Terapeuta Luiz Alberto Hanns fala das mudanças sociais que estão gerando desencontros e separações entre os casais

Neste e nos próximos dois artigos da coluna “Vida a Dois” no Delas , falarei de desencontros que estão ocorrendo em muitos casamentos e causando separações que poderiam ser evitadas.

Hoje abordarei sete mudanças que vêm ocorrendo desde a década de 50 e que complicam a relação até dos mais apaixonados! No próximo artigo falarei das diferenças entre as expectativas femininas e masculinas de vida a dois e que levam a muitas brigas e mal-entendidos.

Descompasso: mudanças sociais nos últimos 50 anos modificaram o contrato de casamento
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Descompasso: mudanças sociais nos últimos 50 anos modificaram o contrato de casamento

Sete mudanças que transformaram os casamentos em uma armadilha

Nossos bisavós e avós tinham menos acertos de casal a fazer e, se não eram mais felizes, estavam, em média, mais satisfeitos ou conformados. Eles contavam com quatro condições favoráveis à manutenção do casamento, que hoje desapareceram:

1. Os deveres se sobrepunham à busca da felicidade individual.

Nossos avós tinham uma lista de obrigações a cumprir com os pais, a religião, a pátria e assim por diante. Priorizar o amor e a realização pessoal era tido como um egoísmo inadmissível, sobretudo por parte da mulher. Hoje, ainda que nos disponhamos a fazer algum sacrifício pelos filhos, a meta de cada um é buscar a felicidade pessoal. Se o casamento está mal, você não se conforma, sobretudo se for mulher (70% dos pedidos de separação partem delas, os homens tendem a ir levando). Talvez você tente mudar a relação ou, o que é pior, mudar o marido! Ou desiste e quer sair do casamento.

2. Marido e mulher seguiam tradições, usos e costumes.

Nenhum dos dois tinha dúvidas sobre como agir na maior parte das ocasiões e havia menos divergências de opinião. Hoje não acreditamos mais nos usos e costumes que nos poupavam de tantas dúvidas. Não sabemos mais o que é “certo e errado”. Quem deve acordar de madrugada para trocar as fraldas do bebê, a sogra pode ter a chave de casa, a mulher pode sustentar o marido, quem leva o carro ao mecânico?

3. Não se negociava.

Se você fosse homem, seria o chefe da família e teria autoridade decisória; como mulher, você deveria obedecer. Com a igualdade de gêneros, passamos a ter um sócio com 50% dos votos para discutir e negociar todos os aspectos da vida. Não é à toa que empresas evitam montar estruturas societárias com apenas 50% do controle. No casamento atual, as divergências de opinião tendem a virar impasses. E vocês vão dormir emburrados (talvez um de bumbum para o outro).

4. O casamento dos nossos avós era quase indissolúvel.

Uma eventual separação era trágica, daí os cônjuges tinham muita disposição para fazer o casamento perdurar. Hoje, separar-se não é mais tabu. Embora desgastante, é um ajuste comum na vida. Em torno de 50% dos casamentos acabam em divórcio.

Portanto, havia clareza sobre expectativas, havia regras e havia o consenso de que “as coisas são assim”. Hoje, graças ao avanço da liberdade pessoal, à igualdade de gêneros e à transparência, as tarefas entre marido e mulher redistribuíram-se de modo mais equitativo, mas novas dificuldades surgiram para ambos!

Juntamos num mesmo projeto concepções de diferentes séculos e décadas, algumas incompatíveis. Queremos uma boa vida sexual, parceria e companheirismo, projetos em comum, consenso sobre como levar o dia a dia e como educar filhos, apoio, fidelidade, compreensão, parceiros felizes e bem-sucedidos. Nossas expectativas ficaram imensas. Daí por que muitos casais acabam se vendo numa bela enrascada de metas conflitantes.

