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Questões do amor

Regina Navarro Lins fala de sexualidade e relacionamentos

é psicanalista e escritora, autora do livro “A Cama na Varanda”, entre outros. Twitter: @reginanavarro

Por que brigamos tanto?

Regina Lins fala do rancor matrimonial que muitos casais arrastam por anos

10/03/2011 14:31

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Sil e Afonso são casados há 12 anos e têm três filhos. Afonso chegou tenso na última sessão de terapia e desabafou: “Nossa convivência está se tornando insuportável. Não sei por quanto tempo mais vou aguentar. Brigamos por qualquer coisa. Ontem, combinamos um cinema. Mas liguei para Sil pedindo para irmos hoje porque eu estava exausto. Pronto. Foi motivo para discussão a noite inteira. Parece que o carinho que havia entre nós foi substituído por uma raiva, que nem sempre conseguimos segurar. Pior é quando acontece na frente de outras pessoas. No sábado passado, quando estávamos saindo com um casal amigo para almoçar, a briga foi por causa de uma vaga para estacionar o carro. O clima ficou péssimo. As pessoas ficam sem jeito e nunca sei como contornar a situação. Parece que é impossível vivermos em paz. Eu sei que a culpa não é só dela. Também fico sem paciência e, em alguns momentos, digo coisas agressivas. Na verdade, o grande mistério de tudo isso é entender por qual motivo ainda ficamos juntos.

É muito desagradável conviver com um casal que briga. Porém, juntos há muito tempo, não percebem o absurdo de se viver dessa forma. Quando saem com um grupo de amigos e praticamente não precisam se comunicar, ainda passa. Mas quando só há mais uma ou duas pessoas, então a situação tende a ficar tensa. Muitas vezes o casal aproveita justamente a presença dos outros para se agredir, criando uma situação constrangedora – mesmo que os ataques sejam sutis e disfarçados.

“Não conheço rancor pior que o matrimonial. A cara das pessoas nessas situações fica de uma feiúra moral que assusta. O clima em torno dos dois é literalmente irrespirável, sobretudo por acreditarem que ambos têm razão”, afirma o psicoterapeuta e escritor José Ângelo Gaiarsa. Para ele, o rancor matrimonial, acima de tudo, amarra, pega você de qualquer jeito e te imobiliza como se você tivesse caído numa teia de aranha. E quanto mais você se mexe, mais se amargura e raiva sente. Raiva – que faz brigar; mágoa – que faz chorar. A mistura das duas é o rancor. É ficar balançando muito e por muito tempo entre o homicídio e o suicídio. E cometendo ambos ao mesmo tempo.

Mas será que Sil e Afonso sabem por qual razão começam a brigar? Provavelmente não. Entretanto, o que menos importa é o tema da briga; por qualquer motivo o rancor que existe e que se tenta negar escapa, sem controle. As brigas também podem ser silenciosas. Caras, olhares, gestos, tons de voz, ironias disfarçadas, tudo tornando bem desagradável o dia a dia do casal. Alguns chegam ao ponto de, após anos de vida em comum, ir deixando de falar com o outro. Mas ficam ali, juntos, sem nem pensar em separação. “Casamento é assim mesmo...”, dizem.

A dependência emocional que se desenvolve entre marido e mulher dificulta a separação. É comum um precisar do outro para não se sentir sozinhos e, principalmente, para que ele(a) seja o depositário de suas limitações, fracassos, frustrações e também para responsabilizá-lo pela vida tediosa que levam. Quanto maior a defasagem entre a expectativa que tinham do casamento e a impossibilidade de concretizá-la, piores são as brigas.

