Mitos e verdades de “Sessão de Terapia”

Nova série brasileira traz a psicanálise para dentro da casa dos telespectadores. Mas o que o programa tem de real e de fantasia?

Danielle Nordi - iG São Paulo |

Um terapeuta, cinco pacientes e uma supervisora. Essa é a proposta da nova série “Sessão de Terapia”, do canal a cabo GNT. Considerada um frescor nas fórmulas já usadas e esgotadas pela televisão brasileira, essa adaptação da série israelense “BeTipul” - que também ganhou uma versão americana de muito sucesso -, “Sessão de Terapia” inova no formato e no conteúdo.

Elenco da nova série do canal a cabo GNT, 'Sessão de Terapia'. Foto: Divulgação/GNTSelton Mello dirige ‘Sessão de Terapia’, que é uma adaptação da série israelense ‘BeTipul’. Foto: Alexandre CampbellO programa dura 30 minutos, sem intervalo comercial, e mostra o desenrolar de sessões de psicanálise. Foto: Divulgação/GNTNova série brasileira traz a psicanálise para dentro da casa dos telespectadores. Foto: Adalberto PygmeuZécarlos Machado interpreta o terapeuta Theo que recebe um paciente por dia da semana. Foto: Adalberto PygmeuO terapeuta é casado com Clarice e tem um lado agressivo e impulsivo. Foto: Jorge BispoMaria Luísa Mendonça é Clarice, mulher do Theo. Depois de anos, o relacionamento deles entra em crise. Foto: Jorge BispoNa segunda-feira é o dia de Júlia Rebelo (Maria Fernanda Cândido), uma anestesista de 35 anos. . Foto: Adalberto PygmeuPersistente e provocativa, Júlia se diz apaixonada pelo terapeuta. Foto: Jorge BispoSergio Guizé é um atirador de elite que mata uma criança acidentalmente. Ele visita o consultório de Theo às terças-feiras. Foto: Adalberto PygmeuBreno Dantas, personagem de Sergio, vê novos sentimentos emergirem depois que inicia suas sessões com Theo. Foto: Jorge BispoQuarta-feira é o dia de Nina (Bianca Muller), uma ginasta de 15 anos. Foto: Adalberto PygmeuNina começa o tratamento depois de um estranho acidente que quase a matou. Foto: Jorge BispoNa quinta-feira é a vez do casal Ana e João, interpretado por Mariana Lima e André Frateschi. Foto: Adalberto PygmeuEles procuram Theo porque não conseguem decidir se fazem ou não um aborto. João é contra. Foto: Jorge BispoDora (Selma Egrei) é orientadora de Theo e a sessão de terapia dos dois acontece às sextas-feiras. Foto: Adalberto PygmeuAs sessões de Theo com Dora são sempre muito intensas. Foto: Jorge Bispo

Durante 30 minutos, sem intervalo comercial, o telespectador acompanha uma sessão de psicanálise entre o terapeuta Theo, interpretado pelo ator Zécarlos Machado, e seus cinco pacientes. Isso mesmo, nada de muitos atores em cena ou cenários diversificados. A série, dirigida por Selton Mello, foca toda sua atenção nos meandros de uma sessão de psicanálise e o drama humano de cada paciente e, porque não, do terapeuta. Mas a pergunta que fica no ar para quem nunca teve contato com um psicanalista é: o que a série tem de real e o que tem de fantasia?

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“Em razão de ser um trabalho ficcional, é evidente que a série privilegia casos clínicos bastante caricaturais, difíceis, bizarros até. No entanto, ainda que não representem a maioria da população atendida em psicoterapia, aqueles pacientes se aproximam, sim, de casos reais”, afirma o psicanalista Alberto Pereira Lima Filho.

O psicanalista Jacob Pinheiro Goldberg ressalta que apesar de trazer elementos do dia a dia de um consultório de psicanálise, é preciso entender que cada profissional conduz a terapia de uma forma. “A psicanálise é um processo de trabalho relacionado com a mente e com o comportamento humano. Depende de escolas adotadas e cada profissional pode ter um estilo individual. Eu considero que qualquer fórmula pode ser mal interpretada.”

“Apesar de ser um bom seriado, existe um pragmatismo americano que, em minha opinião, não é convincente aqui no Brasil. O americano tem uma certa ingenuidade que a nossa malícia não permite. Se mostrássemos esse nível de superficialidade no consultório, o paciente iria embora”, completa Jacob.

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Adalberto Pygmeu
Zécarlos Machado interpreta o terapeuta Theo na nova série "Sessão de Terapia"

Os pacientes

O seriado é dividido de forma similar a uma agenda de consultório. Cada dia da semana pertence a um paciente. De segunda-feira até quinta-feira eles podem compartilhar seus problemas, medos e aflições com o terapeuta. Na sexta-feira é a vez de Theo conversar com sua orientadora. Todos os pacientes se abrem de forma intensa e desafiadora.

A sinceridade dos pacientes de “Sessão de Terapia” é facilmente observada na vida real, segundo psicanalistas. “De modo geral, os pacientes são os principais interessados em serem ajudados, ouvidos, compreendidos. É de seu interesse ser sincero. Certamente há resistências aqui e ali, mas o manejo técnico da psicoterapia tem plenas condições de dissolvê-las”, afirma Alberto Pereira Lima Filho.

“Na medida em que o paciente percebe que tem na frente dele alguém sem interesses específicos, normalmente se sente muito livre e feliz de poder falar o que anda incomodando. Com um amigo, por exemplo, existe uma expectativa social do que pode ou não falar. É importante que uma vez na vida uma pessoa não tenha expectativa fechada sobre você e não tente te enquadrar em ‘certo’ ou ‘errado’”, afirma o psicanalista Jorge Forbes.

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O terapeuta

O envolvimento do terapeuta no problema de seus pacientes é um dos destaques da série. Theo chega a demonstrar falta de empatia com os dramas que aparecem em seu consultório e também certa dose de impaciência em algumas situações.

“Existe uma ideia que o terapeuta é uma pessoa absolutamente harmônica, o padrão da normalidade. Mas a realidade está longe disso. Normalmente terapeutas são pessoas que já fizeram muita terapia e têm muitas questões a resolver. A diferença é que o profissional não foge desse conflito”, relata Jorge.

Um dos episódios mais dramáticos da série foi quando Theo, diante de um casal que não consegue entrar acordo sobre fazer ou não um aborto, afirma que eles deveriam seguir adiante com a ideia já que não teriam condições de ter um filho naquela situação.

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Tal rompante do terapeuta pode ter parecido estranho, até mesmo leviano, para alguns, mas o posicionamento do profissional diante da indecisão de seus pacientes pode ser necessário em alguns casos. “Tomar uma posição pode ser uma forma de suspender a oscilação improdutiva e contribuir para o enriquecimento do processo decisório do paciente”, afirma o psicanalista e professor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP) Christian Dunker.

“Existe uma frase de Jacques Lacan que diz: o psicanalista dirige o tratamento, sem dirigir o paciente. Essa cena do aborto pode realmente ter sido uma direção no tratamento. Várias vezes o analista fala algo que parece atingir o paciente, mas na verdade é imprescindível tirá-lo daquela posição de indecisão. Não significa, porém, que o paciente deva seguir aquela determinada orientação”, explica Jorge Forbes.

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