As histórias de quem envelhece sem medo de percorrer trilhas e caminhos nada convencionais

Dorotea Andrade de Queiroz trabalhou a vida toda como enfermeira, até se aposentar, aos 70 anos: “Pensei: quer saber de uma coisa? Vou cuidar da minha vida, vou me preparar e vou cair no mundo.” O sonho dela, que antes só tinha viajado em excursões para destinos mais turísticos, era percorrer o caminho de Santiago de Compostela. “E sonho a gente tem que realizar. Fiz fisioterapia nos joelhos por dois anos, tomei medicação e o médico me liberou.”

O Caminho das Missões é o preferido de Dorotea Queiroz, 84 anos
José Mario Caruso Alcocer
O Caminho das Missões é o preferido de Dorotea Queiroz, 84 anos

“Primeiro, eu fiz o Caminho do Sol, que é um preparatório para Santiago de Compostela. Tem muito sol, de verdade, muitas subidas e descidas. São 280 km que você faz em 11 dias”, diz Dorotea. A despeito dos comentários de gente que achou que o desafio era maior do que sua capacidade, ela conseguiu e adorou. “Quando completei 82 anos fiz de novo. Alguns caminhos já fiz até 3 vezes”, diz a peregrina, que tem no currículo todos os roteiros  brasileiros desse tipo, alguns de até 500 quilômetros. “Carrego minha mochilinha que pesa uns 8 quilos, porque não abro mão dos meus cremes, sabe?”, diz ela, que gosta de andar em silêncio e sem nunca olhar para trás.

Solteira por opção, Dorotea está prestes a completar 84 anos e não pensa em parar. “Eu me sinto muito bem. Gosto tanto dos momentos de solidão quanto das caminhadas em grupo.”

Um dos grandes prazeres de Dorotea são as amizades feitas nas viagens. “Quando o grupo tem a mesma meta, as mesmas idéias, a gente se completa. Caminhar por caminhar, só para sentir um cansaço físico, não sei, não...” Dorô, como é conhecida entre grupos de peregrinos, conseguiu completar o caminho de Santiago de Compostela, na Europa, e muitas travessias por serras e alguns dos picos mais altos do Brasil. O preferido é o Caminho das Missões , no Rio Grande do Sul. “Conversamos com os índios guarani, dá para sentir o amor que eles têm pela Terra. Gostaria de fazer de novo, me emociona”

Recentemente recuperada de uma cirurgia no joelho e de um edema pulmonar, já pensa nos próximos destinos. “Fiz terapia, operei o joelho ano passado, comecei tudo de novo e vou voltar. Eu não estava conseguindo subir e descer escada, andava de cajado. Pelo menos impõe respeito”, diverte-se Dorô.

E por que passar o dia caminhando, do nascer ao por do sol, às vezes por trechos diários de mais de 30 quilômetros, em vez de relaxar no conforto de um hotelzinho charmoso? “Traz muita reflexão. O que a gente leva dessa vida? Eu fui me libertando aos poucos, me desapegando. Aprendi a viver na natureza, ser solidária, amiga, a trocar energia com as pessoas”, acredita Dorotea, que diz ter formado uma segunda família com os amigos de viagem.

São Jorge e os dragões
A peregrina Dorotea não é um caso isolado. Com a melhora da qualidade de vida na terceira idade, o mercado de agências de turismo tem dado cada vez mais atenção para esse público, incluindo roteiros menos tradicionais, ligados à natureza e com destinos de aventura. A operadora Venturas & Aventuras , especializada em ecoturismo e turismo de aventura, tem um projeto voltado à terceira idade, o “Velhinho é a Mãe”, com várias alternativas de roteiros para viajantes de diferentes perfis, do Morro de São Paulo, na Bahia, à Patagônia. É claro, são feitas adaptações para tornar a viagem prazerosa para todos. Os requisitos básicos são estar com o check up médico em dia e ter condições de caminhar.

“Tomamos alguns cuidados, como escolher o vôo com o menor numero de conexões e hotéis com deslocamento fácil pela cidade”, diz Jota Marinsek, sócio da empresa. “Escolhemos passeios que não exijam tanto fisicamente das pessoas. Passeios de balão na Capadócia ou de trem no Guayaquil, no Equador, têm espírito de aventura e são acessíveis para praticamente todos.”