Geralmente, quando as pessoas se casam alimentam a expectativa de que vão se tornar um só, que terão todas as necessidades satisfeitas pelo outro. Com o tempo, essa fantasia deixa de existir. Virginia Sapir, uma terapeuta de família conhecida no mundo todo, afirma que o sentimento mais comum entre os casais é o desprezo recíproco. Parece que se despreza o outro por ter falhado na sua principal função: tornar a vida do parceiro plena e interessante. Gaiarsa, com sua prática clínica de mais de 50 anos, acrescenta: “Esse rancor matrimonial é a coisa mais peçonhenta, amarga, azeda e torturante de que tenho notícia ou experiência. Sim, experiência – terrível. Quem não a tem vez por outra? Mas quando ela dura muitos meses – até muitos anos – é, na certa, o pior veneno que se pode imaginar”.

Contudo, sou otimista quanto às mudanças. Homens e mulheres já começam a perceber as mentiras do amor romântico e estão se dando conta de que a complementação por meio do outro não passa de uma ilusão. Com isso, diminui muito a disposição para sacrifícios visando manter uma relação. Hoje, ao contrário de outras épocas, é comum haver vários interesses além dos amorosos e já encontramos quem acredite que se desenvolver como pessoa é mais importante do que ter alguém ao lado.

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Perguntei para algumas pessoas quais são as razões pelas quais os casais brigam. A seguir, o que eles pensam:

Zélia Duncan (cantora e compositora)
O mais difícil é você detectar onde está a individualidade do outro... onde está aquele pedaço que, por mais que você divida tudo, nunca vai chegar. Se você acha que chegou é uma ilusão. Está invadindo ou reprimindo a pessoa. É difícil detectar isso quando se está vivendo junto todo dia. Às vezes existem coisas que me irritam, mas não me dizem respeito... é muito difícil sacar essa fronteira.

Nana Caymmi (cantora)
Tudo é por causa dos problemas financeiros. As brigas todas e bebedeiras são porque as pessoas gastam mais do que podem. Para mim a relação vai para a cucuia, não é por falta de amor não. É por ter que pagar o aluguel e tudo mais. O dinheiro é primordial, é só ler o jornal e você não vê um barraco que não seja por dinheiro.

Léo Jaime (cantor e compositor)
Homens são bobos e mulheres são chatas. No fundo o homem sabe que ela vai chateá-lo até que, por ela, ele venha a perder o tesão. Ela chateará pensando em fazê-lo deixar de ser bobo. O homem se casa pensando que ela não vai mudar e ela muda; a mulher se casa pensando que vai conseguir mudá-lo e ele não muda.

Elza Soares (cantora)
A coisa mais difícil na vida do casal é o banheiro. A toalha no chão também começa a complicar a cabeça. E aquelas roncadinhas estranhas... A gente acorda muito feia, tem que dormir maquiada. E de madrugada é bom ir até o banheiro e passar um batonzinho.

Evandro Mesquita (ator e cantor)
A principal coisa é que os dois não tentem ser um só. Cada um tem que ter sua individualidade, ter até um espaço físico próprio em casa. As diferenças de cada um não devem ser obstáculos, e sim motivo de encantamento pela surpresa que causam.

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Sobre o articulista

Regina Navarro Lins - renl@gbl.com.br - é psicanalista e escritora, autora do livro “A Cama na Varanda”, entre outros. Twitter: @reginanavarro

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    13 Comentários |

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    • Alfredo Celso Ferreira | 11/03/2011 10:45

      Lendo o artigo porque brigamos tanto, fiquei frustrado porque não foi apresentada nenhuma resposta para procurar resolver a situação.
      Recomendo o livro: AMOR E RESPEITO, do autor Emerson Eggerichs da editora Mundo Cristão.
      Nele o autor menciona o que ele denomina Ciclo Insano, que em resumo é: Ele age desamorosamente para com ela e ela reage com desrespeito. Com certeza esta é a razão deconstantes brigas e ressentimentos.,
      A maneira de quebrar o ciclo insano é: ele agir, responder de maneira amorosa, independentemente de como ela aja, e ela agir com respeito para com ele, independentemente das atitudes de desamor dele. Somente assim o ciclo insano pode ser quebrado e o casal encontrar alegria e satisfação na convivência.
      Há solução melhor do que separação.

