
“Após esse primeiro encontro, tornou-se habitual que sentássemos sob a parreira, apreciando a cidade, no mirante privilegiado de seu apartamento. Numa dessas tardes, abrimos uma garrafa de vinho e brindamos; consumimos várias taças. Meu enlevo erótico cresceu e a beijei, agarrando sua nuca. Talvez eu tenha forçado um pouco a situação, de forma que ela rompeu o abraço e me deu uma bofetada no rosto. Senti ardência e zumbido ecoando. Agarrei suas mãos e as beijei, agradecido.
"Sob Masoch", Flávio Braga (Editora Best Seller)- 128páginas; R$21,90
— Por que agradecer, Severin, quando reagi de forma tão violenta?
Eu não soube explicar. Vermelho e trêmulo, as lágrimas rolaram forte. Desci sem dizer mais nada. Por duas semanas ficamos em silêncio.
Em nosso encontro seguinte tentei a cama, após troca de beijos apaixonados. Ficamos nus. Ela me excitou bastante com dedos ágeis e boca despudorada, mas quando avancei para a consumação carnal, me interrompeu.
— Acho que já somos íntimos o suficiente para que me contes a tua intimidade prometida, disse.
Eu estava em riste, totalmente excitado. Olhei em seus olhos.
— Farei isso, me revelarei, mas para que me compreenda inteiramente, quero que repita o teu gesto daquela noite.
— Gesto? A bofetada?
— Isso, a bofetada, agora!, implorei.
— Mas...
— Agora!
Ela cedeu, estalando um golpe com a mão aberta em minha face. Uma zoeira forte me abalou e expulsei o sêmen num jorro.
— Severin... Que coisa!
Beijei suas mãos e agradeci.
— Preciso de um conhaque. Quer um?
Ela perguntou, erguendo-se pelada e bela. Sentamos na cama, cálices em punho, e relatei o meu segredo.”
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O trecho acima pertence ao livro Sob Masoch (editora Best Seller), de Flávio Braga, inspirado em Leopold Franz Johann Ferdinand Maria Sacher – Masoch, aristocrata e escritor austríaco (1836-1895). Masoch tornou-se célebre ao emprestar seu nome a uma perversão: o masoquismo. Ele é autor de pelo menos 40 livros, mas só é lembrado por “A Venus das peles”, obra em que expõe seu exótico prazer à submissão e à dor. Sacher-Masoch estaria hoje esquecido, se sua literatura não mexesse com os preciosos brios eróticos da humanidade. A seguir uma entrevista com o autor.
Regina: Por que o livro “A Venus das peles” mexe tanto com as pessoas?
Flávio: Um pouco pela anomalia que expõe, não só ao assumir o prazer na dominação e na dor, mas porque o dominado é um homem, nobre, da elite. A inversão sempre causa surpresa. Há ainda o detalhe fundamental: o ativo é o dominado. Ele conduz o seu próprio suplício.
Regina: Fale um pouco da trama do livro de Masoch e como o seu livro dialoga com o dele.
Flávio: “A Venus das peles” narra o encontro de Leopold com Fanny Bognanoff, uma bela aristocrata que o amava e por isso aceita estabelecer com ele um curioso contrato de dominação por seis meses. Há detalhes de voyeurismo também. Leopold impõe que ela consiga um amante, e que este venha a ser o carrasco dele. Tenho exercitado um trabalho de intervenção em obras clássicas do erotismo. Fiz isso com Sade, Petrônio e Casanova. Em cada um escolhi uma fresta ficcional. No caso de “Sob Masoch”, a narrativa parte da mesma perspectiva, com desdobramentos diversos e linguagem contemporânea.
Regina: A maioria desses clássicos descreve costumes considerados perversões. Nossos prazeres são mesmo tão condenáveis?
Flávio: Imagino que busquemos um equilíbrio entre o civilizado e o erótico, como queria Freud. Mas, sem dúvida, a imaginação está na raiz do prazer. A tal ponto que a fantasia erótica, sem consequências negativas, cresce. Qualquer casal pode entrar numa sex shop e adquirir elementos para uma sessão de sadomasoquismo light, sem sangue, mas com muito fetichismo.
Regina: O sadomasoquismo estaria sob controle?
Flávio: Não. Infelizmente, os verdadeiros sádicos e masoquistas estão aí, em número que as estatísticas não conseguem apreender. Os verdadeiros pervertidos não usam trajes de sex shop e, frequentemente, se tornam homicidas ou suicidas. Houve o caso recente do ator David Carradine, vítima de um acidente fatal durante uma sessão de autoflagelo. Há também as dominatrix, que atuam como ativos reais na relação masoquista.
Dores e delícias do sadomasoquismo
Regina: E no plano da literatura? Qual o espaço e quais as limitações que se impõem?
Flávio: No plano do texto eu não consigo enxergar perversão. A palavra cão, não morde! Pode-se arbitrar que um texto seja melhor do que o outro, mas aí é uma questão de estilo. Os novos meios, WEB e games, liquidaram o texto pornográfico. Ninguém vai se masturbar, na atualidade, lendo uma narrativa erótica. Há milhões de filmes na rede de computadores. Hoje o texto é literatura, prazer de natureza estética.
Regina: Você criou livros sobre Sade e agora sobre Masoch. Em cada um deles há um representante do pólo contrário? No “Sade em Sodoma” há masoquistas? No “Sob Masoch” há sádicos?
Flávio: É interessante observar que esses dois autores estão hoje ligados numa palavra composta: sadomasoquismo, mas eles são muito diferentes. Masoch nasceu 16 anos após a morte de Sade. O traço em comum entre eles é a origem nobre: Sade marquês na França e Masoch um aristocrata austríaco. Mas aí cessa a semelhança. Os personagens de Sade se dividem em dominadores e dominados, mas os primeiros utilizam os últimos como objetos, sem a menor relação além disso. Masoch propõe um pacto de dominação em nem mesmo o amor é descartado.
Regina: Entre seus 16 livros publicados, dez tratam de sexo. Você sabe por quê?
Flávio: Acho que é uma fase que está se encerrando, mas eu sinto o erotismo como uma zona escura da humanidade. Tudo poderia ser tão menos complicado e mais prazeroso... Como diz o Foucault: há discursos demais em torno do sexo. Mas é importante deixar claro que escrever sobre clássicos do erotismo é trabalhar dentro da literatura. Quando mergulho numa obra como o Decamerão, que deverá ser o próximo título a sair, o que me interessa é Boccaccio e o século XIV.
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Regina Navarro Lins - renl@gbl.com.br - é psicanalista e escritora, autora do livro “A Cama na Varanda”, entre outros. Twitter: @reginanavarro