa pedagógica onde as crianças praticam a escrita. O hospital depende de doações de empresas e pessoas para conseguir presentear as crianças no fim do ano.

O estudante Diego Cesário Teodoro de Oliveira, 16, não deixou de escrever sua carta com um balanço do seu último ano. Foi lá que ele encontrou espaço para pedir que seu transplante de rim se torne realidade no ano que vem. “Eu escrevi que quero poder fazer o transplante em breve. Contei tudo que aconteceu nos últimos tempos”, conta envergonhado. A mãe, Fátima Teodoro, lembra que o filho também pediu um computador, mas na ordem de importância o objeto não vem em primeiro lugar.

“Eu quero ganhar uma piscina. Não sei se vou ganhar, mas eu pedi. Também quero que o Papai Noel ore por mim para que eu possa melhorar”, lembra Joice do Amaral Pereira, 11, ansiosa para estar presente na visita que o bom velhinho deve fazer ao hospital. Esse trabalho também é feito por voluntários que se vestem de Papai Noel e passeiam pelos corredores do local.

O editor Pedro Nunes, 44, faz parte do time de pessoas que ajudam as crianças a ter um fim de ano mais alegre. “Precisamos saber lidar com as emoções para fazer esse trabalho. As crianças são carentes e isso mexe muito com a gente. Mas ver o sorriso delas, a alegria nos olhos não tem preço. Sou voluntário no Darcy Vargas há anos e pretendo continuar por muito mais tempo”, diz.

Rede de bondade em forma de sacolinhas

Um tipo de projeto que tem se popularizado e dado cada vez mais retorno é o das sacolinhas de Natal. Planejadas por pessoas que percebem a necessidade de crianças carentes de determinadas regiões, elas são compostas por roupas e brinquedos arrecadados junto a voluntários – amigos, familiares ou interessados que assumem, cada um, um conjunto inteiro.

No Centro Espírita Ana Vieira, em São Paulo, os kits são doados desde 1986. Ao longo dos meses, nas distribuições de cestas básicas, a assistência social do local detecta quais famílias não terão condições de presentear os filhos de até 12 anos no Natal e cadastra as características dos pequenos (tamanho da roupa, dos sapatos, brinquedo preferido). Quando as sacolinhas são confeccionadas, levam uma etiqueta com todos esses dados, para que os parceiros possam providenciar seus 14 itens.

Em 2012, serão 249 crianças atendidas. “Para elas, é a maior alegria do mundo ver todos aqueles presentes novinhos”, comenta Emirena Mafra de Oliveira, que trabalha no departamento de ensino do Centro. A diretora de assistência social, Zelinda de Oliveira Silva, completa: “A entrega é um ato para não deixar a criança desamparada justamente na época do Natal, já que a data carrega consigo toda essa carga de esperança.”

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