Professora e lutadora profissional de MMA, Ana Maria Índia tem um quarto cor-de-rosa e as unhas sempre feitas

Índia em seu quarto no alojamento de atletas da academia onde vive, no Rio
Celso Pupo/Fotoarena
Índia em seu quarto no alojamento de atletas da academia onde vive, no Rio
Ana Maria nasceu em Barreiras, interior da Bahia. A falta de recursos em sua cidade natal fez com que saísse de casa aos 16 anos para terminar a escola em Aracaju. Dois anos depois, residia em Marília, interior de São Paulo, para cursar a faculdade de biomedicina.

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A descrição acima poderia facilmente ser diluída nas histórias de outras tantas mulheres que tentam encontrar no sudeste do País estudo, trabalho e um sonho pra chamar de seu. A história desta Ana Maria, mais conhecida como Índia, entretanto, é insolúvel.

Índia é uma das principais lutadoras brasileiras de Vale-Tudo. Popular nos EUA, a luta livre, ou MMA (Mixed Martial Art), como é conhecida fora do território nacional, tem nos atletas brasileiros uma referência de qualidade e campeões. Mas, por aqui, o reconhecimento acontece apenas entre os atletas masculinos.

Embora o País mantenha o preconceito contra a presença de mulheres nos ringues, a representatividade feminina na categoria é forte e poderosa. Ao lado de Cris Cyborg e Carina Damm, Índia forma a santíssima trindade do MMA cor-de-rosa (e verde-amarelo).

A modalidade exige um conhecimento global de todas as artes marciais. A luta incorpora técnicas do jiu-jítsu, muay thai e boxe. Ana Maria começou a treinar na época de faculdade, aos 21 anos. A paixão pela luta veio através do jiu-jítsu. Em pouco tempo de treino e aprendizado, a aspirante a atleta trocava os planos na área de biologia pela vida no ringue.

Ao somar títulos na modalidade, Índia queria mais. Quando conheceu o MMA, sentiu-se desafiada. Investiu pesado nos treinos, e rapidamente conseguiu projeção mundial. Desde 2005, acumulou, das 10 lutas disputadas, seis vitórias e quatro derrotas.

Sem patrocínio, as lutas esporádicas são uma espécie de show. Cada lutador tem um preço, e um empresário - responsável por organizar os embates. Hoje, Índia leciona jiu-jítsu e MMA em uma academia na zona sul do Rio de Janeiro e ganha, por luta, no mínimo, o equivalente ao salário mensal de uma gerente executiva. "É instável, nós vivemos de bolsas, mas dá para equilibrar a vida financeira."

Faixa-preta no jiu-jítsu, Índia tem um dia intensivo de treinos. Apesar da rotina pesada, as unhas estão sempre bem feitas
Celso Pupo/Fotoarena
Faixa-preta no jiu-jítsu, Índia tem um dia intensivo de treinos. Apesar da rotina pesada, as unhas estão sempre bem feitas
Nos pés, só base
De fato, é preciso ter vocação para encarar as lesões inerentes ao esporte. A atleta conta que quase perdeu um dedo durante um simples treino. Atualmente, se recupera de uma cirurgia no joelho direito, provocada por uma lesão bastante comum no meio esportivo. “Ossos do ofício. É preciso paixão, dedicação. No meu caso, foi amor ao primeiro quimono”, derrete-se.

O desprendimento, a tolerância à dor e certo apreço pelo combate, pré-requisitos dessas profissionais, porém, não implicam na perda da feminilidade. "Desde criança gostava de brincar de lutinha, fazia de conta que eu era a Xena, a princesa guerreira", recorda.

A lutadora não descuida da pele, corpo e dos cabelos. Mantém as unhas da mão sempre bem feitas, coloridas com os esmaltes da moda. Nos pés, porém, só é possível usar base. “Em menos de 10 minutos eu perco todo o esmalte, mas nem por isso deixo de cuidar.”

Torneada por músculos e inflada na autoestima, Ana Maria ganhou o apelido de Índia por manter um estilo peculiar, composto por acessórios rústicos e femininos, similar ao da Pocahontas, personagem dos desenhos da Disney.

