As Green Houses americanas pretendem transformar casas de repouso em locais onde os residentes tenham motivos para viver

Toni Davis, diretora do Green Hill Retirement Community, joga bingo com residentes de uma Green House
Joshua Bright/The New York Times
Toni Davis, diretora do Green Hill Retirement Community, joga bingo com residentes de uma Green House
Toni Davis passou a maior parte da infância passeando pelos corredores de um asilo em West Orange, Nova Jersey, do qual sua mãe era a diretora. Tantos anos depois, ela ainda se lembra dos pedidos dos residentes: "'Por favor, me ajude, me leve para casa com você', eles imploravam". "Lembro que perguntei a minha mãe 'por que não posso levá-los para casa para jantar, só por uma noite’?'"

Seguindo os passos de sua mãe, Davis agora é diretora do Green Hill Retirement Community, uma casa de repouso e assistência à autonomia domiciliar. Decidida a transformar a instituição e fazer com que os residentes tenham motivos para viver, colocou ali tanques para observação de peixes e gaiolas com pássaros, quadros nas paredes, carpetes nos corredores e comprou cães para exercícios de terapia assistida por animais.

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Ainda assim, a casa de repouso ainda se parecia com uma casa de repouso. "Não importa o que você faça, não consegue trazer para uma instituição tão grande a impressão de casa", afirma.

Por isso, Davis e duas dezenas de funcionários de asilos americanos agora estão tentando uma ação diferente. Atrás de dois grandes edifícios institucionais da Green Hill, ela abriu este ano duas pequenas casas no estilo artesanal para idosos residentes.

Apenas dez idosos moram em cada uma das Green Houses , que não se assemelham nem um pouco a um asilo. Passando pela porta da frente vê-se a sala de estar e jantar, com a lareira de um dos lados, rodeada de cadeiras estofadas, e do outro, uma mesa de jantar comunitária, onde são servidas as refeições. Em frente à mesa, a cozinha fica aberta para que os cuidadores possam conversar com os idosos enquanto preparam a comida.

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Quartos privativos e banheiros circundam a sala de estar principal. A casa possui uma varanda na frente e um pavimento atrás com mesas e cadeiras. Não há corredores, enfermarias, carrinhos para transporte de medicamentos (em cada quarto há um armário contendo os remédios do idoso) e não são distribuídas bandejas com alimentos nos quartos.

Além das Green Houses construídas por Toni Davis, atualmente, existem outras 117 casas desse tipo em todos os Estados Unidos. As Green Houses constituem parte do discreto, mas instigante empenho de desinstitucionalizar a assistência ao idoso, movimento iniciado com uma lei pró-reforma de abrigos de 1987, segundo a qual o residente de abrigo por longos períodos tem o direito de viver livre de abuso e negligência. A lei vem fomentando diversas estratégias para melhorar o bem-estar dos residentes.

"Isso vem acontecendo em todo o país, há diversos modelos diferentes", afirma Sarah Wells, diretora executiva do National Consumer Voices for Quality Long-Term Care, um grupo de defesa com sede em Washington.

Bem-estar
O conceito de Green House amplia esse conceito de bem-estar e promove uma revisão inclusive na forma como os cuidados médicos são prestados. Nas casas de repouso tradicionais, os funcionários geralmente possuem funções bem definidas: alguns dão banho, outros cozinham e outros lavam as roupas, um sistema baseado na eficiência que tende a ignorar as preferências e as necessidades individuais.

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Em uma Green House, ao contrário, cada lar possui dois funcionários com certificado de assistente de enfermagem que realizam todo tipo de tarefa, mas para um número menor de residentes. Além disso, uma enfermeira licenciada geralmente oferece assistência a duas ou três casas.

"Com uma pessoa fazendo todas as tarefas, é possível passar mais tempo com os residentes e conhecê-los como pessoas reais", afirmou Robert Jenkens, diretor da NCB Capital Impact, instituição financeira que apoia o The Green House Project, comunidade sem fins lucrativos, parceira da Fundação Robert Wood Johnson. As duas fornecem consultoria e empréstimos a organizações que vêm desenvolvendo diversas Green Houses.

"Também ficamos menos presos a uma programação diária rígida, na linha de 'acordar, refeição e banho', e é possível reorganizar o dia de determinada pessoa com base em suas preferências", afirmou Jenkens.

Cozinha aberta usada nas Green Houses permite maior interação entre residentes e funcionários
Joshua Bright/The New York Times
Cozinha aberta usada nas Green Houses permite maior interação entre residentes e funcionários
O tamanho e a quantidade de idosos também estimula a autonomia. Quando as auxiliares de enfermagem não estão apressadas para vestir e dar banho nos residentes, acredita-se que fiquem mais propensas a permitir que eles desempenhem essas tarefas sozinhos, estimulando a independência.

Erika Dickens, assistente de enfermagem licenciada, trabalhou em uma casa de repouso tradicional, a Green Hill, durante vinte anos. Recentemente, porém, Dickens foi transferida para a nova Green House.

