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Questões do amor

Regina Navarro Lins fala de sexualidade e relacionamentos

é psicanalista e escritora, autora do livro “A Cama na Varanda”, entre outros. Twitter: @reginanavarro

Violência conjugal deve parar antes do primeiro tapa

Mulher deve reagir à violência verbal e psicológica e encontrar em si mesma a força para sair de uma situação abusiva

27/03/2012 10:42

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“Sempre tivemos muitas discussões. Fábio fica bastante irritado quando contrariado. Xinga, me ofende, mas nunca tinha me agredido fisicamente. Ontem, foi diferente. Ele estava com raiva de mim, me empurrou e quando caí no chão me chutou. Levantei, mas ele me segurou com força e me deu vários tapas no rosto. Sorte as crianças estarem dormindo e não terem ouvido nada”. Este foi o relato que Eunice me fez no consultório.

Foto: Thinkstock/Getty Images Ampliar

Compreender por que se tolera um comportamento intolerável é também compreender como se pode sair dele

A mulher foi extremamente maltratada pela violência do homem, considerada banal no lar. No entanto, supunha-se que ela tinha que aguentar e sofrer sem se queixar. Isso durou muito tempo. Na Idade Média, por exemplo, o marido tinha o direito e o dever de punir a esposa e de espancá-la para impedir “mau comportamento” ou para mostrar-lhe que era superior a ela.

Até o tamanho do bastão usado para surrá-la tinha uma medida estabelecida. Se não fossem quebrados ossos ou a fisionomia da esposa não ficasse seriamente prejudicada, estava tudo certo. Hoje as esposas ainda são vítimas de agressões físicas. Estima-se que nos Estados Unidos a violência ocorra em pelo menos 3,4 milhões de lares. A mulher americana é mais vítima de agressões físicas em casa do que de acidentes de carro, assaltos e câncer somados. As estatísticas mostram que grande parte dos ferimentos físicos e assassinatos ocorrem entre pessoas que vivem juntas. No Brasil, uma em cada quatro mulheres sofre com a violência doméstica.

Segundo um artigo do jornal americano New York Times, o comandante das forças das Nações Unidas na Bósnia costumava se referir aos rugidos noturnos das metralhadoras no centro de Sarajevo, em 1993, como “violência doméstica”. Quase todos os homens que agridem suas mulheres acreditam ter esse direito. Foi somente na década de 1970, com as iniciativas das feministas, que se começou a estudar o impacto da violência conjugal sobre as mulheres. Mesmo assim muitas continuam sendo agredidas por seus maridos.

Numa relação amorosa é comum haver discussões, afinal, quando não se está de acordo com alguém argumentar, mesmo de forma veemente, é um modo de reconhecer o outro, de levar em conta que ele existe. Na violência, ao contrário, o outro é impedido de se expressar, não existe diálogo. A agressão física não acontece de uma hora para outra. Tudo tem início muito antes dos empurrões e dos golpes. Um olhar de desprezo, uma ironia, uma intimidação, são pequenas violências que vão minando a autoestima da mulher.

A psicanalista francesa Marie-France Hirigoyen, que escreveu um livro sobre o tema, diz que quando um homem estapeia sua mulher a intenção não é deixá-la com um olho roxo, e sim de mostrar-lhe que é ele quem manda e que ela tem mais é que ser submissa. O ganho visado pela violência é sempre a dominação. Marie-France acredita que atos de violência física podem não ocorrer mais de uma vez ou podem se repetir, mas quando não são denunciados há sempre uma escalada de intensidade e frequência. É suficiente, a partir daí, fazer lembrar a primeira agressão por meio de ameaças ou de um gesto, para que, segundo o princípio do reflexo condicionado, a memória reative o incidente na vítima, levando-a a submeter-se novamente.

A violência física inclui uma ampla gama de sevícias, que podem ir de um simples empurrão ao homicídio: beliscões, tapas, socos, pontapés, tentativas de estrangulamento, mordidas, queimaduras, braços torcidos, agressão com arma branca ou com arma de fogo. “Por meio de golpes, o que lhes importa é marcar o corpo, arrombar o envoltório corporal da mulher, fazer cair assim a última barreira de resistência, para possuí-la inteiramente. É a marca do jugo, é o sinal que permite ler no corpo controlado a aceitação da submissão.”, diz ela.

Não há necessidade do uso da força para subjugar o outro; meios sutis, repetitivos, velados, ambíguos podem ser empregados com igual eficácia. Atos ou palavras desse tipo são muitas vezes mais perniciosos que uma agressão direta, que seria reconhecida como tal e levaria a uma reação de defesa. Marie-France faz uma severa crítica aos psicanalistas que consideram que as mulheres que permanecem na relação experimentam uma satisfação masoquista em ser objeto de sevícias. “É preciso que esse discurso alienante cesse, pois, sem uma preparação psicológica destinada a submetê-la, mulher alguma aceitaria os abusos psicológicos e muito menos a violência física.”

Antes do primeiro tapa as mulheres devem cortar o mal pela raiz, reagindo à violência verbal e psicológica. Para isso é essencial que elas aprendam a perceber os primeiros sinais de violência para encontrar em si mesmas a força para sair de uma situação abusiva. Compreender por que se tolera um comportamento intolerável é também compreender como se pode sair dele.

E por que muitos homens agridem suas mulheres? Não é nada fácil para o homem corresponder ao ideal masculino que a sociedade patriarcal lhe exige – força, sucesso, poder. Homens e mulheres têm as mesmas necessidades psicológicas — trocar afeto, expressar emoções, criar vínculos. A questão é que perseguir esse ideal impede a satisfação das necessidades, e a impossibilidade de alcançá-lo gera frustração. Está aberto o espaço para a violência masculina no dia-a-dia. Essa ideia se confirma quando os estudos mostram que a violência contra as mulheres não é a mesma em todos os lugares. É muito maior onde se cultua o mito da masculinidade.

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Sobre o articulista

Regina Navarro Lins - renl@gbl.com.br - é psicanalista e escritora, autora do livro “A Cama na Varanda”, entre outros. Twitter: @reginanavarro

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