Na segunda parte da matéria sobre a iraquiana Baida, presa por seu envolvimento com um grupo terrorista, ela conta sua história

As mulheres escondem o colete de explosivos
entre as vestes largas que são obrigadas a usar
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As mulheres escondem o colete de explosivos entre as vestes largas que são obrigadas a usar
Hosham estava certo: gostei de Baida desde o início. Ela tinha o rosto franco e a pele pálida, estatura mediana e um jeito despretensioso. Ela usava a tradicional abaya longa e preta, cujo único detalhe decorativo era uma faixa de cetim preto na frente. Seu véu negro era simples, deixando escapar algumas mechas de seus cabelos castanhos claros sugerindo que, apesar de conservadora, ela não era rígida.

Ela parecia ter instrução, contando sua história de maneira bastante direta. Em alguns momentos durante nosso primeiro encontro eu me esquecia que estávamos no escritório entulhado e sombrio de um detetive assistente, com a pintura das paredes descascando e barras de proteção nas janelas.

Com uma voz suave, ela começou a falar: “Meu nome é Baida Abdul Karim al-Shammari e eu sou de Nova Baquba, próximo ao hospital geral. Tenho sete irmãos, cinco deles assassinados. A polícia fez uma batida em nossa casa. Faltava meia hora para o entardecer e era o período do Ramadã. Os americanos estavam com eles”.

Ela completou, com uma pitada de orgulho: “Meus irmãos eram mujahedeen. Eles faziam IEDs”. A palavra mujahedeen significa “guerreiros sagrados” e, no contexto do Iraque, eles são guerreiros contra os infiéis, os americanos. IEDs, do inglês “Improvised Explosive Devices”, são dispositivos explosivos improvisados.

Ela me contou que ajudava a fazer tais dispositivos, indo ao mercado para comprar cabos elétricos e outras partes da bomba, além de trabalhar na montagem da mesma. Os homens costumam ser pagos para tais serviços; as mulheres geralmente também são pagas, porém menos. Baida tinha orgulho de ser voluntária. “Eu sabia que estávamos lutando contra os americanos e eles são a ocupação”, ela me contou. “Estamos fazendo isso em nome de Deus. Estamos fazendo isso pela jihad”.

Baida cresceu se deslocando entre Baquba, a capital da província de Diyala, e Husayba, uma cidadezinha na fronteira com a Síria. Ela me contou que frequentou a escola até a oitava série e que tinha a ideia de se tornar arquiteta, mas sua mãe queria que ela ficasse em casa. Quando completou 17 anos, sua mãe morreu e alguns meses mais tarde, sob ordem de seu pai, Baida se casou.

Quase que imediatamente ela se deu conta do erro cometido. Segundo ela nos contou, uma semana depois de seu casamento seu marido jogou uma xícara de creme em sua cabeça e logo as surras se tornaram regulares. Ela dá um sorriso doce e encolheu os ombros: “As mãos dele se acostumaram a me bater”.

Para Baida, como para muitos dos suicidas iraquianos, insurgência violenta era o negócio de família. Pouco depois da invasão americana, seus irmãos começaram a fabricar as bombas caseiras. Um deles foi morto pela explosão do dispositivo que ele mesmo havia fabricado quando tentava escondê-lo.

Ela também tinha primos insurgentes. Enquanto eles eram pagos pelos serviços, disse ela, sua motivação principal era a vingança. Mesmo que mais generalizada no início, mais tarde a vingança seria pela morte de seu pai e de seus quatro irmãos que, segunda ela, teria acontecido em um ataque conjunto de americanos e iraquianos em sua casa.

Ele me contou que assistiu os americanos atirando em um vizinho seu em 2005, e a imagem surgia o tempo todo em sua mente. “Vi quando ele correu em direção a eles e eles atiraram em seu pescoço. Ainda o vejo, ainda me lembro dele caindo quando os americanos atiraram nele; vi como ele arranhava o chão, malogrado, antes de sua alma deixar seu corpo. Depois disso comecei a ajudar na fabricação das bombas caseiras”.

