Para colunista do Delas, terminar a relação não é a única opção: é possível aprender a lidar melhor com as dificuldades do outro em vez de forçá-lo a mudar

Este é o último de três artigos sobre a compatibilidade psicológica entre você e seu parceiro. No primeiro falamos de características psicológicas opostas que se complementam e de características opostas que se repelem . No segundo artigo tratamos da sintonia de temperamentos e ritmos, de casais que combinam no estilo e ritmo e de casais que se irritam com o jeito de ser do parceiro . Nos dois artigos discutimos o que pode ser feito a respeito.

Neste terceiro e último artigo abordaremos os casos de pessoas que são casadas com parceiros difíceis de conviver, pessoas cujo funcionamento psicológico é problemático. São cônjuges eventualmente alcoólatras, ou depressivos, ou coléricos e irritadiços, bipolares, ou demasiado ansiosos, só para citar alguns quadros.

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Mas antes quero descrever Emilia e João, um casal ideal, de pessoas equilibradas e felizes, ambos agradáveis de conviver. Embora existam diversos casais assim talvez não corresponda à realidade do seu casamento.

Emilia e João são pessoas equilibradas e mais que isso, satisfeitas consigo mesmas e com a vida, por isso tendem a tirar de letra pequenos problemas do cotidiano. Não implicam com tudo, são facilitadores, daí tendem a se dar bem com a maioria dos parceiros que já tiveram. Têm muitos amigos, se dão bem com familiares, sempre tendem a ver o positivo.

Flexíveis e felizes

Emília não chega a ser tão alegre, otimista e nem tão feliz como João, mas ela é equilibrada por natureza, tem inteligência emocional suficiente para perceber a si mesma e o outro, e em geral usufrui da vida e não tem grandes problemas psicológicos. Já João é daquelas raras pessoas que nasceram com uma inabalável disposição para a felicidade e o bem-estar. Desde pequeno seu temperamento é otimista, vitalizado, e exala alegria de viver.

Parceria saudável: ser uma pessoa de bem com a vida a torna compatível com muitos parceiros
Thinkstock/Getty Images
Parceria saudável: ser uma pessoa de bem com a vida a torna compatível com muitos parceiros

Como a maioria das pessoas mais satisfeitas com a vida, Emília e João são menos rigorosos com pequenos deslizes. Se Emília misturou a papelada da gaveta, João não se importa em arrumar a bagunça. Ela também não faz caso de lavar a louça que ele sempre esquece suja. Não que seja submissa, apenas não se sente explorada. Resolve em minutos o assunto sem contabilizar quem trabalhou. Ambos veem as coisas em perspectiva, não enxergam tudo de modo trágico. Não consideram tudo um ataque pessoal, e não contaminam as dificuldades naturais do dia a dia com uma baixa autoestima. Não sobrecarregam o cônjuge tornando-o responsável por sua felicidade. Vivem e deixam viver. Não idealizam tanto, exigem menos. Enfatizam mais o lado positivo das coisas.

Apesar de tolerantes, pessoas assim não ficam atoladas em relacionamentos neuróticos ou conflituosos. Percebendo que a relação não tem conserto, elas têm coragem de romper, sem medo da separação e do conflito. São menos dependentes e aguentam melhor a solidão, sem “grudar” no outro. São também mais flexíveis quanto ao leque de parceiros aceitáveis. Podem se interessar ou se apaixonar por muitos tipos. Usufruem do que a vida real tem a oferecer. Portanto, ser uma pessoa de bem com a vida a torna compatível com um maior número de parceiros. E certamente favorece uma boa atmosfera conjugal.

A maioria das pessoas não é inerentemente tão feliz como João e tampouco tão equilibrada como Emília. Pessoas comuns são vulneráveis às adversidades e às críticas, e enfatizam tanto o lado negativo quanto o positivo. Na adversidade, podem se frustrar e se tornar pessimistas. Mas estas pessoas podem, com mais experiência de vida ou por meio de terapia de casal, adquirir sabedoria de casamento e aprender a tornar o convívio mais agradável.

Todavia, existe um grupo de pessoas problemáticas que, ou estão constantemente pessimistas, ou desvitalizadas, ou furiosas e irritadas, ou demasiado ansiosas ou terrivelmente dependentes. A verdade é que se você (ou seu parceiro) forem assim, talvez tenham transtornos de humor ou de personalidade e não serão compatíveis com a maioria dos outros parceiros.

