Na segunda parte da série, Luiz Alberto Hanns aponta atitudes que impedem um diálogo construtivo. Faça o teste e veja se você ou seu parceiro se comunicam erradamente

No último artigo falamos de sete formas de se irritar o parceiro, comunicando-se de modo destrutivo. Vimos que algumas formas são sutis. A usamos sem perceber e depois nos surpreendemos quando ele se torna agressivo ou se fecha.

Hoje apresentarei mais sete formas comuns pelas quais os casais acabam destruindo a possibilidade de um diálogo construtivo sobre eventuais discordâncias. Ao dizer as coisas de modo destrutivo, você tira o foco do problema que gostaria de discutir e aumenta a resistência dele ou dela de entrar no mérito da questão.

Primeira parte:  Veja se a comunicação destrutiva sabota seu relacionamento

Se quiser verificar se você ou seu parceiro tem se comunicado de forma destrutiva, dê uma olhada na lista abaixo e aponte quais das formas de comunicação destrutiva vocês estão incorrendo. Alguns modos são mais típicos da subcultura feminina, outros da masculina. 

Com certas frases e atitudes os casais sepultam a possibilidade de um diálogo construtivo
Thinkstock/Getty Images
Com certas frases e atitudes os casais sepultam a possibilidade de um diálogo construtivo


1. EVOCAR TESTEMUNHO DE TERCEIROS A SEU FAVOR
“Até seus pais acham que você é agressivo”, “Sabe o que seu melhor amigo disse sobre você?”, “Nem seus filhos aguentam mais suas atitudes”, “Até os funcionários têm medo de falar com você”. A eficácia desse tipo de argumento costuma ser baixa. Você pode estar queimando o filme de pessoas próximas e eventualmente queridas ou mesmo traindo a confiança delas. Se o seu parceiro for conferir a veracidade do que foi dito, quem foi citado pode acabar constrangido e talvez até amenize ou negue ter dito algo. Isso pode acabar lhe dando a pecha de mentirosa. Mais grave: pode resultar na perda de confiança de quem você ama ou de amigos e familiares.

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Essa atitude também pode estragar relações importantes do parceiro com as pessoas envolvidas. Seu namorado ou marido simplesmente contra-atacará e, por sua vez, elencará diversos testemunhos a favor dele (e acredite, é provável que ele encontre inúmeras testemunhas a favor). Atenha-se ao mérito da questão e deixe os outros de fora.

 Quem de vocês se comunica assim? Eu: (   )  Meu parceiro: (   )
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2. PATOLOGIZAR O PARCEIRO
Um bom modo de destruir as chances de vocês se entenderem é desqualificar a sanidade mental do parceiro. “Você é louco(a)!”, “Você precisa se tratar!”. Pode ser um bom desabafo para sua indignação, mas não ajuda em nada, só atrapalha. 

Se você acha que tem de apontar o destempero do parceiro, poderia dizer algo como: “Vejo que você está muito furioso comigo, talvez consigamos conversar na hora que ambos estivermos mais calmos. Agora só vamos cada vez ficar mais aflitos e com mais raiva”.

Quem de vocês se comunica assim? Eu: (   )  Meu parceiro: (   )
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3. ZOMBAR DAS PROMESSAS DE BOA VONTADE E COLABORAÇÃO
Se o parceiro diz: “Vou tentar ser menos impaciente” ou “Tenho me esforçado em ser mais prestativo”, evite dar respostas que descartam e desqualificam, como: “Você? Ser menos impaciente? Hmmm! Estou para ver”, ou “Você vive prometendo e não cumpre”, ou “Tem se esforçado? Não faz mais do que a obrigação”.

Tente algo mais amistoso, como: “Acho ótimo você ter a intenção de melhorar neste ponto e prometer mudar, mas eu tenho muito medo de que você não consiga. Lembro-me de quando você fez essa mesma promessa e depois de uma semana voltou a agir como antes. Será que isso vai acontecer de novo? O que poderíamos fazer sobre isso?”. 

Quem de vocês se comunica assim? Eu: (  )  Meu parceiro: (   )
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4. DESQUALIFICAR PARTES BOAS DA RELAÇÃO COM FRASES BOMBÁSTICAS
A partir de problemas localizados, você desqualifica todos os bons momentos e destrói as boas memórias que solidificavam a relação. “Nossa relação é mesmo uma merda”, “Eu não devia mesmo ter casado com você”, “Jamais fui feliz com você”. Para você, pode ser um desabafo, dito na hora da raiva, que ele não devia levar tão a sério. Mas ele poderá se lembrar disso durante meses ou anos.

O terapeuta Luiz Alberto Hanns tira dúvidas sobre a vida a dois
Edu Cesar
O terapeuta Luiz Alberto Hanns tira dúvidas sobre a vida a dois

Ao fazer isso, você elimina áreas que eram vividas por vocês dois como sucessos da vida de casal. E pior: elimina os elos positivos que existiam e gera uma suspeita de que os bons momentos e elogios eram falsos e que, na verdade, você sempre achou tudo odioso.

Depois do que disse num momento impensado, você talvez nunca mais consiga resgatar a plenitude da relação. Mesmo justificando que você ‘só estava com raiva’, seu parceiro poderá pensar que no fundo você realmente acredita no que disse. 

