Óculos coloridos, fones enormes e toalhinhas para o suor. O que não aparece em “Avenida Brasil” da Globo está em Madureira, no Rio

Nem só de samba vive Madureira: o baile charme agita o local há 22 anos
George Magaraia
Nem só de samba vive Madureira: o baile charme agita o local há 22 anos

“Qual a diferença/ Entre o charme e o funk?/ Um anda bonito / O outro elegante”. O antigo rap carioca já mostrava, nas rimas, esta diferença entre dois subgêneros da black music. Elegância, entendida aqui como estilo, tem tudo a ver com o baile charme. Calças largas, tênis confortáveis e coloridos, penteado afro e acessórios como fones de ouvido, pequenas toalhas e óculos falsificados. O perfil dos charmeiros, como são chamados os frequentadores, é bem típico. Por charme, aliás, entenda-se a mistura de hip hop, rap e soul. E que fique claro: em nada se assemelha aos bailes funks dos morros.

A turma do “passinho”, que risca a pista sob o viaduto Negrão de Lima, no centro comercial de Madureira, bairro da zona norte do Rio, sabe bem o que é ter “charme de baile”. “Foram seis horas para fazer só o cabelo”, avisa a cabeleireira Monique dos Santos, com dreads coloridos. Ao lado de quatro amigas, Monique frequenta o evento onde, no mesmo ponto, há 22 anos, há uma das maiores concentrações de fãs do charme no País. O baile começa às 22h e só termina às 5h da manhã.

Com a novela “ Avenida Brasil ”, da TV Globo, os holofotes voltam a mirar a festa que acontece embaixo do viaduto vizinho ao terreno que abriga torres de transmissão de energia e ao novo traçado viário da via expressa Transcarioca (que ligará a Barra da Tijuca a Deodoro). A novela começa a aguçar o interesse de quem nunca pisou no baile de Madureira. “No próximo mês temos duas caravanas marcadas para vir, uma de São Paulo e outra de Brasília. Os turistas estão descobrindo o charme do subúrbio”, festeja Michell Jacob, organizador do evento.  

Ninguém dança Kuduro ou Claudinho e Buchecha no baile, só na novela”

Os organizadores comemoram a inexistência de brigas. Não há qualquer registro de furto ou confusão no local nos últimos anos. E mesmo com a cerveja a preços módicos, não se vê bêbados, nem ao término da noite. No Baile Charme de Madureira também não se percebe o cheiro de cigarrinhos proibidos que sobe das rodinhas de público, tão comum em eventos de música.

Mas, mais uma vez, é preciso clareza. Quem quiser conhecer o baile deve esquecer as cenas de estúdio da novela e ir preparado para enfrentar a realidade. O lugar não tem lixeiras, o calor é insuportável, não há estacionamento e como comida no interior do baile há apenas frango frito.

A toalhinha é item essencial para espantar o calor do local
George Magaraia
A toalhinha é item essencial para espantar o calor do local

“Cheios de charme”

O perfil dos charmeiros é majoritariamente de negros, homens e mulheres em igual número, de 18 a 35 anos. A turma vai muito bem vestida. A pouca ventilação do local não é problema. “Calor? Tenho a toalhinha para resolver isso”, diz uma das frequentadoras, de óculos com armação vermelha.  

Como não tenho nem uma miopiazinha, venho ao baile com Ray-ban da China”

No baile charme, a toalhinha é estratégica, serve para secar o suor o tempo todo. Uns ajudam os outros a se secarem nas costas, como em um ritual coletivo. A armação colorida dos óculos é outra tendência em Madureira. Não importa se a pessoa não precisa de óculos. De armação com certeza ela necessita. “Como não tenho nem uma miopiazinha, venho ao baile com este aqui, sem grau mesmo. É Ray-ban da China”, brinca a técnica de enfermagem Cinthia Alves, de 22 anos.

Além da toalhinha como item obrigatório, os homens tiram onda com fones de ouvido pendurados no pescoço. Os muitos decibéis do baile, claro, não permitiriam ninguém ouvir outra coisa por ali que não fosse o que o DJ toca. Mas o fone – tão exagerado em tamanho quanto em cor - dá um complemento ao visual. “Saio de casa ouvindo hip hop e só tiro quando chego aqui, já no clima da noite”, diz o estudante Marcelo Oliveira, 18 anos.

Leonardo Balbino de Paula, 25 anos: sempre no baile
George Magaraia
Leonardo Balbino de Paula, 25 anos: sempre no baile

Como se dança

Outra dica: esqueça as aulas de dança. Não é preciso saber previamente as coreografias. Tudo se aprende na hora. As pessoas dançam em duplas, trios, em grupos. Mas, ao longo da madrugada, o bailado vai virando um grande conjunto, um só corpo de dança, onde mais de duzentas pessoas repetem movimentos sincronizados de passos marcados. Um passo pra direita, outro para a esquerda, meia-volta para frente, para trás...  

As pessoas vêm para se divertir e aprender as coreografias”

Mas há um descontentamento na forma como o movimento está sendo retratado na televisão. “Teve uma cena em que o pessoal dançou Claudinho e Buchecha . Se toca isso aqui, o povo vai embora na hora. Também não tem como tocar Kuduro, como na abertura da novela”, critica Marcelo Kuster, o DJ Emekay. No seu set list, Michael Jackson (para “abrir os trabalhos”) e hits de Ryan Leslie , Chris Brown , Justin Timberlake , James Brown e Beyoncé .

“A novela mostra um monte de gente conversando no baile. Isso não existe aqui. Além disso, no charme só se dança sozinho, mas sempre de olho nos que estão a sua volta, para se copiar o bailado. O clima não é de paquera. As pessoas vêm para se divertir e aprender as coreografias”, garante a estudante Isabela Cristina, presença assídua no baile há três anos.

Na barraca de caipifrutas, o
George Magaraia
Na barraca de caipifrutas, o "combustível" da noite, conhecido como "capetão henergético"
“Pau na coxa”

Diferentemente das quadras de escolas de samba, ali a cerveja (que custa R$ 1) não é a bebida preferida dos frequentadores. Na barraca de caipifrutas, Amilton Conceição e Silvana Menezes vendem o “combustível” da noite, conhecido como “capetão henergético” (assim mesmo, com H). “É H de homem, porque são os marmanjos que mais procuram, é afrodisíaco”, explica Amilton, sobre a mistura explosiva à base de leite em pó, ginseng, vinho e marapuama (espécie de erva). As mulheres preferem o sugestivo drinque “pau na coxa” (leite condensado, vinho e calda de chocolate).

CDs e DVDs de black music, bonés e tênis And1 e Nike (os preferidos dos charmeiros), tudo de procedência um tanto suspeita, são comercializados dentro do local. O organizador do baile, Michell Jacob, se desvencilha quando perguntado sobre a mercadoria. “Aqui o foco é a diversão”. Ainda assim, pela primeira vez no baile, Natalia Campos, que cursa Serviço Social na PUC-RJ, aprovou a experiência. “Moro aqui perto, mas nunca tive coragem de vir. E estou me divertindo”, diz. Mais à frente, a auxiliar contábil Danielle Soares sentencia o que é, de fato, o baile charme de Madureira: “É o Brooklyn carioca. O gueto negro americano não deve ser tão animado como o nosso”.

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