Portanto se você tiver um cônjuge muito problemático talvez o problema não seja que vocês não combinam, mas que simplesmente seu parceiro é difícil de se conviver! Porque tem comportamentos inadequados que seriam intoleráveis para a maioria das pessoas. Mas, isto significa que você têm de separar? Não necessariamente. Em alguns casos, mesmo um parceiro com transtornos psicológicos pode valer a pena. Foi o que concluiu Denise. Apesar do marido Ronaldo não reconhecer que deveria se tratar e não se dispor a mudar, ela optou por continuar casada.

Marido difícil

Ronaldo é um parceiro pesado por causa de sua distimia, um quadro psicológico de constante mau humor, pessimismo, ataques de fúria alternados com depressão. Dificilmente encontrará alguém que tenha condições de conviver bem com ele. Não é apenas questão de “encaixe” de personalidades, mas também de desequilíbrio psicológico. Ronaldo é hipercrítico e muito agressivo, mas, apesar das brigas, Denise se sente segura ao lado dele. Tem a sensação de que, apesar da agressividade, ele a protege, é competente e inteligente. Ela também o acha interessante e atraente. Concluiu que valia a pena investir na relação, desde que aprendesse a lidar com a distimia dele e com as suas próprias vulnerabilidades. Para tanto, Denise precisou incrementar sua autonomia psíquica, sua capacidade de usufruir da vida e sua habilidade para lidar com divergências.

Parceria conflituosa: é possível aprender a lidar com o cônjuge difícil
Thinkstock/Getty Images
Parceria conflituosa: é possível aprender a lidar com o cônjuge difícil

Enfim, ela teve de incrementar sua capacidade individual de ser menos dependente, e ser mais habilidosa em evitar as inúmeras áreas de conflito (tudo para Ronaldo podia ser motivo para se sentir ameaçado, desrespeitado e agredido). Ela também teve de aprender a negociar com ele e não se ofender com as grosserias dele. Para outras esposas podia ser melhor trocar de parceiro, para ela parecia melhor continuar com ele e aprender a lidar com o preço de sua escolha. Não há regras para o que fazer com um parceiro difícil, cabe a você experimentar suas opções, testar suas possibilidades e ir descobrindo o que é o melhor para você. Às vezes o "certo" é o "errado" e o "errado" é o "certo". Denise e Ronaldo estão juntos até hoje e, de fato, ela conseguiu aprender como lidar com um parceiro difícil. Ela o reforça, apoia, não inicia assuntos problemáticos em momentos em que sabe que ele está estressado, e sabe colocar as coisas de modo que ele escute. Ronaldo não mudou, mas a vida de casal tornou-se tão mais harmônica e ele não se sente mais desafiado. Hoje tornou-se um marido mais tranquilo e mais carinhoso, tendo menos episódios de agressividade.

Estar casado com alguém desequilibrado pode ser uma experiência terrível. É possível que, eventualmente, seu parceiro a agrida verbalmente, você seja objeto de constante e infundada suspeita, sofra punições e chantagens emocionais, ou ele a arraste para a depressão, o pânico ou a ansiedade em que ele mesmo habita. Enfim, você vive em um inferno doméstico. Mas como no caso de Denise, pode valer a pena aprender a lidar com um parceiro assim.

Nem sempre percebemos que nosso parceiro tem um sério problema psicológico. Às vezes atribuímos os conflitos a posturas egoístas ou a uma questão de caráter. Ou então nos culpamos, achamos que são nossas falhas que estão causando tantos conflitos, ou pensamos que é uma “fase”, um problema de comunicação. Nem mesmo psiquiatras e psicólogos treinados têm sempre certeza do que se passa. Portanto, é difícil saber se seu parceiro é uma pessoa problemática ou se você é que o provoca, ou se ele está vivendo uma fase difícil. O tempo costuma ajudar a responder esta questão.

A verdade é que a maioria dos casais não é nem totalmente equilibrada, como Emilia e João e nem mentalmente perturbada como Ronaldo. Mas a maioria tem quase sempre alguns aspectos psicológicos em desequilíbrio e difíceis de mudar. Por isso mesmo não tendo um parceiro problemático como Ronaldo, vale a pena você aprender a lidar melhor com as eventuais dificuldades de seu parceiro, em vez de tentar forçá-lo a mudar.

* Luiz Alberto Hanns é terapeuta com mais de 20 anos de prática clínica e autor de “ A Equação do Casamento -- O que pode (ou não) ser mudado na sua relação ” (Paralela). Na coluna “Vida a Dois”, ele fala sobre os desafios da vida em casal.

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