Colunista do Delas ensina a desenvolver competências fundamentais para o convívio harmonioso entre o casal

Discussão civilizada: é possível desenvolver as competências fundamentais para o convívio a dois
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Discussão civilizada: é possível desenvolver as competências fundamentais para o convívio a dois

No último artigo falamos sobre o quanto é comum marido e mulher terem expectativas muito diferentes . Às vezes, diferenças já eram conhecidas na época do namoro, mas deixadas para mais tarde. Ou nem eram percebidas. Em algum grau isto acontece com a maioria dos casais.

Leia: O que deveriam ter contado a você antes do casamento

Hoje falaremos sobre a arte de fazer ajustes nas expectativas de casamento. Talvez você negocie ou ceda, mas tudo isto pode ser difícil se forem questões essenciais para você, ou se um de vocês for rígido ou autoritário. Claro que sempre há a opção de, em caso de grande desacordo, se separar.

Mas se você quiser tentar lidar com a situação é importante desenvolver três competências de convívio a dois:

1. Adquirir habilidade para lidar com divergências sem destruir o parceiro e sem engolir sapos;

2. Seguir boas maneiras matrimoniais, isto é, seguir uma etiqueta de casal;

3. Saber estabelecer uma conexão emocional com as dores e sonhos do parceiro.

Parece difícil? A boa notícia é: pesquisas mostram que você e o seu parceiro podem desenvolver essas competências tão fundamentais. Vamos lá.

Lidando com divergências

A diferença entre casamentos mais ou menos satisfatórios está, em grande parte, no padrão de resolução de conflitos. Alguns casais conseguem evitar que eles surjam: antecipam o problema e o contornam, ou simplesmente mudam de atitude. Quando não podem evitar o embate, dialogam de forma construtiva formando novos consensos. Até mesmo grandes problemas são tratados de forma cooperativa, e não destrutiva.

Outros conseguem transformar todas as divergências em brigas. São agressivos na forma de se colocar, escolhem mal o momento e apertam “botões vermelhos” do parceiro. Este era o caso de Ricardo e Penelope.

“Nhé, nhé, nhé”

Ricardo, 47 anos, e Penélope, 41, casados há 12, travam um diálogo agressivo do início ao fim a respeito de uma viagem com os filhos para casa de praia que ela abomina. Ricardo, já provocativo, diz:  “Vou amanhã com o Fê e o Rafa à praia. Estou te convidando também, mas já sei que você, pra variar [enfatizando a última palavra], prefere ficar aqui gastando em bobagens no shopping. Depois não reclame e não me encha o saco dizendo [imita-a com trejeitos de mulher afetada e chata] ‘Ai, você nunca faz nada comigo no fim de semana, nhé, nhé, nhé’”.

Penelope, irônica, responde:  “Muito obrigada pelo convite tão gentil, mas para sua informação essas ‘bobagens’ no shopping são roupas de inverno para os seus filhos. Ser pai não é ficar levando os filhos para pescar quando você quer e depois largar os meninos sozinhos, ficar bebendo com os amigos e voltar bêbado para casa”.

Ele, já elevando a voz com raiva, replica:  “Sua intriguenta! O que você está pensando? Escute bem [com dedo em riste]: em primeiro lugar, no shopping você não vai gastar o meu dinheiro. Já que você trabalha tanto de [ironiza com uma pronúncia pomposa do inglês] personal stylist , use o seu dinheiro para torrar naquele cabeleireiro ridículo. (Mais calmo e irônico) Aliás, não sei por que você fica tanto no cabeleireiro em vez de fazer ginástica ou uma dieta, que não te fariam mal. E, para sua informação [agora subitamente gritando com fúria]: bêbado é o seu pai!”.

Esse diálogo poderia ter transcorrido de modo diferente . Tanto Ricardo quanto Penelope poderiam prever conflitos potenciais daquela conversa e ir desarmando os pontos de desgaste. Enfim, ambos poderiam ser mais jeitosos. Mesmo pessoas não tão equilibradas são capazes, quando motivadas, de aprender essas habilidades.

