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Questões do amor

Regina Navarro Lins fala de sexualidade e relacionamentos

é psicanalista e escritora, autora do livro “A Cama na Varanda”, entre outros. Twitter: @reginanavarro

Sexo por dinheiro

Regina Navarro conta a história de duas prostitutas e diz que profissionais são guardiãs da moral sexual da sociedade

18/06/2012 15:40

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Quando eu estava escrevendo o capítulo 'Prostituição', do meu primeiro livro, "A Cama na Varanda", deparei-me com algumas questões. Quem são as garotas de programa? O que sentem e como veem a atividade que exercem? Para responder a isso, entrevistei algumas, com idade entre 20 e 27 anos. A seguir transcrevo o relato de duas delas:

Flávia tinha 23 anos, alta, morena, cabelos cacheados, fala tranquila, cursava o segundo ano de direito: “Faço programas porque gosto de conhecer pessoas e também é uma forma de manter minha vida sexual ativa. Não transo só pelo dinheiro. Gosto dessa vida; se fosse sacrifício eu jamais faria. Não preciso disso para viver, meu pai me dá tudo. Mas quero continuar. Dá pra eu tirar um bom dinheiro por mês. A cafetina fica com metade, mas eu sempre roubo os clientes dela. Vou na casa deles ou então a um motel. Seleciono bem os meus clientes, nunca fui agredida mas já tive algumas transas estranhas. Teve um cara que me pagava só para eu fazer xixi na cara dele. Tem muito homem casado que procura a gente. Já transei com políticos famosos e jogadores de futebol. Jamais consegui ter um cara rico nem caso amoroso por dinheiro. Seria sacrificante.”

Foto: Thinkstock Photos

Instalada a relação opressor/oprimido, muitas mulheres usaram o corpo como arma de defesa

Já Claudete é loura, tinha 25 anos. Extrovertida, orgulha-se de seu corpo escultural: “Perdi a virgindade com 22 anos. Sempre tive vários namorados ao mesmo tempo, mas minha mãe controlava minha virgindade. Ela me ameaçava, dizia que ia descobrir pelo meu corpo, pelo meu jeito de andar. Minha irmã era modelo e conhecia muita gente, aí veio o convite pra eu vender minha virgindade por mil dólares. O cara só pagava se eu fizesse exame para comprovar que era virgem. Senti medo, mas tirei de letra. Era um coroa bonito. Daí em diante, continuei. Pela propaganda, várias cafetinas me procuraram. No início sentia repulsa, depois passa a ser um trabalho. Não me envolvo com os clientes, mantenho distância.

Depois que vendi minha virgindade, descobri que tinha o hímen complacente. Aí, a cafetina arranjou um árabe e vendi novamente por dez mil dólares. Ela ficou com metade. Meus planos pro futuro são: gastar muito dinheiro com roupa, amigos e farras. Estou querendo parar, mas não dá pra ser de repente. Tenho que comprar pelo menos um carro. Se trabalhar muito, dá pra ganhar mais. Já tive noite de sair com três ou quatro clientes, eles pagam bem, metade fica pra mim. A maioria que nos procura é homem casado. Sou temperamental. Quando o homem é nojento, vou embora. O que eles mais gostam? Que eu transe com outra mulher pra eles verem.

Todo mundo me deseja. Fico seduzindo as pessoas pelo prazer de saber que tem gente me desejando. Uma psicóloga disse que tenho um desequilíbrio emocional. Já tentei suicídio. Minha mãe não me entende. Choro muito por causa disso. Comecei a fazer programa pra atingir minha mãe. Ela tem muita autoridade sobre mim. Não sei se ela sabe. Dá muitas indiretas. Meu pai é militar, somos de classe média, temos conforto. Acho que me arrisco muito. Tem homens que são muito agressivos, muito loucos. Me arrisco quando durmo com um desconhecido. Posso ser assassinada.”

Sendo as prostitutas as guardiãs da moral sexual da sociedade, o seu verdadeiro crime é revelar a hipocrisia dessa dupla moral. No dicionário encontramos a seguinte definição: “mulher que pratica o ato sexual por dinheiro”.

Então, quantas mulheres casadas, respeitadas e valorizadas socialmente se prostituem com seus próprios maridos? Quantas moças são educadas para só se casar com homens que lhes possam dar conforto e dinheiro? Quantas mulheres solteiras só aceitam ir para um motel com um homem se antes ele pagar o jantar num restaurante caro?

É impossível calcular, mas nada disso é falado. Tudo se passa por baixo do pano para que a respeitabilidade dessas pessoas seja preservada. A prostituta é desprezada, mas a única diferença é que seu jogo é claro. Ela não se preocupa em fingir. “Entre as que se vendem pela prostituição e as que se vendem pelo casamento a única diferença consiste no preço e na duração do contrato.”, diz Simone de Beauvoir, em seu livro O Segundo Sexo.

O exemplo disso é Nanda, uma bonita mulher de 34 anos, que nunca trabalhou. Casou com Carlos quando tinha 23 anos e tiveram dois filhos. Seu padrão de vida sempre foi alto. Nanda fazia ginástica, dança, massagem e comprava tudo o que desejava. Com o tempo, seu desejo sexual pelo marido foi diminuindo, até se tornar um sacrifício fazer sexo com ele. Passou a evitar, dando desculpas que já não convenciam mais. Carlos parou de insistir, mas foi diminuindo o dinheiro que lhe deixava todos os dias de manhã. A situação chegou ao ponto dela ficar sem dinheiro algum, apenas a conta certa do supermercado e das despesas das crianças.

Numa tarde em que estava reunida com os amigos, Nanda desesperada desabafou: “Não transo com ele há dois meses, não consigo. É um sacrifício, mas hoje não tem jeito, vou ter que fazer sexo de qualquer maneira. Meu cabelo está horrível, preciso cortá-lo com urgência.”

Essa é uma história bem antiga. Quando o patriarcado se estabeleceu, há cinco mil anos, a mulher tornou-se um objeto que podia ser comprado, trocado ou repudiado. Instalada a relação opressor/oprimido, a mulher não encontrou outra alternativa. Usou a única arma que tinha para se defender: o seu corpo. Controlando a satisfação das exigências sexuais masculinas, conseguia obter em troca vantagens, assim como jóias, vestidos, perfumes...

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Sobre o articulista

Regina Navarro Lins - renl@gbl.com.br - é psicanalista e escritora, autora do livro “A Cama na Varanda”, entre outros. Twitter: @reginanavarro

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