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Questões do amor

Regina Navarro Lins fala de sexualidade e relacionamentos

é psicanalista e escritora, autora do livro “A Cama na Varanda”, entre outros. Twitter: @reginanavarro

Você acredita em alma gêmea?

Regina Navarro Lins: “Aprendemos a acreditar que amor é uma troca complementar"

14/11/2010 08:00

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Paola, jornalista de 36 anos, está separada há quatro. Simpática e comunicativa, ela tem uma vida social bastante intensa. Muitos amigos e relações amorosas eventuais fazem parte da sua rotina. Um dia desabafou na sessão de terapia: “Quero alguém que me complete! Não tenho pensado em outra coisa. Cansei de ficar trocando de namorado, quero encontrar a minha alma gêmea, para me casar e ser feliz.”

Desde crianças somos levados a acreditar no casamento como única forma de realização afetiva. Passamos a vida esperando o momento de encontrar a “alma gêmea”, “a pessoa certa”, para, a partir daí, vivermos felizes para sempre. Paola quer encontrar alguém que a complete. Essa ideia de que ninguém é inteiro, de que falta um pedaço em cada um de nós é comum, mas bastante limitadora. Vive-se numa procura contínua do parceiro amoroso, e as frustrações daí decorrentes são muitas e desnecessárias. A complementação desejada não passa de uma ilusão, na verdade, ninguém completa ninguém. Nossas dificuldades e mesmo nosso sentimento de desamparo não podem ser resolvidos por meio do outro, e sim atenuados dentro de nós mesmos.

Entretanto, o anseio amoroso de todo ser humano parece ser o de recuperar a sensação de harmonia vivida antes do nascimento. O útero da mãe é o único lugar do mundo onde podemos obter a satisfação imediata de todas as nossas necessidades. Nele desconhecemos a fome, a sede e a falta de aconchego. Depois que nascemos, precisamos respirar com nossos próprios pulmões, reclamar da fralda molhada, nos desesperamos com a cólica. Somos tomados por um profundo sentimento de falta. Uma angustiante sensação de desamparo nos invade. Sem retorno ao estágio anterior, isso nos acompanhará por toda a vida.

A criança dirige intensamente para a mãe sua busca de aconchego. As relações amorosas do adulto funcionam mal porque a maioria tende a reeditar inconscientemente com o parceiro a relação típica da infância. E isso fica claro na forma como se vive o amor, só se aceitando como natural se for um convívio possessivo e exclusivo com uma única pessoa. O condicionamento cultural impõe como única forma de atenuar o desamparo uma relação amorosa fixa e estável: o casamento.

Assim, todos desejam se casar. Ninguém questiona se é mesmo a única forma de realização afetiva. O casal constrói uma tela de proteção contra o mundo e tenta reaver o paraíso simbiótico que tinha no útero da mãe. Ilusão que dura pouco, incapaz de se sustentar na realidade do cotidiano.

Existe uma resistência geral em admitir que o amor pode ser vivido de forma intensa e profunda fora de uma relação entre duas pessoas. O amor romântico alimenta a ideia de que é possível a fusão entre o casal, ou seja, de que os dois podem se transformar numa só — da mesma forma que vivemos com a mãe antes de nascer.

Aprendemos a acreditar que amor é uma troca complementar. A pessoa amada, por possuir o que não existe em nós, vai suprir nossas carências, não deixando que mais nada nos falte. Assim, amor, desejo, gratidão e dependência se associam de forma a inviabilizar uma relação afetiva realmente satisfatória. A fantasia de fusão com o outro o torna tão indispensável para a nossa sobrevivência emocional, que o controle e o cerceamento da liberdade faz parte da vida de um casal.

As pessoas que já conseguiram se livrar da ilusão do amor romântico não têm medo de se perceber sozinhas. Sabem que não podem resolver suas necessidades por meio do outro nem precisam dele para se sentir completas. E o mais importante: não têm motivo para abrir mão da própria individualidade.

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Convido você para o lançamento dos meus livros “A Cama na Rede – o que os brasileiros pensam sobre amor e sexo” e “Se eu fosse você... – uma reflexão sobre as experiências amorosas”, no próximo dia 25/11, às 19h, na livraria Travessa do Shopping Leblon, Rio de Janeiro. Haverá um grande debate sobre o amor e um coquetel. Espero você lá!
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Sobre o articulista

Regina Navarro Lins - renl@gbl.com.br - é psicanalista e escritora, autora do livro “A Cama na Varanda”, entre outros. Twitter: @reginanavarro

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    31 Comentários |

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    • deisi | 26/11/2010 12:40

      creio que o "x" da questao esta do folclore da busca pela "alma gemea", o fato de transferir ao outro sua felicidade e realizao, a metade de voce que fará voce feliz é vc mesmo, acreditar em si, ser feliz no singular é o resultado, pois o proximo nao tem obrigaçao de lhe fazer feliz, realizar seus sonhos, corresponder as suas expectativas, acredite em voce e em seu bem estar, assim encontrará sua alma gemea, nunca procure.

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    • MARA LUCIA | 20/11/2010 22:15

      Eu já acreditei em alma gêmea, hoje já não acredito mais, por que alma gemea deve ser única e o amor não acabaria jamais.
      Fui casada 15 anos no meu primeiro casamento e confesso, não sentia que era amor,separei, fiquei 02 anos sozinha e me casei novamente, ahei que havia encontrado a alma gemea, a gente combinava em tudo, se entendia maravilhosamente na cama nos programas que faziamos juntos, tudo correu muito bem durante 11 anos, derepente descobri que faziam quase 02 anos que meu marido me traia, então deixei de acreditar em alma gemea, mas continuo acreditando no amor.

