Terapeuta mostra como algumas atitudes femininas podem minar o relacionamento do casal

Briga de casal: coisas típicas das mulheres, as mulherices, podem minar a relação
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Briga de casal: coisas típicas das mulheres, as mulherices, podem minar a relação

No último artigo falei sobre como os conflitos de gênero – as mulherices e as ogrices – interferem negativamente na vida a dois e citei alguns padrões tipicamente femininos. Na coluna de hoje apresento outras cinco mulherices. No próximo falaremos de ogrices. Vamos lá.

Misturar as estações

Efeito cascata

Marcela teve um dissabor com um site de compras de manhã e ligou para Rogério para desabafar. Como ele estava ocupado, ela se irrita (“Ele nunca tem tempo para mim!”). Uma hora depois chega o técnico que veio consertar a geladeira, que, além de estar atrasado, no final deixa a cozinha toda emporcalhada. No almoço, ela tem de travar uma batalha com o filho, que tem um chilique porque não quer comer cenouras cozidas. Ela teve um dia infernal. Já de péssimo humor, decide ligar para a irmã, reclamando que ela ainda não devolveu a travessa de prata emprestada há semanas! Logo estão brigando. À noite, ao chegar em casa, Rogério encontra uma Marcela emburrada e magoada. Afinal, “ele nunca tem tempo para escutá-la” e “ela não aguenta mais essa vida!”. Ele, o filho, a irmã e a sogra serão “punidos” com um mau humor que durará horas ou mesmo dias.

Embora muitos homens exagerem na compartimentalização dos vários setores da vida, muitas mulheres pecam pelo contrário: deixam as contrariedades contaminar todas as outras áreas da vida do casal que provavelmente não estão nem mesmo indiretamente conectadas com o problema. Pequenos aborrecimentos que, isolados, nem sempre são graves, acabamazedendo o dia, a semana, a relação.

Foco na frustração imediata

Justamente a única coisa que pedi!

Juliana pede a André que compre uma lista de mantimentos no supermercado e, justamente um dos itens que ela julgava essencial para o sucesso do jantar, ele, o marido tão distraído e com déficit de atenção, comprou errado. Ela desconsidera a fila que ele enfrentou, os itens que ele trouxe certo ou que ele, há anos, sempre é prestativo. Em vez de buscar uma solução rápida e pragmática sem “puni-lo”, dá vazão à sua frustração. Passa-lhe uma descompostura e faz chantagem emocional, deixando-o se sentir incompetente. “Você nunca liga mesmo para o que eu digo”; e num estilo dramático: “A única coisa que pedi era para trazer a farinha de rosca, não de trigo, e você não dá a mínima!”.

O marido fica com a sensação de que não há como satisfazer sua mulher, porque ela não se contentará com nada; é mimada e exigente em um nível impossível de atender. Aos poucos ele desiste e se afasta. É comum que, uma vez incomodadas ou ofendidas, elas coloquem o problema em primeiro plano, tendo muita dificuldade em relativizar a importância do caso ante o conjunto da vida e da relação. Esse imediatismo, ditado pela intensidade emocional, a deixa incapaz de ponderar.

Expectativas de entendimento telepático

Muitas mulheres se exasperam quando percebem que o marido não foi capaz de perceber coisas que para ela eram óbvias.

O presente que não veio

Marcela deu uma “dica” para Rogério duas semanas antes do aniversário de casamento, quando ela comentou diante de uma vitrine do shopping que “adoraria uma bolsa como aquela”. Ficou chocada quando, no dia do aniversário de casamento, ele lhe convidou para jantar fora e mais nada. Decepcionada porque suas expectativas não foram correspondidas, ela passa o jantar triste. Ocorre que Rogério, no dia do passeio ao shopping, nem se lembrou de que logo teriam aniversário de casamento e, portanto, não associou uma coisa à outra. Talvez ele nem sequer tenha ouvido o comentário dela diante da vitrine, ou talvez tenha escutado, mas pensou que fosse só um comentário a esmo, uma conversa solta, algo análogo a um desejo potencial qualquer, como o dele de “um dia ainda guiar uma Maseratti”.

