Agradável não é. Mas, cedo ou tarde, é preciso encarar o assunto. Veja como falar sobre morte com as crianças sem deixar de respeitar o que elas sentem

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Acordo Ortográfico

Se você acha que morte é papo de adulto e que crianças só precisam entender quando forem bem grandinhas, está muito enganada. Esclarecer o tema ainda na infância é importante para o desenvolvimento psicológico delas.

A morte, assim como outras questões que são partes da existência humana, está presente desde a infância. A criança que perde um animal de estimação, que pisa em um inseto, que vê seu brotinho de feijão secar, já se depara com o fim da vida ¿ sem necessitar de grandes conceitos filosóficos para imaginar a morte, pensar nela ou aceitá-la, comenta a psicóloga e especialista em Psicologia Hospitalar Sávia Emrich.

A percepção do conceito de morte nem sempre é tão rígida, nem se desenvolve independente dos fatos que cercam a vida da criança. Será a história individual, a experiência, que dirá o modo como este conceito se desenvolverá. Isso talvez distinga a criança fisicamente saudável, ou que não sofreu a morte de alguém próximo, da criança doente ou que perdeu um familiar, explica a psicóloga.

Quando ela adoece

As alterações que um tratamento traz são percebidas intensamente na criança que está doente e faz com que ela observe com atenção o que acontece ao redor. De alguma forma é levada a refletir sobre os acontecimentos, sejam eles a doença, a separação, a perda ou a morte propriamente dita. E esta reflexão termina por modificar a sua relação consigo mesma, com o seu próprio corpo e com os outros. O que pode produzir uma compreensão da morte com os mesmos tipos de representação e de conclusões do adulto, muito mais cedo, conta Sávia.

É o caso de Mariana, 4 anos, que foi submetida a uma cirurgia de altíssimo risco. Após a operação, permaneceu na UTI, pois seu estado era grave. Uma psicóloga do hospital aproximou-se para atendê-la e ela, pensativa e em um tom entristecido, lhe disse: Tô pensando aqui na morte da bezerra... E eu tô pior que a bezerra... Há aí algo próprio da criança que demonstra uma maior maturidade na sua relação com o mundo, reflete a especialista.

Perda de alguém querido

A morte de uma pessoa muito próxima e com grande ligação afetiva é um desafio emocional para os pais e para a própria criança. O mais importante é que essa compreensão possa ser falada e não silenciada. Quando a criança revela a sua angústia, alguns adultos preferem mentir e justificar com um ela não entende. Como se, ao ocultar o fato, a doença, a perda e morte deixassem de existir para a criança e para o próprio adulto, esclarece a psicóloga.

Ir ao velório ou ao enterro pode ser importante, considerando sempre a relação da criança com o falecido. Sávia explica: esta pode ser uma oportunidade de se despedir, de compartilhar os sentimentos com outras pessoas que enfrentam a mesma dor e de se sentir reconhecida por todos como alguém que também enfrentou uma perda importante.

Se você está inserida em um contexto religioso e a morte é encarada através desses referenciais, seu filho também pode compreender a perda desta mesma forma. Mas Sávia ressalva: se os pais não acreditam nestas explicações, ou se a criança não circula entre estes simbolismos, será impossível fazer uso disto sem confundir ainda mais.

Bola pra frente?

Muito cuidado com os encorajamentos! Vai dar tudo certo, aguenta firme, não chora podem ser prejudiciais e levar a ideia de que a dor tem que ser exterminada, quando ela é importantíssima para a elaboração do luto. Estas expressões de apoio podem ser uma mentira que é percebida pela criança como tal e isto pode trazer ainda mais insegurança e angústia. Já que, por exemplo, em algumas situações não sabemos se tudo de fato dará certo, apesar de desejarmos que assim o seja, comenta Sávia.

Não basta uma simples comunicação. É importantíssimo que as explicações sejam sinceras e objetivas. É fundamental ouvir o que ela tem a dizer, suportar suas expressões de dor (mágoa, raiva, choro, lembranças, tristeza, etc) e as milhares de perguntas que ela pode ter a respeito do tema, salienta a psicóloga.

Por fim, quer uma dica de leitura? Em Menina Nina: Duas Razões para Não Chorar (Ed. Melhoramentos), Ziraldo aborda com muita delicadeza e de forma poética a questão da perda.



Savia Emrich (psicóloga) ¿
saviaemrich@yahoo.com.br e (11) 7646-3163

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