"Eu me sentia de mãos atadas. Precisava despertar os residentes em determinado horário mesmo se eles não quisessem", afirmou. "Agora, se um belo dia o idoso não quer levantar da cama para o café, eu levo milkshake para ele", afirma.

Solidão, desamparo e tédio
A ideia da desinstitucionalização da assistência ao idoso é cada vez mais popular. De acordo com uma pesquisa de opinião divulgada em setembro pelo NPR, Fundação Robert Wood Johnson e Escola de Saúde Pública de Harvard, 82% das pessoas em fase de pré-aposentadoria (pessoas com mais de 50 anos que não se aposentaram, mas estão planejando fazê-lo) e 78% dos aposentados estão um pouco ou muito preocupados em ter de viver em um ambiente institucional que não será tão confortável quanto um lar.

"Solidão, desamparo e tédio são os três tormentos dos abrigos para idosos", afirmou Jenkens. "Todas as práticas institucionalizadas induzem a isso, comprovadamente", afirma.

Contudo, não está claro se o modelo Green House pode ser reproduzido amplamente. Embora os custos diários não sejam maiores do que os das grandes instituições, esses abrigos são normalmente produzidos em agrupamentos de dois ou mais e requerem investimentos de capital comparativamente maiores. "A implementação delas como substituição a todas as casas de repouso do país geraria aumento dos custos no longo prazo", afirmou a doutora Catherine Hawes, diretora do programa de políticas de assistência de longo prazo e envelhecimento do centro de ciências da saúde da Universidade do Texas A&M.

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O mais importante talvez seja saber se o modelo Green House melhora a assistência à pessoa idosa em comparação com as instituições tradicionais, e ainda não existem estudos ‘oficiais’ sobre o assunto. Diversos estudos pequenos, nenhum com rigor particular, revelaram que as Green Houses fornecem assistência semelhante a um custo igual ao dos abrigos tradicionais. As Green Houses conseguem isso principalmente reduzindo os cargos de supervisão e treinando assistentes de enfermagem licenciados a receberem mais responsabilidades.

A porcentagem de lugares vagos desses abrigos também é inferior a dos lares convencionais. Além disso, eles aceitam pacientes do programa americano de assistência a idosos Medicare e Medicaid, o que os torna uma opção para os idosos de baixa renda. Em média, aproximadamente 54% dos residentes do Green House pertencem ao Medicaid, sendo que o restante paga pela assistência de forma privada.

Membros da família relatam mais satisfação com ambiente físico, privacidade e própria autonomia e também com saúde, assistência e com  refeições nas Green Houses
Joshua Bright/The New York Times
Membros da família relatam mais satisfação com ambiente físico, privacidade e própria autonomia e também com saúde, assistência e com refeições nas Green Houses
Uma outra pesquisa constatou que os idosos das Green Houses sofrem menos com úlceras de pressão ou escaras, feridas causadas por longos períodos na cama, do que os residentes de abrigos tradicionais. Além disso, descobriu-se que eles recebem todos os dias 24 minutos de assistência pessoal direta e 1 hora e meia de dedicação dos funcionários a mais do que as pessoas que moram nas casas tradicionais. Os residentes afirmam sentir que seu relacionamento com a equipe do abrigo é mais próximo. Além disso, os membros da família relatam mais satisfação com o ambiente físico, a privacidade e a própria autonomia e também com a saúde, a assistência e com as refeições. Os funcionários também relatam sentir menos estresse. A taxa de rotatividade é significativamente inferior a das casas de repouso tradicionais. O salário das assistentes de enfermagem licenciadas da Green House é 5% maior que nas instituições tradicionais.

Mesmo que se constate que o modelo é impraticável em larga escala, afirma Wells, "podemos aprender muito com o que está sendo feito nas Green Houses e adaptar os métodos de forma a poder usá-los nas casas de repouso existentes".

Muitos residentes e suas famílias consideram que as Green Houses proporcionam uma melhora substancial em relação ao padrão de assistência ao idoso. Diane LoCicero transferiu a mãe Evelyn, de 88 anos, de um abrigo tradicional para a Green House de Green Hill este ano. Evelyn está muito mais calma, afirma Diane, e ela agora realmente gosta de visitar o local e estar com sua mãe.

"Antes, o local parecia um hospital e eu detestava visitá-lo”, afirma Diane. "Agora, posso ficar aqui por horas", afirma.

Na Green House de Green Hill, Jane Larkin, de 82 anos, professora de economia doméstica aposentada, sentada em uma cadeira de rodas - ela sofreu um derrame em 2007 - próxima à longa mesa de jantar, resume os benefícios do modelo não-institucional:

"Aqui existem mais oportunidades de socialização. Podemos sair com mais facilidade e as pessoas gostam mais de nos visitar", afirma. "Às vezes, eu dou conselhos às funcionárias enquanto elas cozinham, como se ainda fosse uma professora. Não era possível fazer isso na outra casa porque ficávamos isolados nos quartos", afirma.

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