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Questões do amor

Regina Navarro Lins fala de sexualidade e relacionamentos

é psicanalista e escritora, autora do livro “A Cama na Varanda”, entre outros. Twitter: @reginanavarro

Sexo e culpa

Regina Navarro Lins: o sentimento de vergonha sexual faz com que quase todos se recriminem por suas atividades

31/10/2011 11:15

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Um dia recebi no consultório o telefonema aflito de uma mulher querendo marcar hora urgente. Ethel, de 74 anos, magrinha, de cabeça toda branca, chegou agitada. E foi logo contando sua história: “Moro com minha irmã, dois anos mais velha. Nunca nos casamos, somos virgens. Até pouco tempo atrás eu nunca tinha me preocupado com sexo. Mas de dois anos pra cá a minha vida virou um tormento. De manhã quando acordo, se não me masturbar, não consigo fazer nada, nem dizer para a empregada o que é preciso comprar pro almoço. E o meu desejo sexual vem aumentando cada vez mais. Agora descobri que com o chuveirinho do bidê posso ter mais prazer do que com a minha mão. Mas estou preocupada, tenho pavor de que a minha irmã descubra que faço isso.”

Os sentimentos de vergonha e culpa sexuais, tão presentes na nossa cultura, fazem com que quase todos se recriminem por suas atividades ou mesmo por seus desejos, como se não fossem algo humano. No mundo ocidental, o corpo é impuro de nascença, visto como inimigo do espírito. Aprendemos a nos sentir envergonhados e culpados por ele, principalmente pelos órgãos sexuais e suas funções. Há muito tempo nos ensinam que imagens do corpo humano nu, particularmente experimentando o prazer sexual, são obscenas. E mesmo quando se consegue rejeitar conscientemente todo esse moralismo, a mensagem negativa é absorvida sem que se perceba. E o sexo sendo visto como algo tão perigoso leva a maioria a renunciar à própria sexualidade, ficando quieta no seu canto. A questão é que nem sempre a repressão é bem sucedida, como no caso de Ethel.

As antigas civilizações tinham atitudes bem diferentes diante da nudez e do sexo. Desconheciam o conceito de obscenidade, e as imagens dos órgãos sexuais masculinos e femininos eram encaradas com naturalidade. Muitos santuários espalhados pelo mundo mostram representações de vulvas e falos. Até o momento em que o culto ao falo se impôs, há cinco mil anos, havia liberdade sexual e as deusas reinavam absolutas.

Entretanto, a partir daí, os princípios masculino e feminino se separaram. Na arte, na religião e na vida. O princípio fálico, ideologia da supremacia do homem, condicionou o modo de viver da humanidade e a sexualidade começou a tomar outro rumo. Obcecados pela certeza da paternidade, os homens reprimiram de todas as formas a sexualidade feminina. Mais tarde, na Idade Média, o corpo humano foi condenado por conta do pecado original, e a anti-sexualidade se tornou um refrão obsessivo. Até o Iluminismo (século XVIII), a condenação da sexualidade só iria crescer.

Por mais incrível que pareça, o hábito do banho também foi atacado, considerando-se que qualquer coisa que tornasse o corpo mais atraente era incentivo ao pecado. Havia quem acreditasse que a pureza do corpo e das vestes significava a impureza da alma. Os piolhos eram chamados de pérolas de Deus, e estar sempre coberto por eles era marca indispensável de santidade. Os exemplos da falta de higiene como pré-requisito para a salvação da alma são muitos: um eremita religioso viveu cinquenta anos depois de ter se convertido e durante todo esse tempo recusou-se terminantemente a lavar o rosto e os pés. Uma freira ficou doente em consequência dos seus hábitos. Estava com sessenta anos e, por princípio religioso, recusou-se durante grande parte da sua vida a lavar qualquer parte do seu corpo, com exceção dos dedos.

Na tradição judaico-cristã a relação sexual se justifica apenas para a procriação e só é apropriada dentro do casamento. Mas mesmo nele as proibições são muitas. Masturbação, sexo oral, sexo anal, sexo vaginal usando qualquer tipo de anticoncepcional, são pecaminosos por serem considerados antinaturais. Isso sem falar no tormento provocado por outras situações também comuns, como o desejo sexual por outras pessoas que não os próprios cônjuges e por pessoas do mesmo sexo. A impressão é a de que temos um gatilho de culpa pronto para disparar e nos atingir à menor provocação. É claro que a consequência dessa visão tão distorcida do corpo humano é dramática: o grande número de pessoas frustradas e insatisfeitas

O historiador e crítico social Morris Berman, num estudo intitulado Coming to our senses (Voltando à razão), argumenta que os ocidentais perderam o próprio corpo. Em grande parte estamos fora de contato com a verdadeira realidade somática. Pelo fato de estarmos “fora do corpo”, procuramos nos firmar recorrendo a substitutos — satisfações secundárias — como sucesso, fama, auto-imagem e dinheiro. Esses substitutos não proporcionam uma satisfação completa e, mesmo não levando em conta nossa realidade somática, temos uma preocupação paradoxal com o corpo e sua aparência. Procuramos melhorá-lo com maquiagem, roupas bonitas, cirurgia plástica, tratamentos estéticos, vitaminas.

