iG Delas

Colunistas

enhanced by Google
 

Questões do amor

Regina Navarro Lins fala de sexualidade e relacionamentos

é psicanalista e escritora, autora do livro “A Cama na Varanda”, entre outros. Twitter: @reginanavarro

Quero namorar!

Regina Navarro Lins: Não é fácil deixar o hábito de formar um par, fomos condicionados a desejá-lo

04/10/2010 11:33

  • Mudar o tamanho da letra:
  • A+
  • A-

Milena, 38 anos, um filho adolescente, está separada há quatro. Tenta, sem conseguir, encontrar um homem para namorar. Sozinha, ou com as amigas, vai a festas, bares, ou qualquer outro lugar em que imagine haver homens disponíveis. Talvez sua busca seja tão intensa que assuste os possíveis pretendentes. Um dia, no meu consultório, desabafou: “Ando muito desiludida com tudo, acho que tenho algum defeito. Já saí com vários homens, mas eles logo desaparecem. Não consigo engrenar um namoro. Para mim, a vida só tem graça se eu estiver vivendo um romance; preciso ter alguém que me complete. Estar sem um par amoroso ao lado faz com que eu me sinta desvalorizada, jogada fora, como um traste que ninguém quer.”

Não é fácil deixar o hábito de formar um par. Fomos condicionados a desejá-lo, convencidos de que se trata de pré-requisito para a felicidade. Para complicar mais as coisas, há ainda os que, por equívoco ou pela própria limitação, se utilizam de argumentos psicológicos para não deixar ninguém escapar dos modelos. Para esses, maturidade emocional implica manter uma relação amorosa estável com alguém do sexo oposto. Não faltam terapeutas para reforçar esse absurdo na cabeça de seus clientes. E o pior é que eles acreditam e sofrem bastante, se sentindo defeituosos ou no mínimo incompetentes por não ter alguém.

A propaganda a favor da ideia de que só é possível a realização afetiva através da relação amorosa fixa e estável com uma única pessoa é tão poderosa que a busca da “outra metade” se torna incessante e muitas vezes desesperada. E quando surge um parceiro disposto a alimentar esse sonho, pronto: além de se inventar uma pessoa, atribuindo a ela características que geralmente não possui, se abdica facilmente de coisas importantes, imaginando que, agora, nada mais vai faltar. E o mais grave: com o tempo passa a ser fundamental continuar tendo alguém ao lado, pagando-se qualquer preço, mesmo quando predominam as frustrações. Não ter um par significaria não estar inteiro, ser incompleto, ou seja, totalmente desamparado. Mas de onde vem essa idéia?

Na fusão com a mãe no útero, experimentamos a sensação de plenitude, bruscamente interrompida com o nascimento. A partir daí, o anseio amoroso parece ser o de recuperar a harmonia perdida. A criança, então, dirige intensamente para a mãe sua busca de aconchego. No Ocidente aprendemos que, na vida adulta, somente através do convívio amoroso com outra pessoa nos sentiremos completos. Quem, além do ser amado, pode suprir nossas carências e nos tornar inteiros? Aí é que entra o amor romântico, que promete o encontro de almas e a fusão dos amantes, acenando com a possibilidade de transformar dois num só, da mesma forma que na fusão original com a mãe.

O único problema é que tudo não passa de uma ilusão. Na realidade, ninguém completa ninguém. Mas, ignorando isso, reeditamos inconscientemente com o parceiro nossas necessidades infantis. O outro se torna tão indispensável para nossa sobrevivência emocional, que a possessividade e o cerceamento da liberdade sobrecarregam a relação. Por mais encantamento e exaltação que o amor romântico cause num primeiro momento, ele se torna opressivo por se opor à nossa individualidade.

Entretanto, vivemos um período de grandes transformações no mundo e, no que diz respeito ao amor, observamos que o dilema cada vez mais se situa entre o desejo de simbiose e o desejo de liberdade, sendo que este último começa a predominar. Um sinal disso talvez seja o interesse por práticas orientais como meditação transcendental, ioga, tai chi chuan, entre outras. Enquanto tentamos nos sentir inteiros, dependendo de algo externo a nós — a relação amorosa com outra pessoa —, os orientais se voltam para dentro de si mesmos, buscando assim encontrar a sensação de estar completos.

