Sem que o casal perceba, uma relação pode assumir um modo passivo-agressivo que tem a capacidade de minar as melhores uniões; aprenda a conversar sem brigar

É comum escutar no consultório a queixa: "Ele não aguenta que eu discorde de algo, eu não disse nada de tão terrível, apenas comentei algo e ele logo ficou furioso".  Essa reclamação costuma vir seguida da questão: "Então não posso mais dizer nada?”.

Talvez o problema não esteja no fato de você discordar dele, nem de ele não aceitar críticas. A resposta do por que deixamos o outro tão furioso, mesmo ‘só dando uma opinião’, com frequência está nas comunicações destrutivas que fazemos sem perceber. 

Acredite, o problema pode não estar no conteúdo, mas na forma. Aprenda a fazer críticas construtivas ou a deixar passar certas coisas para o bem do relacionamento. Evite as chamadas "comunicações destrutivas". 

O problema não é discordar ou receber e fazer críticas, mas usar uma linguagem que mágoa o (a) parceiro (a) sem solucionar os problemas
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O problema não é discordar ou receber e fazer críticas, mas usar uma linguagem que mágoa o (a) parceiro (a) sem solucionar os problemas


Pode ser que você utilize alguma das formas de comunicação destrutivas listadas logo abaixo. Nesse caso, você estará ‘apertando’, sem perceber, os botões vermelhos de seu parceiro, que se inflamarão e ficarão roxos. Resultado: vocês brigarão ou seu parceiro se fechará como uma ostra. 

Muitas vezes, nos comunicamos com agressividade por hábito, sem perceber. Porque crescemos ouvindo e utilizando esses modelos de comunicação. Nem sequer percebemos como estamos sendo agressivos ou mesmo que isso pode ser mudado. 

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Claro que é natural reagirmos às contrariedades de modo agressivo. Muitas vezes, estamos apenas ‘devolvendo’ alguma chateação que tivemos com o cônjuge. Ou descarregando nosso estresse no pobre do parceiro. Mas podemos aprender a nos comunicar de modo não destrutivo. Para tentar se comunicar sem utilizá-las, um bom começo é aprender a identificá-las e, tentar nas próximas conversas, não recorrer a elas. Vale a pena. As melhores relações podem acabar quando prevalecem as comunicações destrutivas. 

Dê uma olhada na lista abaixo. Seja franca consigo mesma e assinale se você (ou seu parceiro) está praticando alguma das formas de comunicação destrutiva.  

Hoje, apresentarei sete delas e em próximos artigos apontarei mais outras.

