Roseli dos Santos Costa era Rose Peituda quando comandava o tráfico nos morros do Rio. Agora, se empenha para ser uma mãe de respeito

De filha trombadinha a mãe traficante. No hiato entre uma função e outra, Roseli dos Santos Costa, 44 anos, assumiu a chefia da facção Comando Vermelho, organizou a venda de crack, maconha e cocaína no Rio de Janeiro, conquistou a admiração de bandidos do mais alto calibre e se tornou uma das criminosas mais procuradas do estado.

Roseli dos Santos Costa, ex-traficante: “sempre liderei para o mal. Agora quero liderar para o bem’, diz ela durante o expediente, o primeiro com carteira assinada
Marlon Falcão/ Fotoarena
Roseli dos Santos Costa, ex-traficante: “sempre liderei para o mal. Agora quero liderar para o bem’, diz ela durante o expediente, o primeiro com carteira assinada

No mundo do tráfico, o batismo foi Rose Peituda – em referência à ousadia no crime, não aos decotes ousados. Mas essa figura foi aposentada, diz a própria em entrevista ao Delas . Tudo para que, agora, Roseli possa assumir a missão que considera a mais difícil da vida: conquistar o respeito dos quatro filhos, todos criados por terceiros, enquanto ela segurava o fuzil e mandava na boca de fumo.

Papéis

Roseli tinha 11 anos quando decidiu roubar uma loja de doces e levá-los aos cinco irmãos mais novos. Virou trombadinha. Aos 22 anos, assaltou um banco sem revólver, na “mãozona”, segundo a gíria do crime, para entrar pela porta da frente no bando que mandava em Vigário Geral, comunidade onde nasceu, na zona norte da capital. Assim, virou Rose Peituda.

Ela profissionalizou o tráfico e tornou as investigações difíceis. Fiquei surpreso com a fidelidade dos bandidos a ela

Quinze anos depois, chegou ao cargo máximo do tráfico e na liderança de morros cariocas, posto de trabalho oferecido pelo Comando Vermelho. Então, virou alvo de investigações.

“Rose Peituda tinha um papel interessante. Mulher é mais organizada, mas pode ser tão cruel como homem”, lembra o promotor da 30ª Vara Criminal do Rio de Janeiro, Sauvei Lai, que investigou a quadrilha de Rose. “Ela profissionalizou o tráfico e tornou as investigações difíceis. Fiquei surpreso com a fidelidade dos bandidos a ela”.

A blindagem não impediu que no dia 11 de setembro de 2007 Rose fosse presa, junto a outras 10 pessoas, em uma operação que envolveu o Bope, a tropa de elite do Rio. Ela estava em Volta Redonda, município próximo à capital fluminense, quando as mãos com unhas bem-feitas, segurando uma bolsa Louis Vuitton, foram algemadas. O rosto de Rose foi estampado nos jornais.

Conduzida ao presídio feminino, deixou para trás os quatro filhos, de três pais diferentes. Antes disso, as crianças já sofriam com a ausência da mãe. “Por temer pela segurança deles, eu só os via por 10 minutos, uma vez por semana. Achava que ser mãe era dar dinheiro, comida, roupa, luxo. Falhei com o principal. Não dei presença nem carinho.”

Chorava escondido

Não era a primeira vez que Rose ia presa. Nos anos 1990, um dos assaltos a banco rendeu sete anos de cadeia. Os 2.555 dias que ficou detida serviram “só para cultivar raiva e mágoa”, diz. Escondida das outras presas, “porque naquela época não podia mostrar fraqueza”, Rose Peituda também chorava.

“Eu tinha um vazio interno. Cresci jogada. Minha mãe bebia muito, meu pai sumiu. Passei tantos anos culpando minha mãe pelo meu destino que não enxergava que estava sendo ausente como ela. O poder que o crime me dava vendava meus olhos.”

Um dia Rose conseguiu autorização para sair da cadeia e voltar à noite. Nunca mais retornou. Na fuga, encontrou o barraco onde morava “sem um grão de arroz”. Foi recebida com uma frase da mãe embriagada: “não quero bandida aposentada aqui”.

A mensagem entendida por Rose foi de que precisava voltar à criminalidade. Surgiu então o convite para organizar o tráfico. Anos depois, a operação policial e as escutas telefônicas a conduziram para o mesmo presídio onde cumpriu pena da primeira vez.

Traficantes, mulheres e mães

Em 2007, porém, tudo parecida diferente. O número de mulheres envolvidas com venda de drogas havia crescido de forma avassaladora. Levantamento do Delas feito no banco do Ministério da Justiça mostra que, no Brasil, as prisões femininas por tráfico cresceram 114%, passando de 7.884 casos em 2008 para os atuais 16.911.

A maior parte é detida não no posto de chefia, como era o caso de Rose, mas por causa do envolvimento com maridos traficantes, como exemplifica Daniela Pereira da Silva, 35 anos. Companheira de cela da ex-chefe do tráfico, Daniela era filha de militar e estudante de colégio particular. Apaixonou-se por um traficante líder de facção rival à de Rose. “Tive o telefone grampeado, acabei cúmplice, fui presa. História de 70% das mulheres da prisão”, conta Daniela.

Apesar das diferenças de postos e de status, tanto Daniela quanto Rose sofriam juntas a ausência dos filhos. Juntas também discutiam o que fariam caso ganhassem a liberdade.

Rose não queria mais ser Peituda. Estava com aquele mesmo vazio que sentia na infância. “Eu nunca fui orgulho para a minha mãe. E não era orgulho para os meus filhos. O mais velho estava com 26 anos. A do meio cursava pedagogia”, diz. “Conquistar o respeito dos filhos é mais difícil do que o do tráfico”.

Fuzil e dobradinha

A ideia de mudança foi plantada em Rose pelo Afroreggae, instituição não-governamental que busca garimpar talentos na criminalidade e revertê-los para os caminhos do bem.

Chinaider Pinheiro – que já foi o número 2 do Comando Vermelho e se reintegrou com o apoio do Afroreggae – passou a visitar a ex-colega de tráfico toda semana. “Rose sempre foi minha amiga. Sabia do potencial que podia ser aproveitado”, afirma Pinheiro.

No dia 28 de maio de 2012, Rose conquistou a possibilidade de sair para trabalhar e voltar para dormir no presídio todo dia, benefício que pode reduzir a pena em regime fechado. Hoje atua no Afroreggae, acolhendo ex-presidiários que buscam profissão. Divide a sala com Daniela, ex-companheira de cela, e Chinaider, seu “padrinho do bem”.

Ainda faltam passos na trajetória de Roseli de chefe do tráfico a mãe de respeito. Ela precisa vencer a desconfiança da sociedade, mas conta com o apoio dos quatro filhos. Se para ser a bandida Peituda ela usava o fuzil, para o papel de mãe presente ela quer usar o fogão. “Meu maior sonho é reunir a família e fazer dobradinha, minha especialidade”, diz. “Minha mãe morreu há quatro anos. Mas, se visse a cena, acho que teria o maior orgulho.”


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