A condição essencial para ficar bem sozinho é o exercício da autonomia pessoal. Isso significa, além de alcançar nova visão do amor e do sexo, se libertar da dependência amorosa exclusiva e “salvadora” de alguém. O caminho fica livre para um relacionamento mais profundo com os amigos, com crescimento da importância dos laços afetivos. É com o desenvolvimento individual que se processa a mudança interna necessária para a percepção das próprias singularidades e do prazer de estar só. E assim fica para trás a idéia básica de fusão do amor romântico, que transforma os dois numa só pessoa.

Uma seguidora no Twitter escreveu esta semana: “Regina, por favor, fala para as pessoas que ser solteira não é um problema! Estou cansada de explicar isso, mas não me entendem!” Esta afirmação confirma o que penso: quando se perde o medo de ser sozinho, se percebe que isso não significa necessariamente solidão.

Siga! Regina Navarro Lins no Twitter

Sobre o articulista

Regina Navarro Lins - renl@gbl.com.br - é psicanalista e escritora, autora do livro “A Cama na Varanda”, entre outros. Twitter: @reginanavarro

» Mais textos deste articulista

    Notícias Relacionadas


    21 Comentários |

    Comente
    • Tatiana Oliveira | 02/11/2010 00:28

      Complicado essa coisa de ser "autosuficiente". Pra mim é o auge da maturidade, que eu espero algum dia alcançar. Com milhares de exemplos ao nosso redor, tv, jornais, amigos, familía, revistas, pensar diferente custa um pouquinho caro (e como!!!!).

      Eu bem acho que a família nos influencia de certa forma. Aqui em casa somos 4 mulheres: minha avó (viúva), minha mãe e minha tia (as duas separadas). Acredito que o fato de estarem todas solteiras me influenciou um pouco também a estar solteira e nunca ter namorado alguém. É como se elas fossem os meus exemplos de que sim, é possível ser feliz sem necessariamente ter alguém ao lado.

      Claro que eu não sou super bem resolvida (tenho 24 anos) . As vezes, eu me zango com a minha solidão e fico achando a pior coisa do mundo, fico me achando uma ET. Mas por outro lado, eu também amo a minha liberdade. Gosto da minha solidão, gosto da não prestação de contas com o outro, de poder ser e fazer o que eu quiser quando bem entender. Adoro essa NÃO-limitação da minha vida.

      Responder comentário | Denunciar comentário
    • Rita | 01/11/2010 18:31

      Estou sem namorar há dois anos!de repente me dei conta que estou bem assim,aceitando este momento sem muita procura dexando a vida me levar...mas as vezes penso não é tempo demais?poxa quero muito estar com alguém,namorar...depois de muita dedicação ao trabalho,estudos,fazendo cursos preparatórios para concursos decidi agora o que eu mais preciso é de namorar muiiiito!

      Responder comentário | Denunciar comentário
    • fernanda | 29/10/2010 11:12

      tenho muitos amigos,acredito que isso atrapalha um pouco meus relacionamentos amorosos,ficar sozinha é melhor do eu imaginava,fiquei muito tempo presa há um relacionamento frustante,as vezes tenho um pouco de medo de me entregar a um novo amor e me decepcionar novamente,sei que não posso generalizar,mas confesso que a liberdade de ficar sozinha é muito bom....

      Responder comentário | Denunciar comentário
    • marlene | 07/10/2010 09:32

      achei esta mensagem reveladora, porem ainda tenho sonhos romanticos que me deixam muito feliz, e sinto me de volta ao passado

      Responder comentário | Denunciar comentário
    • Claudia | 06/10/2010 11:02

      Parabéns pela matéria, excelente!!!! Durante um tempo, vivi em busca de encontrar alguém, depois comecei a me conhecer e descobri o tanto que é excelente aproveitar a vida e as oportunidades, viajar com amigos, ler, assistir à filmes. O que realmente importa é estarmos bem conosco. Isso cria uma atmosfera tão boa que infalivelmente atrai pessoas maravilhosas.

