Terapeuta afirma: homens e mulheres podem aprender novos comportamentos importantes para o convívio a dois

Pouca participação: participar em trabalhos e problemas domésticos não são mais função exclusiva das mulheres. O mundo mudou e os homens precisam ajudar
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Pouca participação: participar em trabalhos e problemas domésticos não são mais função exclusiva das mulheres. O mundo mudou e os homens precisam ajudar

Em meu último texto apresentei algumas ogrices – comportamentos inadequados tipicamente masculinos – que incomodam muito as mulheres. Nesta coluna termino de apresentar ogrices que são prejudiciais ao relacionamento. A boa notícia é que é possível aprender novos comportamentos. Vamos lá.

6. Não cultivar redes sociais

Ursos solitários

Alfredo está sempre focado na carreira; André, em atividades de lazer pessoais; e Ricardo assiste sozinho a vídeos no computador. Os três não são proativos em cultivar relações conjugais, familiares e sociais. Não telefonam para irmãos, pais, parentes, amigos, não se lembram de datas significativas, não tomam iniciativas de investir nas relações, e por vezes não o fazem nem mesmo com os filhos ou a esposa.

Ainda hoje muitos homens deixam ao encargo da mulher dar atenção aos outros, comprar presentes aos parentes e aos amiguinhos de escola dos filhos ou visitar e conversar com a avó carente e solitária. Em alguns casos eles são tão omissos que a mulher até mesmo tem de servir de mediadora entre eles e os filhos, ou parentes. Há casos em que a mulher até se incumbe de dar atenção à sogra que vive se queixando do pouco caso do filho adulto. Quando cobrados a participar ou até a assumir parte dessas incumbências, colocam-se como desajeitados e desinteressados.

Leia mais: Como lidar com os conflitos de gênero na vida a dois

Nos séculos 19 e 20 isso fazia mesmo parte das obrigações femininas. Mas hoje, a muitas mulheres, essas funções parecem cansativas e pedem que sejam compartilhadas. Elas não querem mais homens desajeitados, monossilábicos, que se mostrem sem traquejo com idosos, doentes e tão inábeis com crianças; que não se incumbam de também cultivar o círculo de amizades do casal e empurrem todos esses cuidados para a esposa.

7. Empurrar problemas domésticos e familiares com a barriga

O senso de urgência feminino em enfrentar problemas domésticos, familiares e educacionais parece exagerado para a maioria dos homens. Ele deixa para depois ou se acomoda e “vai levando”. Como o teatro de operações masculino é o mundo externo e a família faz parte do “lar doce lar”, ele prefere conviver com algumas pendências e imperfeições a se desgastar também em casa e em seu horário de descanso. Deixa o que puder para depois: o vazamento no sifão do tanque na área de serviço,definir as férias da babá no próximo semestre, dar limites ao filho malcriado e, sobretudo, os problemas de relacionamento do casal. Ele quer sossego e vai enrolando.

Muitos homens ignoram os apelos, outros se sentem cobrados e se irritam, e a maioria exerce uma resistência passiva, isto é, enrolam. Com o tempo, as esposas entram num estado de aflição crescente e se tornam por vezes cobradoras agressivas de providências. Na percepção delas, ele não se mostra um verdadeiro parceiro. Decidem então tomar elas mesmas as medidas (às vezes radicais e provocativas) para resolver os problemas a seu modo. Como Penélope, que contratou uma empresa de engenharia hidráulica para consertar o cano da pia! Claro que sua retaliação deu material para mais uma das intermináveis brigas com Ricardo.

8. Não saber “formar casal”

Vidas paralelas

Quando Paulo resolve surfar e deixar Mariana com o bebê na praia, ele nota sua frustração. Mas sendo um homem "moderno" ele sugere então que se revezem, que ela vá passear com as amigas enquanto ele fica com o bebê, ou que Mariana deixe o filho com a sogra e vá passear com as amigas enquanto ele surfa. Não compreende que ela gostaria de um programa a dois, que juntos cuidassem do filho, ficassem conversando, ou que a sogra assumisse a criança e eles passeassem juntos. Ele imagina vidas paralelas e divertidas entremeadas de encontros sexuais, ela imagina vidas mais interligadas.

O terapeuta Luiz Alberto Hanns tira dúvidas sobre a vida a dois
Edu Cesar
O terapeuta Luiz Alberto Hanns tira dúvidas sobre a vida a dois

Como já foi discutido em outras colunas, para muitos homens, o casamento é a fundação de um lar e uma família. Esquecem-se de que é a oportunidade de formarem um casal com cumplicidade e de aprofundar a relação. Uma vez casado,muitos homens querem prosseguir em seus projetos pessoais de carreira, vida esportiva, intelectual ou de lazer. Quando as cobranças da esposa o impedem de seguir seus projetos pessoais, que ele julga compatíveis com o casamento (para ele compatível significa que dá tempo de trabalhar, de se divertir e de descansar e de ocasionalmente ter sexo e sair com a mulher), ele se sente sufocado e indignado.

A mulher normalmente se casa com a expectativa de compartilhar e construir algo a dois, e para isto ela se propõe a mudar radicalmente o projeto individual dela. Ela se dispõe a redirecionar a vida dela para um projeto em dupla e fica muito frustrada quando descobre que ele não muda quase nada na rota dele.

9. Não deixar a parceira brincar de “casinha”

Há homens que ridicularizam e zombam das coisas de mulher. Decoração, educação de filhos, asseio, cuidados na preparação de festas de aniversários. Ou que vetam gastos. Outros pelo contrário querem "participar", mas de um jeito que só piora as coisas. Reivindicam “também terem o direito” de participar de certas áreas tradicionalmente “femininas” e interfirem em zonas nas quais muitas das esposas imaginavam poder exercer livremente seus dotes “femininos” e construir sonhos “de mulher”. Por exemplo, na decoração.

Mas se este for seu caso, para que seu parceiro de fato possa entrar nas áreas tradicionais femininas seria preciso, em alguma medida, ele ao menos soubesse atuar em dupla e pensar e agir a dois, não tentar impor (e aí é claro voce também terá de tomar cuidado para não ser autoritária). Do contrário a “participação” dele será apenas um ato invasivo. Além disso, seria preciso haver reciprocidade e dar a você acesso às áreas tradicionalmente “masculinas”.

O que fazer a respeito?

Se você tem um marido que pratica essas e as outras ogrices que discuti no ultimo artigo, saiba que com apenas algumas semanas de terapia de casal maridos e esposas conseguem mudar (também elas as "mulherices"). Aprendem a reprogramar sua concepção do que é virilidade e feminilidade e se comportar de modo mais adequado e respeitoso.

Leia: 11 sinais de que está na hora de buscar terapia de casal

Se não puder levar seu parceiro a se rever numa terapia (mas não se esqueça de se incluir também nesta revisão de atitudes), aprenda a relevar e ria um pouco das ogrices. São incômodas, mas não são maldades, são desajeitos, defeitos de fabricação do gênero oposto ao seu. Nada é perfeito, nem mesmo o encaixe entre masculino e feminino, há sempre algum desencaixe com o qual temos de aprender a conviver, podem até ter alguma graça.

* Luiz Alberto Hanns é terapeuta com mais de 20 anos de prática clínica. Na coluna “Vida a Dois”, ele fala sobre os desafios da vida em casal.

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