Em terapia de casal se faz exatamente este trabalho, ensina-se o casal a perceber quais são os botões vermelhos do parceiro que não devem ser apertados, como abordar temas difíceis e como desenvolver um conflito de modo leal, com possibilidades de negociar sem tumultuar o ambiente. Com exercícios semanais, todos os casais podem aprender a fazê-lo. No meu livro A Equação do Casamento proponho diversos exercícios semanais (ver Parte II, capítulo 13).

Etiqueta de casal

Esse tópico deveria ser parte de um “curso de noivos” ou uma matéria no currículo escolar intitulada “o que devemos saber antes de nos relacionarmos”. Deveríamos aprender que ser espontâneo ou ter intimidade não nos autoriza a sermos displicentes, impulsivos e agressivos. Etiqueta tem muito a ver com educação, tal como boas maneiras à mesa ou em sociedade.

Faça o teste: Você é bem-educada?

Muitos casais não se dão conta de que é justamente com quem vivemos mais intimamente e com quem mais tendemos a ter desgastes que devemos usar mais diplomacia, educação e cuidados. O senso comum que questiona “se não posso ser espontâneo com quem compartilho a vida, com quem vou ser?” é o atalho certo para o desastre.

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Se ser espontâneo é dizer o que pensa, na hora que lhe vem à mente, sem considerar o momento do parceiro e sem levar em conta as vulnerabilidades dele, é melhor que você não seja espontâneo! Mas é possível aprender a ser genuíno, íntegro e sincero sem deixar de ter cuidado com o parceiro. Infelizmente a maioria casa com a ideia de que “com o cônjuge não preciso mais ser cuidadoso”, tal como Marcia e Leonardo, abaixo.

Dois mal-educados

Entre Márcia, de 36 anos, e Leonardo, de 40, casados há dois anos, a falta de tato foi minando a relação. Márcia achava que ser espontânea lhe dava o direito de dizer tudo o que sentia. Criticava os familiares dele e dela e queixava-se da vida quando lhe aprazia, sem levar em conta o cansaço, o estresse ou a vulnerabilidades do marido. Ele também era descuidado, falava livremente sobre a aparência cansada da esposa ou de sua celulite e criticava-a por fazer gastos que, embora pequenos, para ele pareciam desnecessários.

Quando um deles estava de mau humor, achava que tinha salvo-conduto para descontar no parceiro. Se irritados, usavam palavrões. Quando o programa proposto pelo parceiro não era de seu agrado, faziam críticas, e quando um acompanhava o outro, ia de má  vontade, estragando o passeio. E um sempre esperava que o outro adivinhasse suas necessidades e se irritava se isso não acontecia.

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Se você aprender a manter uma boa etiqueta de casal, muitos conflitos nem sequer surgirão. Há livros sobre o tema, mas na verdade, no casamento devemos seguir quase que as mesmas boas maneiras que temos em sociedade. Por exemplo, ter um certo tato e pensar se é o momento e a forma de dizer as coisas e se realmente é necessário dizer tudo que se sente (desabafar pode custar caro).

Há pelo menos cinco grandes regras que, claro, são gerais e de bom-senso:

1. Ser o facilitador das relações sociais e familiares do cônjuge (não tumultuar as relações que seu cônjuge já tinha antes);

2. Não ficar criticando ou zombando do cônjuge, parentes e amigos dele (não ser demasiado crítico e inibir o parceiro);

3. Fazer favores e programas de boa vontade (não fazer de má vontade e de cara emburrada, ou nem mesmo fazer, o risco é aos poucos começarem a ter vidas paralelas);

4. Não querer sempre ser o dono da razão (muitas vezes vale mais contornar do que fazer questão de que o outro admita que você “está certo”);

5. Tentar dizer mais coisas positivas do que negativas, isto é, não deixar que prevaleça a mensagem de que a maioria das coisas que o parceiro faz são insuficientes, ruins, chatas, ou ineficientes.