Arquitetar um ataque suicida a bomba bem sucedido raramente é um ato individual. É preciso confeccionar um colete suicida, ensinar a futura mulher-bomba como usá-lo e planejar a missão – que envolve transportar a suicida para próximo do local onde o ataque deverá ocorrer e, em alguns casos, instalar uma câmera nas proximidades para que o evento seja filmado.

Para as mulheres iraquianas, que raramente dirigem, exceto em Bagdá, seria impossível chegar ao local do ataque sem alguma assistência. A maioria das mulheres que promove ataques suicidas em Diyala recebe apoio e treinamento de uma rede de extremistas – geralmente membros da família já ativos na insurgência.

Após a morte do pai
Baida me contou que se sentiu muito mais desamparada depois da morte de seu pai. Até então, quando estava infeliz em seu casamento, ela costumava visitar sua família, mesmo que na época eles já tivessem se mudado para Husayba – a cidadezinha na fronteira com a Síria.

Às vezes ela estava tão chateada em casa que pedia para um de seus irmãos ou primos para ir até Baquba e levá-la para a casa de seu pai de carro. “Sabe, meu pai nos amava muito”, disse ela em tom saudosista. “Então, quando tinha uma briga com meu marido, eu me sentia segura porque tinha meu pai”.

Depois do assassinato de seu pai e irmãos, ela começou a trabalhar com alguns de seus primos – também guerrilheiros islâmicos e ainda mais radicais que seus irmãos. Um deles morreu em um ataque suicida, mas antes disso apresentou-a a um grupo ligado ao Estado Islâmico do Iraque que era comandado a partir da Síria.

Um dos objetivos do grupo era preparar homens e mulheres para missões suicidas. “Talvez eu possa apresentá-la a eles”, disse ela de maneira cordial. “Você poderia ir conhecê-los, já que eles estão soltos”.

Logo que se juntou ao grupo, Baida ainda não tinha a intenção de se tornar mulher-bomba. Ela foi tomando interesse com o passar do tempo, à medida que foi se tornando mais envolvida com a célula. Seus integrantes anunciavam que estavam prontos para uma missão suicida em frente aos outros do grupo, fazendo um compromisso público, sinalizando que haviam ultrapassado uma barreira invisível e abraçado a ideia de um certo tipo de morte que os tornariam membros de uma comunidade sagrada.

Opção ou programação?
A dinâmica do grupo parecia projetada para fazer os participantes se sentirem como se estivessem escolhendo seu destino livremente. Aquela sensação de liberdade era um componente importante em sua metamorfose em suicidas. Certamente era importante para Baida, que sentia que tinha tão pouco controle de sua vida, sentir-se em controle de sua morte.

Seu objetivo era fazer vingança contra os assassinos de seus irmãos – soldados americanos. Quando mencionei a realidade de que a grande maioria dos ataques suicidas a bomba no Iraque matavam civis iraquianos, ela simplesmente dizia que ela pensava que matar iraquianos fosse haram, ou proibido.

“Tínhamos encontros de 11 participantes: alguns deles vinham à reunião com os rostos cobertos”, disse Baida. “Três mulheres faziam parte do grupo. Às vezes nos reuníamos para discutir o Alcorão, outras para saber quem estava pronto para promover a jihad. Podíamos escolher se queríamos ou não fazê-lo. Eles queriam que eu usasse o cinto explosivo contra a polícia, mas eu me recusei. Eu disse: ‘Não vou fazer isso contra iraquianos. Se eu fizer isso contra a polícia vou para o inferno, pois os policiais são muçulmanos. Se eu fizer contra os americanos, porém, aí sim, vou para o céu”.