Mais antenadas no cotidiano, as mulheres muitas vezes captam mensagens e se comunicam de modo mais atento, quase “telepático”. Homens costumam ficar exasperados e às vezes culpados por não conseguirem captar tais mensagens. Rogério com Marcela e André com Juliana levavam regularmente “broncas” nesse quesito.

Intolerância com falhas de asseio e senso de urgência nos afazeres

Você é um desastre!

Juliana se irrita com o fato de André entrar com sapatos sujos no quarto do bebê, não esvaziar o lixo da cozinha, deixar as revistas do banheiro fora do cesto, não lavar o piso da ducha para eliminar os pelos que lá ficam, deixar a direção do carro com suor e gordura, em vez de passar um paninho úmido para deixá-la higiênica etc. O mesmo com relação a desatenções e falta de cuidados que ela julga essenciais para com os filhos: não é cuidadoso com a alimentação, com as necessidades e os ritmos das crianças, ou deixa-as bastante excitadas na hora que deveriam dormir ou, ao contrário, deixa-as ociosas e lê seu jornal no domingo de manhã...

Muitas mulheres catastrofizam essas eventuais falhas ou enxergam problemas onde na verdade só há uma diferença de estilos, de ritmos. O mesmo se dá com o senso de urgência feminino no que diz respeito a afazeres da vida familiar doméstica.

Aos homens, parece que “minha mulher não pode me ver sentado lendo jornal ou relaxando que já precisa me incumbir de tarefas que terão de ser cumpridas naquela hora”. Elas muitas

vezes transferem para o marido a herança feminina de prontidão incessante para o trabalho doméstico, que só acaba na hora de dormir e logo recomeça ao acordar.

Seja ela dona de casa ou profissional, sempre há a pressão por limpar, preparar, atender, acudir demandas de filhos, parentes e da própria administração doméstica, que não tem hora.

Na tradição da subcultura feminina não há como enquadrar tais demandas em horários de trabalho e recusá-las em seus horários de descanso. Para ela, a ida à casa de campo é um pesadelo de trabalho, pois, enquanto as crianças brincam e maridos “curtem” o fim de semana, ela dá o suporte de comidas, limpeza, serviços e cuida do bebê. Descanso, para ela, só de férias em um hotel, talvez sem crianças e quiçá sem marido. Em vez de se rever nessa voragem insana de obrigações e aprender a recusar certas tarefas e horários, o mais comum é que fiquem sobrecarregadas e apelem para que o marido participe da mesma maratona tarefeira. Se ele se recusa, ficam contrariadas, o pressionam ou o punem.

Achar que mau humor é salvo-conduto

Existe um mito na subcultura feminina de que nas relações familiares pode-se e deve-se dizer o que pensa. Muitas mães fazem isso com as filhas. Sem muita diplomacia, as críticas são despejadas às vezes na pior hora e de modo direto e pesado, seguindo a ideia: “Se eu não puder dizer a você o que penso, com quem poderei conversar?”, ou: “Preciso falar, não vou aguentar tendo de engolir tudo sempre”. Há uma ansiedade imediatista e uma urgência em despejar as angústias e corrigir o outro, e muitas acham que a intimidade lhes dá o sagrado direito a fazê-lo.

Algumas mulheres acham que têm direito ao mau humor, ficando implícito que, nesses casos, os exageros se justificam e os outros têm de aceitar. “Ai do marido” que ousar devolver na mesma moeda: será crucificado como grosso e agressivo.

Todas essas mulherices começam a ser percebidas no casamento contemporâneo como falta de educação, falta de respeito, e não mais como jeito natural de mulher. E tal como muitas mulheres desejam se separar por não mais tolerar mais maridos"ogros", muitos maridos também não mais suportam as mulherices. São falta de etiqueta e de conexão.Se você quer que seu casamento dê certo, tente de seu lado, tente diminuir sua própria taxa de “defeitos de gênero”. No próximo artigo falaremos dos eventuais defeitos de gênero do seu parceiro, as ogrices e como você pode tentar encará-las com mais humor e tolerância.

* Luiz Alberto Hanns é terapeuta com mais de 20 anos de prática clínica e autor de “ A Equação do Casamento -- O que pode (ou não) ser mudado na sua relação ” (Paralela). Na coluna “Vida a Dois”, ele fala sobre os desafios da vida em casal.

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