Comunicações destrutivas

1. Generalizar utilizando o ‘sempre’, o ‘nunca’ e o ‘só’
Exemplos: “Você sempre me critica!”, “Você nunca me apoia!”, “Você só ajuda sua família!”.
Em vez de escutar o eventual mérito de sua queixa, o parceiro logo se lembrará de inúmeras ocasiões em que ele ‘não a criticou, não!’ – ao contrário, engoliu seco a lamentação. Ele ainda pode recordar os momentos em que ‘a apoiou, sim!’, mesmo isso tendo sido feito com sacrifício. Na cabeça dele também virão as situações em que “ajudou, sim,a sua família”. 
Em vez de generalizar, você poderia ser mais pontual, dizendo algo específico,como: “No almoço, quando você me criticou na frente de nossos amigos, me senti exposta” ou “Hoje de manhã, senti falta de seu apoio na discussão com nosso filho”. 
Quem de vocês se comunica assim?: Eu: (   )  Meu parceiro: (   ) 
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2. Acusar de más intenções
Exemplos: “Você não pode me ver feliz”, “Você é egoísta”, “Você quer me controlar”. 
Seu parceiro se ofenderá, não escutará o mérito do que você tem a dizer e sua acusação pode estar equivocada. Talvez ele possa, sim, vê-la feliz, mas pode ser que ao estar sempre feliz você se torne espaçosa, ou lhe dê pouca atenção. Ou seu parceiro não é egoísta, mas carente. Ele pode ainda não queira controlá-la, mas se meter na sua vida com o intuito de ajudá-la, superprotegê-la, ou porque é ciumento e inseguro mesmo.
Para evitar o conflito, você poderia ter dito algo como: “Sua intenção é boa, mas quando você controla meus horários, me sinto sufocada”. Ou perguntar: “Ontem tivemos um desentendimento, imagino que você deve ter tido seus motivos. Talvez eu pudesse tentar entender o que o levou a tomar essa atitude. Vamos conversar?”. 
Quem de vocês se comunica assim?: Eu: (   )  Meu parceiro: (   ) 
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3. Usar a ironia para criticar
Exemplos: “Devo ser mesmo horrível, por isso tenho tantos amigos e você tão poucos”. “É, sou mesmo pão-duro, por isso que comprei um carro novo para nosso filho enquanto você queria dar um usado”. “Você realmente é dedicado à família e à nossa relação, está sempre em casa, conversa com todos e está sempre de bom humor.”
Ao ser irônica, você estará zombando do parceiro e o ridicularizando. O sarcasmo vai deixá-lo ofendido, tumultuando a conversa e tirando os méritos de seus próprios argumentos. 
Quem de vocês se comunica assim?: Eu (   )  Meu parceiro (   ) 
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4. Comparar o parceiro com outros 
Exemplos: “Fulano, sim, tem dinheiro”. “Ele sabe como tratar uma mulher”. 
Esta é uma das comunicações mais destrutivas, atinge o cerne da autoestima e ativa um afeto primitivo, de ciúme e rejeição. Ao fazê-lo, você tumultua ainda mais a conversa e desvia seu parceiro da questão central. Seria muito mais produtivo se você usasse frases como: “Me ressinto de não termos mais dinheiro” ou “Gostaria que você me tratasse de modo mais carinhoso.” 
Quem de vocês se comunica assim?: Eu (   )  Meu parceiro (   ) 
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5. Corrigindo detalhes irrelevantes
Exemplos: Se o parceiro está magoado, por exemplo, porque na terça à noite você não valorizou o esforço dele em reparar o computador, não faz sentido corrigi-lo a respeito da data (“Não era terça, era quarta de tarde!”) ou das circunstâncias (“Não! Naquele dia do computador minha tia não tinha vindo nos visitar, você é que pediu que ela viesse, porque queria ir ao cinema, e que ela ficasse cuidando do nenê!”). 
Ater-se a esses detalhes é um modo de tirar o ímpeto e o foco do esforço que seu parceiro está fazendo para lhe mostrar o ponto de vista dele. Mesmo que você seja obsessiva e se incomode pelas imprecisões do relato, mantenha a atenção no essencial. E não tente desqualificar o argumento dele. 
Quem de vocês se comunica assim?: Eu (   )  Meu parceiro (   ) 
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6. Dizer que ele está “jogando na cara”
Exemplo: Um clássico nesse aspecto é dizer algo como: “O quê? Você está me ‘jogando na cara’ que foi buscar meu primo no aeroporto?”. “Está me cobrando por ter feito um favor?”. 
Ao mencionar algo positivo que fez, o parceiro pode estar apenas apontando a injustiça de ser acusado de não colaborar. Ele está querendo que você considere as coisas boas nas atitudes dele, não só as ruins. É importante saber escutar e reforçar o positivo, dando a ele o reconhecimento e elogio pedido.  
Isso não impede que em outro momento você possa dizer algo como: “Olhe, notei seu esforço em ser mais paciente e tenho gostado muito, mas francamente ainda acho que temos que nos ajustar mais.”
Quem de vocês se comunica assim?: Eu (   )  Meu parceiro (   ) 
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7. Interromper a fala do parceiro
Isso destrói o cerne do valor de um diálogo, que consiste em um escutar o outro. Ao interromper e logo contra-argumentar, sem deixar o outro concluir, você faz com que ele tenha de gritar e ser veemente para se fazer ouvir. Fica uma luta de palavra por palavra. Pior, o parceiro pode desistir de falar e se fechar. 
Aguarde que ele termine, ouça com atenção e respeito, ainda que não concorde com nada, que esteja indignada com as premissas falsas e acusações do outro. Mesmo ainda que seu parceiro seja prolixo e repetitivo. No final, você poderá se colocar com ponderação.
Quem de vocês se comunica assim?: Eu: (   )  Meu parceiro: (   ) 
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Se você ou seu parceiro empregam com frequência algumas destas formas, saiba que elas têm potencial para destruir a relação de vocês. 

Leve a sério e capriche ao se comunicar, não interrompa, não generalize, não compare, não interrompa, não tumultue com detalhes irrelevantes e não desqualifique os argumentos dele dizendo que o outro está lhe ‘jogando na cara’.                                       

Atenha-se ao problema especifico e ao impacto que isto causa em você, sem tumultuar a conversa. Busque sensibilizar o parceiro para sua necessidade e trabalhe para propor soluções, não para contabilizar culpas.

* Luiz Alberto Hanns é terapeuta com mais de 20 anos de prática clínica. Na coluna “Vida a Dois”, ele fala sobre os desafios da vida em casal.

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