      Responder comentário | Denunciar comentário
    • Jefferson | 06/10/2010 10:59

      É, certamente podemos dizer que a felicidade é algo e alvo de conquistas. O Ser feliz pode ser encontrado no interior de cada um, tomo como experiência quando passei por uma fase de depressão, naquele momento vi as perdas e os ganhos com o que estava passando naquela fase ruim.
      O mais importante para mim, foi poder selecionar os momentos e nesta seleção só guardar os momentos bons, os ruins deixei de lado.
      Um motivo forte para preencher o vazio foi dado por mim mesmo; analisei que quando estava ruim (deprimido); as pessoas desapareciam. E quando estava bem, ai estava rodeado de pessoas em volta. Tomar a atitude de querer ser feliz. Seja só ou acompanhado, seja num momento ruim ou de angustia, tomar a atitude de assumir que ser um (a) solteiro (a), não é motivo de desespero ou incapacidade. Mas sim, vantagens de poder seguir novos caminhos sem impedimentos alheios.
      Sejamos felizes, sempre!!!

      Responder comentário | Denunciar comentário
    • PRISCILLA | 06/10/2010 10:04

      Eu acredito que cada um tem sua maneira de pensar e sentir. Para algumas pessos ir numa balada e ficar com alguem por uma ou duas vezes ja e o suficiente e dai voce parte para outra. Mas tem pessoas pessoas que para se completar precisa de alguem especial do lado, eu sou assim, nao sou feliz sozinha, a vida de solteiro e feita de momentos passageir ose quando voce tem uma pessoa que te ama e que voce ama, essa sensação e mais intensa. No meu caso prefiro estar com alguem do lado sempre, nao gosto de ficar solteira e assim que meu sinto melhor. Nao sei se essa e a foma correta ou nao de se pensar, mas sou feliz assim

      Responder comentário | Denunciar comentário
    • Cristina | 06/10/2010 09:45

      Acredito sim, que o importante é ser feliz, seja solteira,casada, com ou sem namorado.
      Mas sabemos que a maioria das pessoas, principalmente as mulheres, completam a felicidade com um parceiro ao lado. Eu sou uma delas rsrsrsrs

      Responder comentário | Denunciar comentário
    • Gil | 06/10/2010 08:09

      Cada um busca a sua felicidade e no meu caso, sinto-me feliz estando com alguém, estando apaixonado, amando e sendo amado. O meu equilíbrio se firma em dividir e somar os meus sonhos, os meus desejos e planos com alguém. Estou sozinho no momento, já faz 9 meses que me separei e busco alguém, mas hoje, com mais sabedoria e maturidade, não qualquer pessoa, mas que queira realmente ser feliz. Nem todos pensam assim, ainda bem, muitos adoram estar solteiros e sozinhos, curtir os amigos e estar disponível, o que não podemos fazer disso uma regra para ser feliz e termos o cuidado de entrarmos em parafuso pelo fato de não dar certo com alguém. Tenho certeza que encontraremos a pessoa certa ou não. Parabéns pela matéria e principalmente pelas mensagens aqui deixadas.

      Responder comentário | Denunciar comentário
    • Rachel | 06/10/2010 03:41

      Muito bom ler esse texto agora. Acho que estava precisando de palavras assim. Ando muito preocupada, tentando entender o que tenho de errado, porque não consigo arrumar um namorado. Estou tão preocupada que não estou curtindo a vida de solteira! Estou realmente precisando me conhecer melhor e reconhecer minhas virtudes, ser mais segura, e me focar em outras coisas que me tragam momentos felzes!

      Responder comentário | Denunciar comentário
    1. Anterior
    2. 1
    3. 2
    4. 3
    5. Próxima

    Antes de escrever seu comentário, lembre-se: o iG não publica comentários ofensivos, obscenos, que vão contra a lei, que não tenham o remetente identificado ou que não tenham relação com o conteúdo comentado. Dê sua opinião com responsabilidade!




    *Campos obrigatórios

    "Seu comentário passará por moderação antes de ser publicado"

    Ver de novo