Quem de vocês se comunica assim? Eu: (   )  Meu parceiro: (   )
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5. NÃO OUVIR CRÍTICAS E CONTRA-ATACAR EM OUTROS FLANCOS VULNERÁVEIS
“Você se queixa de que guardo os sapatos sujos na sapateira, mas e a bagunça que você deixa na gaveta do escritório?” ou “Ah, está incomodado porque te critiquei em público, e as fofocas sobre mim que você faz com sua mãe e irmãs?” Ao fazer isso, você não está atento ao mérito de uma eventual queixa procedente de seu parceiro, mas logo tenta ‘empatar’, contra-atacando em outro flanco. Se você guarda sapatos sujos, isso nada tem a ver com o fato de seu parceiro bagunçar a gaveta do escritório.

Você poderia simplesmente concordar com a queixa dos sapatos: “Tem razão, desculpe, vou prestar mais atenção”. E se de fato a bagunça no escritório o incomoda, você pode — em outro dia e em outra ocasião — abordar de modo desvinculado do episódio ‘sapatos sujos’ a questão da gaveta bagunçada: “Notei que nossa gaveta do escritório anda bagunçada e tenho uma necessidade de ordem. Então estive pensando se devíamos comprar mais um gaveteiro”. 

Quem de vocês se comunica assim? Eu: (   )  Meu parceiro: (   )
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6. ENTONAÇÃO E MÍMICA FACIAL AGRESSIVAS (GIRAR OLHOS E TOM CORTANTE)
Talvez você ou seu parceiro não tenham controle e consciência da própria entonação e mímica facial. Todos temos estilos de comunicação arraigados, são hábitos automáticos. Alguns aprendidos com pai, mãe, amigos de adolescência ou com o próprio parceiro, muitas vezes nem percebemos que estamos atacando o outro.

Em consultório, muitas vezes passo dez ou quinze minutos por sessão ajudando o sujeito a perceber quanto seu tom ou mímica são agressivos. Muitos se surpreendem: “Mas eu não usei uma entonação cortante”, “Não falei em tom de bronca”, “Não fiz uma cara feia”, ou ‘de desprezo’, ou ‘de saco cheio’. Tais atitudes destroem em segundos a possibilidade de conversa, logo vocês estarão num bate-boca. Não se autorize a agir assim porque você ‘não aguenta tanta injustiça’. Após ouvir os argumentos dele, você poderá falar.

Criar autoconsciência de mensagens que você passa involuntariamente pode levar um tempo. Gravadores, vídeos ou feedback de testemunhas pode ajudá-la (o) a perceber melhor. 

Quem de vocês se comunica assim? Eu: (   )  Meu parceiro: (   )
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7. FECHAR-SE NUMA POSTURA PASSIVA-AGRESSIVA
Ficar num silêncio passivo-agressivo, por exemplo: manter uma expressão indiferente, ou sair do recinto deixando o interlocutor falando com as paredes. Ou ser frio e distante, concordando de modo protocolar. É possível que você faça isso porque, embora discorde do parceiro, não sabe se justificar e contra argumentar. Ou pode ser que você concorde e se sinta constrangido e exposto, ou talvez você não queira entrar em conflito com um parceiro agressivo.

Ainda que seja difícil, há modos de ficar quieto e aguardar a tempestade passar sem se fechar. Você poderia ficar em silêncio enquanto o parceiro discursa e olhar para ele indicando que está escutando com atenção, e talvez ao final você possa dizer algo como: “Vou mesmo pensar em tudo isso que você me disse. São muitas informações para processar, mas prometo que podemos voltar ao assunto amanhã à noite”. E de fato, num momento mais calmo, você pode retomar o assunto de modo adulto. 

Quem de vocês se comunica assim? Eu: (   )  Meu parceiro: (   )
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É POSSÍVEL SE CONTROLAR E DIVERGIR SEM ATACAR?
Se ao responder ao teste você constatou que usa uma ou mais das comunicações destrutivas quando discute com seu parceiro, lembre-se que algumas delas são hábitos adquiridos na adolescência, outras se formaram como ‘defesa’ ao longo do casamento. Portanto, podem ser desconstruídas! E você pode aprender e se habituar a conversar e debater com seu parceiro de modo mais leal, o que só favorece o diálogo e o enfrentamento mais tranquilo dos problemas. Algumas pessoas conseguem isto apenas se conscientizando, outras se beneficiam de uma temporada de terapia.

Se quiser tentar por conta própria mudar padrões destrutivos de comunicação, reveja os exemplos acima e aqueles do artigo anterior  e selecione aqueles que você tem usado e as sugestões de como poderia ter se comunicado de modo construtivo (as sugestões sempre estão indicadas nos exemplos). Faça uma lista e repasse todos os dias as comunicações ofensivas que você quer parar de usar e as construtivas que deseja adotar. Faça isto durante quatro a seis semanas, após acordar ou antes de dormir. Mesmo que seja tedioso e repetitivo, isto não levará mais do que três minutos de ‘exercício diário’. É provável que ao longo deste período e, sobretudo, depois de seis semanas, quando tiverem discussões, você naturalmente empregue modos alternativos mais positivos de se comunicar.

Experimente, vale a pena!

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