Angela Dip estrela espetáculo de humor exclusivo para o público feminino em São Paulo e fala ao Delas sobre inspiração e preconceito. Assista

Para assistir ao espetáculo “Angela Dip: Só Para Mulheres”, precisei entrar escondido no teatro depois que as luzes já haviam se apagado. Minha poltrona era ao lado do técnico de luz, lá no fundão. Mas isso não foi nada. Difícil mesmo foi segurar a gargalhada para que o público, exclusivamente feminino, não percebesse que havia um homem no auditório.

Angela Dip em cena no
Cristina Gallo/Fotoarena
Angela Dip em cena no "Só para Mulheres": texto leve, mesmo na hora dos palavrões mais escabrosos

A ideia de um espetáculo só para mulheres (veja vídeo abaixo) surgiu quando Angela fez um evento direcionado exclusivamente para o público feminino e percebeu que, sem a companhia masculina, elas se soltavam mais. “Quando os homens não estão por perto, a reação era mais intensa, mais espontânea. Eu adoro sair apenas com minhas amigas. Se tem homem no meio estraga o papo”, diz.

A versão feminina para ‘homem ver’

Segundo Angela, mulheres sempre se modificam na presença de homens. Como boa comediante, ela transforma isso em conteúdo logo de cara:

“Que gente chique! Que público elegante! Mas não tem homem aqui, vocês podiam ter vindo de pantufa!”


Angela parte do princípio que, se homens e mulheres são muito diferentes – “graças a Deus!” – o humor deles também é diferente.

Em alguns trechos da peça, no entanto, os homens achariam tanta graça quanto as mulheres:

“Mulher é muito diferente de homem, faz várias coisas ao mesmo tempo. Consegue dirigir, falar no telefone e passar rímel ao mesmo tempo. E ainda bater o carro!”

Já em outros trechos da peça, a resposta da plateia foi a certeza de que ela estava indo direto ao ponto:

“Que mulher nunca precisou entrar em casa escondida pela entrada de serviço, cheia de sacola, para o marido não ver?”

Pela reação do auditório, cem por cento delas já passou por isso . Para mim, o homem da plateia, foi uma surpresa.

Hormônios e neurônios

Angela tem prazer em colecionar histórias engraçadas e sempre carrega um caderninho onde anota frases e conclusões.

“Adoro ler pesquisas que expliquem ou justifiquem atitudes humanas. Situações que vivo ou observo, assim como frases que ouço nas ruas, podem virar piada. Pensamentos e ideias absurdas que tenho, enfim, tudo acaba sendo material bruto que depois é transformado em texto. Ficção e realidade, hormônios e neurônios, tudo junto misturado”, diz.

Antes de ficar sozinha no palco, a gaúcha que chegou a São Paulo nos anos 80 fez de tudo como atriz: teatro alternativo, teatro convencional, infantil televisivo, cinema. Até como garçonete performática ela trabalhou. Quando ainda não existia ainda no Brasil o formato “stand-up comedy”, consagrado nos Estados Unidos e sucesso hoje em dia, Angela criava espetáculos alternativos e já era boa de improviso.

Atriz já fez de novela a infantil, passando por improviso e teatro alternativo
Heloisa Bortz
Atriz já fez de novela a infantil, passando por improviso e teatro alternativo

Recentemente, a atriz fez uma participação na novela “Avenida Brasil” no papel de uma delegada. Ela conta que o lado ruim era a idade da personagem, mais de 50 anos. Mas nem com este tema, tabu entre as mulheres, Angela perde o rebolado: o lado bom foi ver Emiliano Dávila, ator que interpreta Lúcio, saindo do mar de sunga.

Com tantos anos de estrada, Angela continua multimídia. Além do solo em “Só para Mulheres”, faz parte do elenco da peça “Chá com Limão” que estreou recentemente. E volta e meia coloca suas ideias sobre o dia a dia das mulheres em artigos para revistas femininas.

Entre os humoristas em atuação no momento, Angela é generosa e sem preconceitos. Seu ponto de vista nunca é vingativo, rancoroso ou agressivo. Ela acha que o humor não deve ter limites, mas prefere não constranger os outros. Seu texto é leve, mesmo quando fala absurdos e os palavrões mais escabrosos.

O foco no público feminino e o despojamento de se apresentar sem personagem, sem cenário, apenas com um banquinho, está dando certo. A temporada de “Angela Dip Só Para Mulheres” foi prorrogada até 26 de setembro.

Quando terminou a apresentação e as luzes se acenderam, me abaixei rapidamente tentando não ser percebido. Providência desnecessária: as mulheres da última fileira estavam muito ocupadas repetindo as melhores falas do espetáculo para notar minha presença.

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