No Dia de Finados, conheça os costumes de uma cultura que trata seus mortos com menos formalidade e mais alegria

Assim como o Brasil, o México também homenageia seus mortos neste dia 2 de novembro. Mas a maneira da fazer essa reverência é bem diferente. Lá não se repete o tom sóbrio, para não dizer melancólico, que a data tem por aqui. Os mexicanos celebram os seus mortos com caveiras risonhas, piqueniques em cemitérios e muita comida.

“Para nós, a morte é sorridente e relaxada”. É com essas palavras que a cozinheira mexicana Lourdes Hernández-Fuentes define a relação dos seus conterrâneos com o último adeus. No Brasil desde 2001, quando chegou para acompanhar o marido que havia sido nomeado adido cultural do México em São Paulo, Lourdes nunca abandonou o hábito de celebrar os mortos queridos por ela.

O altar criado por Lourdes para a celebração do Dia dos Mortos deste ano
Arquivo pessoal
O altar criado por Lourdes para a celebração do Dia dos Mortos deste ano

Em sua casa, no zona oeste paulistana, ela reservou um cantinho especial para a celebração deste ano. Na decoração do local, se sobressaem um simpático casal de noivos caveiras, dois caixões estilizados e flores variadas. Além disso, há fotos dos falecidos da família e a imagem de uma figura bem conhecida dos brasileiros: a do escritor Jorge Amado. Lembrar pessoas queridas que se foram, sejam elas famosas ou amigos e familiares, também faz parte da tradição mexicana.

“É como se os mortos nos visitassem neste dia. Por isso preparamos as comidas que eles gostavam e deixamos a casa enfeitada”, explica Lourdes. “Crescemos com a figura da morte muito próxima de nós. As crianças participam ativamente da celebração”.

Lourdes cita uma imagem entre as tantas que guarda na lembrança: a trilha de velas acesas ligando os cemitérios às casas das famílias. “É um caminho iluminado que leva o morto de volta para casa”, conta.

Integração

Autora do trabalho acadêmico “Festas e ritualidades: O Dia dos Mortos no México”, Maria Teresa Toríbio Brittes Lemos, professora de História das Américas da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, vê a tradição como um ritual de integração social.

“Trata-se de uma identidade baseada no transcendental, que ultrapassa os limites da vida e atinge os níveis simbólicos da morte”, analisa a historiadora, dizendo que a celebração mexicana funciona como uma ‘confraternização’ entre mortos e vivos.

Muito mais do que as casas, os cemitérios funcionam como grande palco para essa celebração dos que já deixaram a vida terrena. “As pessoas passam o dia por lá, limpam e enfeitam os túmulos com flores, fazem piqueniques e cantam músicas para os mortos. Os mais ricos contratam bandas de mariachis para tocar para todos”, relata Lourdes, fazendo referência aos músicos que tocam canções típicas mexicanas.

Caráter sagrado

Por aqui, o Dia de Finados tem um clima de mais sobriedade. Mestre em Ciências da Religião pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Maria das Graças Ferreira de Araújo explica que no Brasil a data tem um caráter mais sagrado, com maior distanciamento entre vivos e mortos. “Cada visitante, sozinho ou em família, está ali para prestar culto ao seu ente falecido, considerado agora um ‘pequeno santo’, por estar próximo de Deus e de nós”, define Maria, autora do trabalho acadêmico “Pequenas Romarias Para Pequenos Santos”.

Lourdes conta que os brasileiros que visitam sua casa ficam encantados com o jeito do México de homenagear os mortos. “Eles ficam curiosos e perguntam sobre cada item da celebração, querendo saber das coisas que não conhecem”, conta a cozinheira. Do fim de outubro ao início de novembro, a mexicana costuma receber muitas pessoas interessadas em participar do Dia dos Mortos. Infelizmente, só convidados podem entrar.

Conheça mais detalhes da do Dia dos Mortos no México

  • A celebração começa em 28 de outubro (Dia de São Judas), continua no Dia de Todos Os Santos (1 de novembro) e termina no dia seguinte, o Dia dos Mortos propriamente dito.


Antes da colonização do México pelos espanhóis, no século XVI, a celebração dos mortos já acontecia em terras mexicanas.

  • Uma das figuras mais tradicionais do festejo é La Catrina, um esqueleto vestido com roupas coloridas e que representa uma dama da alta sociedade. A mensagem em torno da figura de La Catrina é que as diferenças sociais perdem todo o sentido depois da morte.


  • Em forma de crânios ou ossos, o pão doce ‘pan de muerto’ é uma das iguarias mais típicas das homenagens.


  • As margaridas são as flores preferidas para enfeitar os túmulos. Os mexicanos acreditam que elas atraem e guiam os mortos até suas antigas casas.


Leia também
- Fé em vida após a morte ajuda a superar tragédia
- Seis respostas: como falar de morte com as crianças