Diante de tudo isso é impossível não formular uma pergunta: será que a nossa obsessão por sexo não se origina justamente da ausência da verdadeira sexualidade?

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Regina Navarro Lins - renl@gbl.com.br - é psicanalista e escritora, autora do livro “A Cama na Varanda”, entre outros. Twitter: @reginanavarro

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    8 Comentários |

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    • Vigor | 04/11/2011 14:28

      É interessante como qualquer comentário que argumente solidamente contra idéias expostas nos artigos do IG não sao postados. Será que discordar é lido como "algo ofensivo"? Se o é perdoem-me. Mas falar sobre o papel do sexo na cultura judaico-cristão de forma generalizada sem levar em conta a posição protestante é, no mínimo, falta de cultura, digo, um equívoco.

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      Regina Navarro Lins | 04/11/2011 21:04

      Vc não sabe que o protestantismo é cristão?

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    • landa | 01/11/2011 13:26

      O alto conhecimento e a essência da sexualidade, muitas mulheres têm medo de buscar dentro de si mesma as repostas sobre o sexo e sua sexualidade, tem muitas que não se conhecem ou tem vegonha de expor o q/ gosta para o companheiro, ficam em um casulo, fechada para sim e para o outro. Na verdade o que falta e você ser autêntica, quando somos assim quebramos paradigmas da sociedade. Mas garanto, somos felizes, pois não passamos vontade, fazemos aquilo que temos vontade, não importa o que vão achar ou falar, como sempre, a preoculpação com que vão falar, sempre deixa você retraida, e não se solta.\nMuitas vezes a busca secundária somente é para aliviar por alguns momentos, mas dúvido que dentro de si, há um vazio depois, por isso digo: viva hoje, seja feliz , não passe vontade, arrume uma pessoa legal e liberti-se de paradigmas. VIVA , A VIDA E MUITO CURTA. se entregue de corpo e alma, garanto vale apena, não importa o quanto dure.\n\n

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    • Cynthia | 01/11/2011 12:05

      Muito interessante. Essa culpa realmente afeta as pessoas de forma intensa. Eu mesma demorei anos para admitir que sou bissexual, por medo de que meus amigos hetero pensassem que sou "safada" e que os amigos gays pensassem que sou "lésbica enrustida". As pessoas têm uma dificuldade enorme para separar duas coisas que para mim estão claríssimas: a liberdade sexual e a promiscuidade. A liberdade sexual traz harmonia interior, aceitação e realização; a promiscuidade traz desequilíbrio, insatisfação e até risco de saúde. A dosagem é única para cada indivíduo: devemos apenas descobrir qual é o nosso limite de respeito ao próprio corpo e às nossas vontades. A bissexualidade, aliás, acredito que seria um tema interessantíssimo para um artigo aqui, não? Vejo muitos estudos, artigos e informação sobre o universo homossexual, mas há pouquíssima coisa sobre os bissexuais...

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    • Carlos Paes | 01/11/2011 10:30

      Eu adorei essa parte do texto: "O historiador e crítico social Morris Berman, num estudo intitulado Coming to our senses (Voltando à razão), argumenta que os ocidentais perderam o próprio corpo."\n\nÉ muito enriquecedor dentro do contexto da leitura e vai em sentido contrário a tudo que foi escrito antes, como um tiro certeiro ao alvo. Será que essa frase está ali por acaso ?\n\nLeia abaixo\n\n1 - Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome a sua cruz, e siga-me.\n2 - Quem achar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a sua vida, por amor de mim, achá-la-á\n\nOnde podemos achar esse texto? na Bíbia. \n\nE quem disse ? Jesus.\n\nUm abraço

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    • domicio | 31/10/2011 20:07

      Infelizmente, apesar de tanta modernidade, grande parte da humanidade ve o sexo como uma coisa feia, obscena, impura.\nMas apesar disso a populaçao mundial acaba de chegar aos 7 bilhoes.\nE agora ? Se fossemos menos pudicos e mais cuidadosos, a populaçao seria menor e teriamos menos doenças tipo DST ?\nDificila decifrar, mas sexo é bom e saudavel, desde que sejamos cuidados e precavidos.\nFazendo sexo seguro e teremos prazer e saude, sem culpas.\n\n

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    • | 31/10/2011 19:39

      Acabo de ter absoluta certeza de que o nos diferencia dos animais é a burrice, especialmente no tocante a sexo!

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    • Douglas | 31/10/2011 18:49

      Sexo tem que ser saudável, se por algum motivo não está sendo precisa ser repensado!!! plasticaesteticaecia.com.br

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