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    • Mariangela Gonçalves | 17/11/2010 11:18

      Acredito sim em alma gemea. Acho que se algum escritor se interesasse em escrever um livro minha história de vida seria excepcional.Tive dois relacionamentos afetivos e em nenhum deles estava completa faltava sempre alguma coisa e nao sabia o que era.
      A vida é excepcional mal podia saber que depois de tantas coisas ocorridas em minha vida, iria encontrar alguem que conheci há 32 anos atras e que foi o meu primeiro namorado.
      Hoje quando conto aos meus filhos que não pude me casar com quem eu amava na época eles aceitam normalmente. Estamos realmente em outro mundo.
      E..... as coisas acontecem..... não procurem.... elas surgem em sua vida..... apenas as aceite....

      Mariangela Gonçalves

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    • Márcia | 16/11/2010 17:21

      Se é busca por uma alma gêmea não sei... Mas já fui casada e estou separada a algum tempo e sinto falta de um companheiro que seja compreensivo, respeitoso, amigo e carinhoso, mas que tenha vida própria e saiba dividir o tempo na convivência com a família e os amigos. Assim, não me sentirei sufocada e o relacionamento será leve e com menor chance de rotina.

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    • Cintia | 16/11/2010 14:39

      Maravilhoso texto.
      Nos últimos anos tenho vivido nessa busca incessante por esse amor que me complete e o resultado de tudo isso são decepções atrás de decepções. Me tornei uma pessoa com baixa auto-estima e sem confiança.

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    • Sahara | 16/11/2010 12:16

      showm de bola essa matéria!!!!

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    • Janos | 15/11/2010 21:50

      Eu acredito em alma gemea sim. Talvez a palavra "completar" esteja sendo colocada de uma forma muito dura na análise da Sra. Regina Navarro. Fui casado duas vezes e acredito que a grande dificuldade dos relacionamentos está na forma diferente de se encarar responsabilidades, deveres, obrigações e prazeres das pessoas envolvidas. Não sei se pela diferença da educação entre homem e mulher ou pela forma de raciocinio de cada sexo.
      Acredito que em um relacionamento sadio e natural deva existir a alegria mútua tambem na satisfação dos anseios de um único membro do casal, que um deva seder pro outro poder crescer e que a altenancia desse movimento seja natural. Creio que ao invez de usar a palavra completar seja mais correta a palavra compartilhar.
      Ninguem precisa se submeter ao outro pra fazer a felicidade alheia, não ha a necessidade de viver colado só pelo matrimonio ou qualquer outro tipo de relação estável, mas podemos assistir novela e futebol juntos. Só não da pra discutir relação deitado na cama ou na hora das refeições.
      O melhor de tudo é que tenho uma facilidade incrível de encontrar minhas almas gemeas.Elas aparecem com uma facilidade impressionante, sempre escancaradas em um lindo sorriso feminino.

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    • Regina Célia | 15/11/2010 21:48

      Compartilho com essa opinião de que não existe alma gêmea, isso foi incutido em nós principalmente nos contos de fada para sentirmos dependentes do "príncipe encantado' seja emocional, seja financeiro, seja afetivo. como diz uma amiga que a gente casa com um príncipe montado num cavalo, só que ele desce do cavalo e só fica o cavalo. Isso quer dizer que se espera muito do outro para nos realizar o que não acontece já que se não buscarmos de dentro da gente nunca vamos ser felizes ou perceber os momentos felizes." Solidão é ausência que estamos de nós mesmos", por isso saiba se conhecer para ser livre.

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    • Eneida | 15/11/2010 21:08

      É bem verdade o texto!
      As expectativas são um problema.
      As projeções são um problema.
      Não abro mão realmente da minha individualidade, mas não consigo me ver sozinha.
      Carregamos ainda as idéias em nós incutidas.
      Ouvi um termo certa vez e acredito nisso, pelo que já vivi e já vi por aí:
      'não há almas-gêmeas, mas almas com algemas'
      E acredito nisso.
      Criamos laços que são verdadeiras algemas mentais, de problemas e expectativas em relação ao outro que nos travam a evolução.
      Precisamos acreditar mais em nós, em nossas potencialidades e possibilidades como indivíduos, para não acharmos que somos insuficientes para nós mesmos.
      Outras 'almas' que chegarem devem ser para somar, e não completar.
      A individualidade deve ser vista como completude.
      Te acompanho no twitter.
      Abraço!
      @EneidaFreire

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    • Ricardo Nachmanowicz | 15/11/2010 19:52


      Mais uma ótima matéria. Regina é a melhor colunista de todo o Ig.


      Percebi a um tempo que as pessoas colocam o casamento na frente do relacionamento. Sempre penso o casamento como um ponto a se atingir, uma finalidade. Não o princípio da família e instituição reguladora dos relacionamentos. Um relacionamento pode vir a ser mais duradouro, e mais completo, e mais instigante... seria esta a finalidade a que me refiro, mas, assim como onde as paralelas se encontram, pode ser apenas uma imagem de como devemos agir para com quem gostamos.

      Penso que se fazemos algo "pelo casamento" estamos fazendo a coisa errada. Se fazemos algo por nós, estamos certos, que seja, não casar...

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