Algumas semanas mais tarde, quando me encontrei novamente com Baida, ela tentou me explicar sobre a linha divisória entre o que é ou não halal, ou seja, quando é permitido ou não matar. Ela disse que seguia as regras do grupo, mas que seus primos tinham regras diferentes: eles matariam quem quer que fosse.

Eu me perguntava se tinha diferença entre matar soldados americanos e civis americanos, como trabalhadores da reconstrução. Ela disse que não: “Tenho vontade de detoná-los, mesmo os civis, pois são invasores, blasfemos e judeus. Eu vou detoná-los primeiramente por serem judeus e porque se sentem livres para tomar nossas terras”.

Minha intérprete perguntou a Baida como ela seria enquadrada: seria halal matá-la? “Nós a consideramos uma espiã, trabalhando com eles”, disse Baida.
Baida não acreditava, porém, que seria halal matar integrantes da força de segurança iraquiana se eles estivessem trabalhando sozinhos; somente se estivessem em uma ação conjunta com os americanos.

Orgulho
Ela falou com entusiasmo - seu rosto mostrava sua animação, sua vivacidade. Ao contrário de Ranya , sua companheira de prisão – implausível ao alegar que não sabia que estava usando um cinto suicida – Baida tinha orgulho de sua missão e estava determinada a completá-la.

A escolha de suicídio não estava completamente em suas mãos. Os coletes suicidas dados às participantes pela célula eram equipados com detonadores remotos: outra pessoa poderia detonar a mulher-bomba se de alguma forma a mesma falhasse ao fazê-lo. Este aspecto era relativamente novo nos ataques suicidas a bomba no Iraque. Uma segunda pessoa, com um segundo detonador, prosseguiria na missão para garantir mudanças inesperadas.

Ela me contou que certa vez uma mulher chamada Shaima disse que estava pronta: “Eu vi quando eles puseram o colete nela, estava muito pesado. No caso dela, foram eles que a detonaram, não foi ela. Foram cinco ou seis mortes”.

Quando conheci Baida ela estava ávida para dar continuidade a sua missão, à espera do dia em que seria solta e poderia por as mãos em seu colete, que ela disse estar sendo guardado para ela (ela ainda tem de ser acusada de algum crime).

Ela parecia ter se desapegado da maioria dos vínculos terrenos. Mãe de dois meninos e uma menina, todos com menos de 8 anos, ela não os via desde sua prisão no ano passado. Quando perguntei se ela tinha saudade deles, ela pareceu despreocupada ao responder: “Alá vai cuidar deles”.

Ela falava como se quase toda sua vida já fizesse parte do passado. Quando ela tocou no nome do marido, o qual ela odiava, ela usou os verbos no passado. Ela estava vivendo para aquele momento, visto por alguns como um fim, mas que, para ela, seria um momento de transformação.

“Assim que eu for solta vou me detonar contra os invasores”, ela me contou.
Pouco antes de partir, perguntei a ela qual seria um momento conveniente para vê-la de novo. Ela disse que em breve seria transferida para um hospital psiquiátrico em Bagdá e que estava com medo. Prometi que iríamos visitá-la no hospital e perguntei como poderia manter contato com ela.

Ela acabou revelando que tinha contrabandeado um telefone celular para a prisão – ou talvez implorado para que algum guarda não o tirasse dela. Ela também me contou que nunca deixava o SIM card dentro do aparelho, ele ficava escondido dentro de suas roupas íntimas. Certa vez, o aparelho foi descoberto e confiscado – ele estava escondido dentro da instalação elétrica no teto da cela –, mas ela ainda tinha o SIM card e tinha conseguido outro aparelho.

“Eles não sabem”, ela disse num tom suave, apontando com a cabeça para os policiais na sala, que não tiravam os olhos de um videoclipe na TV. Senti uma onda de desconforto. Ela não era nenhuma iniciante.

Como Baida queria morrer, parte 3: Ranya, outra mulher-bomba

Como Baida queria morrer, final

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