Em entrevista, psicólogo e neurocientista autor de “O Efeito Vencedor” mostra porque vencer torna as pessoas mais inteligentes

O sucesso tem muitos significados e é capaz de
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O sucesso tem muitos significados e é capaz de "moldar" o comportamento das pessoas

Sucesso e fracasso são conceitos relativos. Enquanto alguns desejam ter um bom emprego e uma situação financeira confortável, outros estabeleceram como limite o contato com a natureza e o espírito. Tendo como base a nossa sociedade ocidental, o neurocientista e psicólogo clínico Ian H. Robertson reuniu no livro “O Efeito Vencedor” (Editora Campus) os resultados de anos de pesquisa sobre o tema.

A proposta de Ian, que também é professor da Trinity College, na Irlanda, é usar a neurociência para explicar como o poder – ou a falta dele – pode influenciar as pessoas. Somos vencedores por que somos filhos de pais vencedores? O sucesso é uma característica de gênero, ou seja, homens têm mais predisposição para vencer? O poder é viciante? Ele fala sobre estes e outros temas em entrevista concedida ao Delas .

iG: Como vencer muda nosso cérebro? Da mesma forma, como o fracasso nos afeta?

Ian H. Robertson: Em uma competição, qualquer animal que ganhar uma luta contra um adversário fraco terá mais chance de vencer um oponente forte. Isso é conhecido em biologia como “o efeito vencedor”. Treinadores norte-americanos já sabem disso há muito tempo e, por esse motivo, organizam na fase preparatória partidas contra adversários mais fracos. Vencer desencadeia um aumento de testosterona que, por sua vez, aumenta a atividade do mensageiro químico dopamina no cérebro e pode tornar as pessoas mais inteligentes, mais ousadas, mais otimistas e menos ansiosas. Embora os aumentos de testosterona sejam temporários, “o efeito vencedor” pode ser duradouro.

iG: É verdade ou mito que os homens são mais propensos a ganhar poder? Tem algo a ver com hormônios ou química cerebral?

Ian H. Robertson: Os homens têm níveis mais elevados de testosterona. No entanto, homens e mulheres tendem a ter respostas razoavelmente semelhantes ao poder. Mas o desejo das mulheres de poder pode ser um pouco menos egocêntrico e menos corruptor do que no sexo oposto.

iG: Em seu livro, o senhor dá exemplos de filhos de pais bem-sucedidos, mas que não tiveram o mesmo destino. Por que isso acontece? O sucesso não é hereditário ou genético?

Ian H. Robertson: Pode ser muito difícil ter um pai bem-sucedido se ele deixa o sucesso subir à cabeça. Por outro lado, também é difícil que alguém com bastante sucesso não se ache especial e único. Homens muito poderosos e bem-sucedidos podem desenvolver delírios extremos [em um dos exemplos do livro, Ian Robertson cita a relação entre Pablo Picasso e o filho Paulo] . Não é um desafio entender o porquê qualquer filho ou filha de um homem muito poderoso sente que suas conquistas não são significantes.

Mas isso também não é determinante. Basta ver a trajetória de Lachlan Murdoch, filho do magnata da mídia Rupert Murdoch [dono dos canais Fox] , ou Hans Einstein, herdeiro de Albert Einstein, que se tornou um engenheiro hidráulico eminente.

Motivações externas e internas se misturam para compor o combustível do sucesso
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Motivações externas e internas se misturam para compor o combustível do sucesso


iG: Há sempre uma boa motivação por trás de um homem ou uma mulher bem-sucedida? Nesse caso, a motivação financeira é crucial?

Ian H. Robertson: É claro que estamos todos motivados por uma mistura de razões externas e internas. A externa mais usual é o dinheiro, mas trabalhar para a aprovação dos outros ou por medo também são motivos comuns. Bons gerentes sabem que manter seus funcionários motivados requer uma combinação das duas coisas. Mas os melhores descobriram como ligar a chave secreta da motivação intrínseca no cérebro de seus funcionários. Por isso, motivação para a realização é um ingrediente fundamental para o sucesso na vida, e parte da receita do que faz um vencedor.

Sabemos disso por causa de nosso conhecimento sobre como uma parte do cérebro, chamada de rede de recompensa, opera. O trabalho fundamental desta rede é fazer-nos sentir bem quando fazemos coisas que nos ajudarão a sobreviver – como comer, beber e fazer sexo. Já o combustível central desse sistema é um mensageiro químico chamado dopamina. Mas a maioria das pessoas são recompensadas por outras coisas também, como uma simples avaliação positiva de seu chefe no trabalho. Isso explica por que a maioria dos trabalhadores – de professores, agricultores e secretários a contadores, atores e eletricistas – estão em um caminho duplo, buscando recompensas extrínsecas e intrínsecas.

Dificuldades na infância podem ser um estímulo enorme para estar motivado a alcançar o sucesso. Por outro lado, um ambiente privilegiado pode sabotar algumas pessoas

iG: O meio ambiente é um fator importante para o sucesso ou fracasso, mas você pode superar barreiras como uma família disfuncional ou um país pobre? Em outras palavras, podemos alcançar o sucesso com a aprendizagem?

Ian H. Robertson: Sim, absolutamente. Na verdade, as dificuldades na infância podem ser um estímulo enorme para estar motivado a alcançar o sucesso. Por outro lado, um ambiente privilegiado pode sabotar algumas pessoas.

iG: Em nossa sociedade, é mais comum ver os aspectos negativos de fracasso. Mas o poder em excesso também tem seus efeitos maléficos. O poder é viciante? Quais são as consequências para o indivíduo que vê apenas o sucesso?

Ian H. Robertson: O sucesso tem muitos significados. Se sucesso significa sempre chegar em primeiro ou bater os outros, então isso vai ser psicologicamente difícil. Porque há sempre alguém em algum lugar que é melhor do que você, o que vai deixá-lo estressado, tentando atingir esse objetivo impossível.

Mas o sucesso como realização - criar e atender seus próprios objetivos pessoais - pode ser altamente benéfico e gratificante. O truque é definir metas que não são muito fáceis nem muito difíceis. O poder é viciante quando é irrestrito. Muito poder sem restrições pode causar mau julgamento, incapacidade de ver riscos e um aumento na ganância causada por estimulação excessiva da rede de recompensa do cérebro.

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