Conexão emocional

Tomemos como exemplo respeitar diferenças de homem e mulher. Respeitar as influências que seu parceiro recebeu ao longo da vida sobre o que é “ser homem” e o que é “ser mulher” é meio caminho para estabelecer uma conexão com as diferenças de gênero.

É muito provável que seu parceiro siga diversos padrões culturais de gênero. Embora alguns homens possam ser sensíveis e investir em relações, e algumas mulheres possam ser carreiristas e objetivas, o contrário é mais comum. Mas, salvo os exageros, é preciso respeitar o “pacote de gênero”.

Dar espaço para que o parceiro exerça algumas dessas “necessidades de gênero” e possa ter as “deficiências e inépcias” típicas de homem e típicas de mulher é uma sabedoria de casamento.

No exemplo abaixo se trata de um marido que não se conecta com a esposa, mas o mesmo vale para muitas mulheres que, como Ronaldo, não percebem e não respeitam as limitações, os desejos e os hábitos típicos de homens. Claro que ninguém tem de aceitar desaforos, mas tenha calma, homens e mulheres receberam educações e influências diferentes.

Ronaldo e “Ronalda”

Ronaldo, é um executivo de sucesso, quer uma mulher ambiciosa, dedicada à carreira, de quem possa se orgulhar. Não admite que Denise seja “fraca”, que chore diante de adversidades, que se queixe, que desista diante dos obstáculos. Irrita-se se ela não é objetiva nos orçamentos familiares e que ela insista em viajar com o filho à praia durante a temporada de férias, quando os preços dobram. Acha que ela mima o filho, e que “Denise não sabe comandar os empregados, não é objetiva, não sabe decorar com a sobriedade necessária”. Se ela não responde às suas investidas sexuais, fica ressentido. Indigna-se que ela perca tanto tempo falando ao telefone com as mães dela e dele. Também não aceita que ela não levante às 5h30 para correr 6 quilômetros. Ele não quer uma Denise. Quer uma “Ronalda”!

Ronaldo não percebe que gênero, personalidade e situação marcam diferenças nas necessidades, medos, dores e sonhos do outro. Não vê que muitas mulheres alocam de outro modo suas prioridades e tentam compatibilizar carreira, família, relacionamentos pessoais e cuidados com o corpo.

Ele não compreende que haja outras lógicas para marcar férias com o filho, além de otimizar o orçamento. Também não entende que para sua mulher sexo não se programa e compartimentaliza do mesmo modo que para ele. Ele não aceita que relacionamentos com mães, sogras e amigas façam parte de uma rede feminina de obrigações que demandam dedicação, que ela seja meiga com o filho, que tenha outro corpo, outra bioquímica, que queira acordar com calma, que tenha outros desejos de decoração, que seja mais pessoal com funcionários, que demore para se arrumar.

Entrar em conexão não é apenas aceitar; é também interagir e integrar as diferenças do jeito masculino ou feminino e entender as diferenças de personalidade. Implica também interessar-se genuinamente pelo mundo do parceiro. Conecte-se emocionalmente com as dores e sonhos do parceiro.

Arrisco afirmar que a maior parte dos conflitos de casal se origina não de personalidades incompatíveis, mas da nossa falta de conexão com as diferenças de personalidade, o que nos leva a não perceber que o outro não está agindo contra nós, apenas habita outro planeta. Denise não adiava a conversa com o filho sobre as notas ruins em matemática porque queria boicotar Ronaldo, mas porque ela tem dificuldade de se impor e exigir do filho mais responsabilidade. Entrar em conexão com o parceiro é algo ao alcance de todos, mas pode exigir algum aprendizado.

Finalizo afirmando que as três competências são “coringas” da equação do casamento, e por meio delas que você terá chances de alinhar expectativas e propósito de vida entre você e sua cara-metade.

* Luiz Alberto Hanns é terapeuta com mais de 20 anos de prática clínica e autor de “A Equação do Casamento -- O que pode (ou não) ser mudado na sua relação” (Paralela). Na coluna “Vida a Dois”, ele fala sobre os desafios da vida em casal.

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