Yoshihiro Kariya brinca sem pudores com temas complicados como Alzheimer, incontinência urinária e senilidade e faz todo mundo rir

Aos 61 anos,  ele exibe a energia e a jovialidade de alguém com metade de sua idade, disparando piadas rápidas enquanto anda pelo palco num fraque vermelho, os cabelos puxados para trás num rabo de cavalo. O show do comediante de stand-up Kariya Kariya, com uma hora de duração, é uma implacável enxurrada de tiradas dirigidas ao seu público - principalmente mulheres na casa dos 60 e 70 anos.

Comediante Yoshihiro Kariya cobra U$300 por ingresso de show que satiriza vida dos idosos
The New York Times
Comediante Yoshihiro Kariya cobra U$300 por ingresso de show que satiriza vida dos idosos

"Há quarenta anos, quando vocês se casaram pela primeira vez, seus maridos as pegaram nos braços e carregaram até o quarto", disse Kariya durante uma recente apresentação. "Quando foi a última vez que isso aconteceu? 1962?", continuou ele, apontando para pessoas na plateia. "Para você, 1960? 1956? E ali no fundo, 1910?". "Agora são você que os pegam pela mão e os levam ao quarto. E para quê? Para trocar suas fraldas geriátricas!", provocou o comediante. As mulheres, que haviam pago mais de US$ 300 por um ingresso do show, gargalhavam a cada piada, em meio a gritos e aplausos.

O Japão está bem estabelecido como um centro global de cultura jovem, como lugar de criação do Uniqlo e do Pokemon. Mas esta é também uma das sociedades de envelhecimento mais rápido no mundo - e existe uma crescente necessidade por algo ou alguém que entretenha suas longas fileiras de aposentados . Hoje ninguém o faz melhor do que Kariya, mais conhecido por seu nome artístico, Kimimaro Ayanokoji, ou apenas Kimimaro. Seus livros e CDs venderam 1 milhão de cópias, e ele rotineiramente lota locais como o teatro de 500 lugares no elegante Hotel Okura, na cidade de Kobe.

Segundo seus fãs, Kariya é daquela rara categoria de artistas que compreendem totalmente as ansiedades de envelhecer, e consegue encontrar o humor disso. Mesmo em grande quantidade, os idosos japoneses dizem muitas vezes se sentirem ignorados pela cultura popular, com seus ídolos juvenis e bandas de garotos que poderiam ser seus netos.

"Kimimaro-san é um comediante para uma sociedade envelhecida", afirmou Fukako Shimamura, de 63 anos, dona de casa que assistiu ao show de Kobe. "Ele é da nossa geração, e por isso entende nossos problemas. Ele sabe como nos fazer rir, mas também nos oferece percepções sobre nossos problemas e acaba nos ensinando algo."

Kariya diz ser um dos poucos comediantes que conseguem cumprir uma difícil tarefa: arrancar um sorriso de clientes duros e enrugados, que já viram de tudo e não têm muitos motivos para dar risada. Ele o faz com o que chama de "comédia de língua venenosa", fazendo um humor negro que expõe abertamente as dores e medos de envelhecer.

Em uma de suas apresentações, ele contou ao público que os médicos previram que um em cada quatro japoneses logo estará senil. "Senhoras, olhem à sua volta", disse ele, antes de começar a contar membros da primeira fila. "Um, dois, três, senil! Um, dois, três, Alzheimer! Um, dois, três, demência!"

"Elas riem porque têm medo", afirmou Kariya numa entrevista antes do show. "Eu suavizo o golpe da idade falando a elas não individualmente, mas como um público. Dessa forma, todas podem achar que não estou falando exatamente sobre elas, mas sim sobre quem está na cadeira do lado. No fundo, porém, elas também sabem que é apenas uma questão de tempo até seus dentes e cabelos caírem."

Kariya adora zombar da falta de romance na vida dos idosos
The New York Times
Kariya adora zombar da falta de romance na vida dos idosos
Segundo Kariya, ele entende o peso da idade por experiência própria. O rabo de cavalo, ele reconhece, é uma peruca que começou a usar quando seu cabelo começou a recuar, uma década atrás.

Embora seu show possa parecer grosseiro em alguns momentos, ele segue a longa tradição japonesa do monólogo cômico "rakugo", com alguns. toques modernos - como o desenho estilo cartum de si mesmo que ele usa como logotipo. Ele também é bastante moderno em seus esforços para capitalizar o sucesso: ele vende sua própria marca de vinho e possui uma loja online que vende roupas infantis, para que suas fãs possam dividir a alegria com seus netos.

Ele explica que parte de seu apelo está no fato de ter compartilhado muitas experiências com seu maior público, japoneses nascidos nos anos após a Segunda Guerra Mundial. Filho de um criador de cavalos numa área rural do sul, ele conta ter pegado a febre do show business quando viu os primeiros programas de entretenimento numa televisão preto e branco que sua família comprou para ver as Olimpíadas de Tóquio, em 1964.

Arrastando-se por uma carreira sem brilho em cabarés vulgares e fazendo apresentações de comédia stand-up como ato de abertura para shows de música, ele se viu ficando careca e pensou ter chegado ao fim da linha com 50 anos. Então teve uma ideia: sua geração do pós-guerra, o maior grupo demográfico do Japão, estava envelhecendo com ele. Por que não contar piadas sobre essa realidade?

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O comediante diz oferecer aos japoneses mais velhos uma chance de escapar da sensação de isolamento no que ele chama de "sociedade americanizada" - onde pais idosos, que tradicionalmente morariam com seus filhos e netos, ficam cada vez mais sozinhos. Ele atribui seu apelo especial junto às mulheres não à sua aparência - "Se eu fosse bonito, teria sido ator" - mas à vontade delas de rir. Após uma vida inteira se sacrificando para seus maridos e filhos, elas agora estão determinadas a passar seus últimos anos se divertindo, completou ele.

The New York Times
"Eu suavizo o golpe da idade falando a elas não individualmente, mas como um público

Um de seus assuntos mais ricos é zombar de casais idosos, cuja centelha romântica já desapareceu há tempos - sendo substituída pelo mau humor de ficar velho. Para se identificar com seu público mais comum, ele geralmente conta as piadas do ponto de vista feminino. "Senhoras, quando vocês eram jovens, vocês azucrinavam seus maridos para eles voltarem logo do trabalho para casa", começou ele. "Quarenta anos depois, agora que eles estão finalmente aposentados e sempre em casa, tudo o que vocês conseguem pensar é 'quando ele vai sair de novo'".

Outras piadas apelam a ambos os sexos. "Quando você envelhece, tudo parece aumentar: suas rugas, manchas na pele, colesterol, gordura corporal", disse. "As únicas coisas que diminuem são suas economias e o número de cabelos na cabeça!"

"Ele diz coisas cruéis, mas nós o perdoamos porque é tudo verdade", afirmou uma integrante da plateia, Hiromi Mochida, de 68 anos. "Gosto dele porque ele também nos relembra do que ainda temos", completou sua amiga, Yoko Hirata, de 66. "Às vezes me canso de meu marido. Mas quando venho no show, percebo que tenho sorte por ainda tê-lo comigo. Percebo que só posso vir aqui graças ao dinheiro que ele ganhou.""Kimimaro-san me faz sentir grata pelo tempo que vivemos juntos, e pelo tempo que ainda temos", acrescentou ela. "Talvez esse seja o segredo do humor para idosos", finaliza Yoko.

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