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“Quando comecei a lutar profissionalmente, eu fazia uma trança firme que não incomodava meus movimentos e segurava bem o cabelo. Além disso, sempre vou vestida com saias longas, acessórios nos cabelos, brincos grandes de pena e sandálias rasteiras. O visual ajudou a compor o apelido.”

No começo, a brincadeira incomodava, explica a lutadora, com questionável timidez. Hoje, a fama do codinome não esconde a vaidade e satisfação com o próprio corpo.

Sensualidade e silicone

Feliz com as curvas, Índia exibe tranquilamente o corpo adornado com grandes tatuagens
Arquivo pessoal
Feliz com as curvas, Índia exibe tranquilamente o corpo adornado com grandes tatuagens
Em 2009, após participar do No Limite, da Rede Globo, encarou o roteiro tradicional das ex-participantes de reality shows – fez alguns ensaios sensuais, mas não emplacou o 100% nu por um detalhe pequeno: “Na época, um empresário do ramo disse que eu era bonitinha, parecia a dançarina Sheila Carvalho, mas meus seios eram pequenos demais.”

Bem resolvida e sem frescura, como procura se auto-definir, o alerta não abalou a segurança, mas resultou em um investimento de 250 mililitros de silicone em cada seio. A plástica alargou o sorriso na frente do espelho e potencializou a feminilidade.

“Para as mulheres que lutam, é normal ficar com um corpo mais quadrado, sem cintura. Uma bailarina tem os pés horríveis, super machucados por conta da dança. Nós perdemos algumas curvas, mas ganhamos músculos. Eu, honestamente, não gosto de pessoas magras demais. Sempre penso que falta músculo naquele corpo franzino, quando vejo uma modelo. Sou satisfeita com o que tenho. O investimento no silicone elevou ainda mais a minha moral, que nunca foi baixa”, diverte-se, sem falsa modéstia.

Ringue cor-de-rosa
Índia é professora de MMA na academia Team Nogueira, na zona sul do Rio de Janeiro. Faz parte da equipe do famoso lutador Anderson Silva. Entre uma aula e um treino, ela encara competições estaduais, pan-americanas e mundiais. A dedicação ao esporte é integral, rotina que a fez abdicar de acompanhar o crescimento diário e a educação da única filha, hoje com oito anos.

“A vida do atleta é muito corrida, nômade. Hoje eu moro em uma suíte nos fundos da academia, não teria condições de acompanhar a educação e o desenvolvimento da minha filha. Ela mora com minha mãe, no interior da Bahia. Trabalho para futuramente levá-la comigo para morar no exterior.”

O quarto cor-de-rosa, bem decorado, com bonecas na parede e tapete no chão, convida a um encontro de meninas. Índia é a única mulher em um ambiente que transpira testosterona. A maioria dos professores são homens. No alojamento para atletas, seu espaço é respeitado e, por vezes, temido.

A lutadora faz pose em frente ao ringue onde treina e dá aulas todos os dias
Celso Pupo/Fotoarena
A lutadora faz pose em frente ao ringue onde treina e dá aulas todos os dias
A convivência em um meio masculino, segundo ela, é agradável e cordial. Apesar de carregar os colegas nos ombros, jogá-los no chão, os amigos e alunos a tratam com carinho e respeito, sempre preservando sua identidade feminina.

“Nunca me senti um homem no meio deles. Meu canto é super respeitado, sou admirada pelo que conquistei, e sinto que desperto atração dos homens.”

A vida social também é limitada ao ambiente esportivo. India gosta de sair para caminhar no calçadão, andar de bike na praia ou tomar sol logo pela manhã. Avessa às badalações, e extremamente regrada, a lutadora está solteira, mas gosta de namorar. O candidato precisa corresponder a uma exigência básica: deve ser lutador, ou, no mínimo, apresentar algum valor agregado à modalidade.

“Já namorei médico e chef de cozinha, mas é fundamental que eles entendam o que eu faço, que gostem, e ao menos treinem como atividade física. Sou apaixonada pela minha profissão e preciso que isso seja entendido e valorizado.”

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