E às “velhinhas” não falta bom-humor. Num passeio à Capadócia, na Turquia, um grupo entrou no bar em pleno 23 de abril, dia de São Jorge. O público, na faixa dos 20 anos, silenciou com a chegada de dez senhorinhas de 65 a 82 anos. Uma delas diz ao guia “Eles devem estar pensando que São Jorge soltou os dragões”.

Maria Glória Marasco, 81 anos, já lotou um passaporte com destinos de ecoturismo e aventura
Arquivo pessoal
Maria Glória Marasco, 81 anos, já lotou um passaporte com destinos de ecoturismo e aventura

Maria Glória Marasco, 81 anos, já lotou um passaporte com carimbos de viagens para destinos de aventura. A primeira foi a Macchu Picchu, em 1997, aos 66 anos. A última foi Cuba, de onde voltou duas semanas. Foi até Ushuaia, a “Cidade no Fim do Mundo", na Patagônia Argentina e já posou para fotos com tartarugas centenárias em Gálapagos.

Voou de balão na Capadócia, na Turquia, na mesma viagem em que conheceu Istambul e o lugar onde Nossa Senhora teria vivido na infância. Numa viagem para a Índia sobrevoou o Everest e ainda conheceu Dubai na volta, onde o grupo parou para pernoitar e descansar um pouco. O próximo destino é um safári na África do Sul, em agosto. “É fácil, porque a agência cuida de tudo. Não precisa nem se preocupar com a passagem, com nada”, diz Glória.

Glória começou a viajar quando o marido se aposentou. Pensou em parar quando ficou viúva, mas o filho dela não deixou. “Ainda bem. Hoje, na volta de cada viagem, a gente junta o grupo e vê as fotos juntos no telão”, conta a ex-costureira. “Ficou um grupo muito legal. Entra amigo de amigo, é muito divertido. Já criou e casou os filhos, vai fazer o quê? Vai viajar! Se sobrou dinheiro nessa fase da vida, melhor gastar, porque caixão não tem gaveta. Enquanto tem saúde, as pernas andam, tem que aproveitar. Graças a Deus estou tendo uma terceira idade muito boa!”

Do copo à montanha
Há espaço também para aventureiros independentes. Embora não esteja ainda oficialmente na terceira idade, a servidora pública Beatriz Azevedo, 59 anos, pretende passar os próximos anos no mesmo pique de viagens dos últimos 9 anos. “Até os 50, eu era boêmia. Só praticava levantamento de copo com namorado roqueiro”, brinca. “Mas me sentia frustrada. Sabe quando dá uma ressaca? Comecei a ficar enjoada, achar minha vida vazia.” O primeiro esporte escolhido foram as caminhadas. Logo na sequência, veio o canionismo (descida por rapel por cachoeiras), para superar a fobia de altura.

Beatriz Azevedo, 59 anos, começou a praticar canionismo para superar o medo de altura e se apaixonou pela aventura
Arquivo pessoal
Beatriz Azevedo, 59 anos, começou a praticar canionismo para superar o medo de altura e se apaixonou pela aventura

Em 2007, Beatriz diversificou a lista de esportes de aventura: passou a praticar montanhismo. “Para valer, comecei alta montanha em 2007 - montanhas a partir de 5 mil metros”, conta. De um ano para cá, pedal e escalada. 

Beatriz, ex-fumante, já fez o Pequeno Alpamayo, na Cordilheira dos Andes, e montanhas do Himalaia, no Nepal e no Paquistão, que batem facilmente os 8 mil metros. “Nem tudo que eu planejo eu consigo fazer, como aconteceu no Pequeno Alpamayo na Bolívia, por cansaço e falta de preparo físico e psicológico. No Nepal, além desses problemas, eu tinha largado o cigarro há pouco tempo e senti a altitude, não cheguei ao cume.” Mas as montanhas de 8 mil metros, Eldorado de todo montanhista, estão nos horizontes dela.

    Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave
    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.