O terapeuta Luiz Alberto Hanns alerta: a máxima "os opostos se atraem" só funciona se eles se complementam. Entenda

Nos artigos anteriores falei que o casamento exige muitas negociações para alinhar projetos, ritmo e estilo de vida e que é preciso aprender a negociar sem brigar, bem como a conviver com alguns desajustes que serão eternos.

Leia: Aprenda a discordar e negociar com seu parceiro sem ofender e brigar

Hoje falarei de outro tipo de desajuste, que não se resolve com acordos e combinações, trata-se da compatibilidade psicológica . Se o temperamento e a personalidade de vocês não combinam, vocês terão mais dificuldades em todos os setores do casamento.

Você já deve ter ouvido que opostos que se atraem, mas na verdade, depende se eles se complementam ou não. Por exemplo: um casamento entre um sádico e uma masoquista, ou uma tagarela e um bom ouvinte talvez seja maravilhoso, mas há opostos que se repelem, por exemplo, uma perfeccionista e um bagunceiro, ou uma romântica e um sujeito prático.

Podemos falar da compatibilidade psicológica entre você e seu parceiro sob dois ângulos:

1. Complementaridade de fortalezas e carências

2. Sintonia de temperamentos e estilos

Se você e seu parceiro forem altamente compatíveis nos dois quesitos, vocês falarão a mesma língua, vibrarão juntos pelas mesmas coisas e, ainda que não tenham uma boa atração sexual, serão, ao menos, grandes amigos. Se, além disso, vocês se sentirem sexualmente atraídosum pelo outro, provavelmente terão um grande casamento!

Ocorre que pessoas comuns em geral só são compatíveis em alguns aspectos e são pouco ou nada compatíveis em outros. Neste artigo falarei de complementaridade de fortalezas e carências, no próximo falaremos de sintonia de temperamentos.

Complementaridade de fortalezas e carências

A complementaridade de fortalezas e carências traz uma sensação de acolhimento e aumenta o prazer em conviver.

Casal perfeito

Armando, um executivo viciado em trabalho, e sua esposa, Thais, formam um casal perfeito nesse quesito. Têm três filhos. Ele, 45, é extrovertido, dominador e egocêntrico. Ela, 39, é meiga e sempre equilibrada. Com o marido é apoiadora e paciente, não se importa de esperar sua vez (e tem de esperar muito). Em troca de amá-lo incondicionalmente e preservá-lo dos problemas cotidianos, ela recebe tudo de melhor que Armando tem para dar. Ele sente gratidão pela paz de espírito que ela lhe proporciona e conta para quem quiser ouvir que “Ela é meu esteio”. Sente até ciúmes dos filhos quando ela lhes dá atenção. Ela é dependente, protege-se do vazio interno vivendo em função dos outros, parentes, filhos, marido. Sabe entrar no mundo de cada um e dar a palavra certa. Mas não cobra e não exige, tem uma personalidade “evitativa”: foge até dos próprios conflitos.

Opostos: eles só funcionam como casal se forem complementares, aponta colunista do Delas
Thinkstock/Getty Images
Opostos: eles só funcionam como casal se forem complementares, aponta colunista do Delas

Estivessem casados com um cônjuge de outro perfil, ambos talvez enfrentassem dificuldades. Para a maioria das mulheres ele seria demasiado obsessivo, autoritário e autocentrado, um marido difícil. Ela talvez fosse percebida como desinteressante e muito submissa. Mas eles se completam em seus defeitos e dificuldades. Ao contrário de André e Juliana, que são pouco complementares psicologicamente e potencializam o pior de cada um.

1 + 1 = 0

André, um publicitário de 44 anos, tem um leve déficit de atenção: é desligado e bagunceiro. Além disso, é extrovertido e não gosta de rotinas. Outra característica dele é ser moderadamente “evitativo”, ou seja, foge de conflitos, e faz isso tentando não se importar com as coisas, minimizando problemas. Sua esposa Juliana, executiva de 37 anos, é perfeccionista e tensa. Ao contrário do marido, é tímida e introvertida, caseira, gosta de segurança e sente-se desconfortável diante de imprevistos. É hipercrítica e, sob pressão, se torna irritável. Nesses momentos, tende a maximizar os problemas e ser briguenta. Quando ela conta ao marido que a babá não pôs na mala os remédios do bebê para a viagem, fala disso com indignação, esperando que ele a apoie, talvez desejando que ele se ofereça para falar com a babá. Mas ele se assusta com a veemência dela e sugere que ela está exagerando. Juliana se exaspera com a “cegueira” e a “falta de apoio” dele. Carrega nas cores do problema para tentar convencê-lo da gravidade. Ele então se irrita com a “tempestade em copo d’água”. Acaba se afastando, e ela se sente sozinha. Ela pede que, na manhã seguinte, ele deixe os documentos do carro na gaveta da sala, mas ele os leva por engano para o trabalho — afinal, ele é distraído. Indignada por ter de se atrasar “por causa dele”, ela lhe dá uma bronca por telefone. Ele, que não sabe lidar com confrontos, se fecha. Ela se torna autoritária: exige uma explicação, não se conforma; ele parece ignorá-la! Não entende por que ela é tão severa e rigorosa com coisas tão pequenas, sempre querendo educar a todos (a babá, a mãe, a irmã dela e a ele). Ela se queixa que ele é bruto e desinteressado, se sente pouco apoiada nas responsabilidades e pouco acolhida no estresse de executiva.

Ser moderadamente obsessiva como Juliana ou ser mais desatento como André não são transtornos psicológicos; são traços que, com outros parceiros, poderiam se amenizar. Mas Juliana e André são psicologicamente incompatíveis, eles se potencializam no que têm de pior. Sobretudo porque não sabem como conviver a dois, algo de que falamos no artigo passado ( como conviver com diferenças ).

Porém, mesmo pessoas tão diferentes como eles podem preferir continuar juntos se outras dimensões do casamento compensarem essas dificuldades e se elas aprenderem a entender o tipo psicológico do parceiro.

Talvez você perceba que seu cônjuge não é percebido por todos como tão irritante, mas que para você é difícil lidar com o jeito dele por que vocês ou não são complementares ou não tem sintonia de ritmo e estilo (tema da minha próxima coluna). E possivelmente você aprenda a entender como ele funciona, como pensa e sente. Tal como Juliana que começou a entender que André não era sempre contra ela, mas que ele temia conflitos e precisava imaginar um mundo harmônico. Daí, em vez de brigar com ele, ela passou a formular os problemas e pedidos dela de modo menos contundente e exagerado. O resultado foi que André passou a escutá-la mais e entender melhor as dificuldades que ela enfrentava no dia a dia.

Portanto, se você e seu parceiro não forem muito complementares e mesmo se vocês, como os casais que descreverei na próxima coluna não tiverem muita sintonia de estilo e ritmo, não desanime. Ainda assim, pode valer a pena ficarem juntos. Por exemplo, se houver atração sexual, projetos em comum ou afinidades de interesse. Se você aprender a lidar com as diferenças tudo poderá ficar mais leve.

* Luiz Alberto Hanns é terapeuta com mais de 20 anos de prática clínica e autor de “A Equação do Casamento -- O que pode (ou não) ser mudado na sua relação” (Paralela). Na coluna “Vida a Dois”, ele fala sobre os desafios da vida em casal.

    Leia tudo sobre: amor
    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.