O terapeuta Luiz Alberto Hanns fala sobre os desafios da vida a dois
Edu Cesar
O terapeuta Luiz Alberto Hanns fala sobre os desafios da vida a dois

E para complicar ainda mais todos precisamos aprender a lidar com mais três novos fenômenos que nossos avós não conheciam, que são a quinta, a sexta e a sétima mudanças:

5. Todo mundo está on-line, comparando alternativas.

Juliana já viu homens mais sexy que André, que tem caspa e não gosta de escovar os dentes. Pedro conheceu mulheres mais meigas que a ríspida Silvana, sua esposa executiva. Você e seu parceiro foram expostos, antes e ao longo do casamento, a experiências de namoro e na mídia viram modelos de beleza, prazer, sexo, supervitalidade e alta performance. Por isso, tenderão a avaliar seu parceiro (e eventualmente a si mesmos) com rigor e a compará-los com parceiros anteriores ou com modelos de supercompetência e superfelicidade que todos os dias a mídia e os amigos do Facebook lhes esfregam na cara. Ainda não aprendemos a viver com tantas opções.

6. Hoje somos muito mais produtivos, acelerados e estressados.

O tesão de Juliana murcha sob o peso das obrigações domésticas e profissionais. Seu marido, André, não entende a falta de interesse sexual dela. No casamento, multiplicam-se tarefas: criar filhos, planejar férias, constituir patrimônio, manter-se em forma, comprar alimentos orgânicos, cultivar a vida social, buscar sucesso profissional, fazer seguro de vida, de saúde, de roubo, de viagem, check-ups. O estresse que cada um pensa ser uma “incapacidade pessoal sua de ser feliz” é, em parte, fruto dessa epidemia de pressa e sobrecarga que afeta a maioria. Somos mais produtivos, mas continuamos trabalhando muito. Somos mais livres, mas temos mais estresse, depressão e ansiedade. Ainda não sabemos lidar com a nova condição que conquistamos.

7. Os ciclos de carreira, filhos e separação dos homens e mulheres estão defasados.

Em primeiro lugar casamos mais tarde. Mulheres se casam entre 28 e 32 anos, acuadas entre ambições profissionais, o desejo de aproveitar a solteirice e a pressão do relógio biológico. Os homens, por motivos análogos, casam-se entre 30 e 35 anos. Em segundo lugar os ciclos profissionais não coincidem. Elas têm filhos quando teriam de investir na carreira, enquanto isto eles investem na carreira e mal aproveitam a vida a dois. Depois, após os 50, eles querem começar a curtir a vida, quando elas gostariam de finalmente investir na carreira e em si mesmas. E para o homem separar-se entre 50 e 60 pode ser favorável, mas para a mulher muitas vezes seria melhor poder fazê-lo entre os 30 e os 40. Nossos avós não tinham estas questões. Casavam mais cedo, sobretudo as mulheres. Eles trabalhavam e elas eram “do lar”, nada de problemas com carreira, filhos ou com curtir a vida a dois. Aos 50, a potência e o desejo sexual muitas vezes minguavam de vez. Aos 55 ou 60 anos, seu avô se aposentava e entre 65 e 70 ele morria. Sua avó tinha então cerca de 60 e não mais casava. Hoje os cinquentões e cinquentonas viverão até mais de 80 anos e ainda podem ter novos ciclos de carreira, paixão e até fundar novas famílias.

Em resumo, sete mudanças que parecem tão boas (queremos ser felizes, temos direitos iguais, podemos negociar, podemos nos separar, temos redes sociais, somos mais produtivos e casamos maduros), complicaram o modelo de casamento. É preciso mudar o modo como casamos, nossas expectativas e as formas de encarar a relação. Mas estes serão temas dos próximos artigos.

* Luiz Alberto Hanns é terapeuta com mais de 20 anos de prática clínica e autor de “A Equação do Casamento -- O que pode (ou não) ser mudado na sua relação” (Paralela). Na coluna “Vida a Dois”, ele fala sobre os desafios da vida em casal.

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