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    • PO | 11/03/2011 10:40

      Como bem disse Léo Jaime: "O homem se casa pensando que ela não vai mudar e ela muda; a mulher se casa pensando que vai conseguir mudá-lo e ele não muda."
      Aos meus 55 anos de vida minha experiência diz isto.

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    • Carmem | 11/03/2011 10:23

      O Evandro Mesquita falou pouco mas disse tudo. Sou casada há 30 anos e sempre respeitamos o outro como é e a sua individualidade e privacidade.Já tivemos problemas, é claro, afinal, somos 2 pessoas diferentes vivendo juntas.E o maior causador de problemas é o dinheiro.

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    • Marcos Y. | 11/03/2011 09:03

      Deve-se considerar ainda quando o problema está na própria pessoa e não envolve, necessariamente, o cônjuge. Este, pela proximidade natural e sendo depositário de expectativas, pode acabar sendo a primeira e mais atingida pessoa.
      Também a educação de cada um em conviver e saber dividir. Oras, quantos irmãos e irmãs tivemos para que pudéssemos experienciar esse tipo de convívio? As famílias tendem cada vez mais a terem filhos únicos, e o contato familiar com primos estão ficando cada vez mais distantes. Os próprios amigos hoje são virtuais. A sociedade está ignorante em dividir espaço e em se relacionar. Qual a função de bailes e grêmios estudantis? Hoje as escolas mal realizam passeios.
      Educação-formação. Consciência indivíduo-cidadão.
      Desconfortos intra e interpessoais tem origem no passado de cada um. E suas manifestações atingem quem está em volta. Bulling? Depredação de bens públicos? Suicídios?
      Considerando que o ser humano é coletivo, quantos de nós fomos preparados para a vida? Aposto que muitos para vestibulares ou concursos. Mas também temos necessidades sociais.

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    • Sandro | 11/03/2011 09:00

      Meu parecer é o seguinte: Os casais brigam por que são falhos quais seres humanos imperfeitos, portanto o caminho é; “Desconsidere as falhas um do outro. Não espere sempre receber em plena medida aquilo que você acha que merece. Leve em conta a imperfeição do outro, e tenha como esteio na relação conjugal o AMOR e o RESPEITO, que são como uma plantinha a ser cuidada todos os dias para que possa crescer e fortalecer a relação. A comunicação é outro fator importantíssimo, também aprenda a rir de si mesmo não se levando a sério demais, evite o isolamento compartilhe com o cônjuge todas as ansiedades e preocupações, pois ao contrário do que alguns especialistas dizem, “Ser uma só carne” está intimamente ligado a felicidade mutua. E não se esqueçam que ainda assim existirão brigas, a diferença é que saberão lidar com a situação sem perder os motivos que os levaram a fazer o voto da amar e respeitar por toda á vida.

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    • zezão | 11/03/2011 07:29

      A matéria é muito interessante...Parabéns!
      Em relação aos comentários de pessoas famosas...o Léo Jaime falou a real,é realmente isso que acontece.
      Agora essa Elza Soares,nada a ver cara.....quem vai acordar de madrugada para passar baton?
      Nossa muito tosco.

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    • lilás | 11/03/2011 07:08

      Na minha opinião é a falta de dinheiro é o principal motivo para acabar com um relacionamento.

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    • juliana | 11/03/2011 00:27

      Pra gente pensar!!

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    • ana | 10/03/2011 23:13

      achei a matéria ótima....q pena q o conteúdo foi minimo. matérias como essa merecem páginas e nao apenas algumas linhas ..quero mais !!!!

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    • Paulo | 10/03/2011 22:05

      Estou procurando uma resposta um denominador comum...

      Mas ninguém tem solução palpavel...

      Acho que todos tem defeitos, e tudo tem que começar aceitando o defeito do outro.

      Se esse defeito for aceitável é possível a convivência.

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